2 de abr de 2012

Do princípio ao Fim

Não tem graça. A morte não tem graça nenhuma. Piada de mau gosto. Pode parar! Que isso? Pegadinha do Malandro? Como assim morreu o Millôr?  Então o sujeito vive até os 88 anos produzindo sacações de irreverência e de repente já era. Vira nada? Ah, não. Não vai dar pra aceitar. Quero meu dinheiro de volta. Chama o gerente! Tem cabelo na minha sopa de letrinhas. Olha a foto do sujeito. Rica da cara. Tipo versão diabinho do Rubem Alves ou seria do Suassuna? Todos velhos. Sempre os achei parecidos.  Quando o conheci já era velho, então não foi a velhice que o matou. Digo, conheci por texto, né? Coisa pouca? Não mudemos de assunto. Não vou aceitar dinheiro nem Millôr novo! Quero o velho de volta. Vou no Procon! Não me deixam alternativa que não entrar no pequenas causas. Ok, não li toda obra dele, mesmo porque é muita coisa. Contudo gostava do velho.
Rubem Alves



Millôr
Ariano Suassuna
Eu gosto de velho. De velho inteligente, porque velhice consentida é burrice. Quando o veterano é ligado, volta a ser jovem até o fim, com a vantagem de não ter mais espinhas, claro. Há os seus desconfortos por óbvio. Prefiro pensar as rugas e os não cabelos como tombamento histórico. Ao envelhecer, pensemos a criatura, ainda jovem, foi morar de favor num corpo com  paredes descascadas e telhado vazando. Mas a morte... A morte é despejo! Nascido Milton Fernandes, virou Millôr depois por conta sei lá do que e vários meios de comunicação já falaram disso essa semana. Eu quero é saber do pensamento vivo dele. Suas sinapses devem estar por aí. Nada se perde tudo se copia. Já procurei nos bolsos, no criado-mudo, no armarinho do banheiro. Cadê as frases? Quero citar aqui. Calma, leitor, vamos achar. Tem muito material no site e no twitter do escritor. E não se trata de plágio. Millôr é (era) um frasista. (De quem será essa frase afinal?) Segundo o próprio autor, de vez em quando e o mais raramente possível é bom transcrever alguém já consagrado. 
“Todo homem nasce original e morre plágio”, essa é dele. Só tenho dois livros do maluco. Millôr Definitivo, a Bíblia do Caos, em que encontramos uma coletânea com mais de cinco mil tiradas da cartola. Destaco algumas citações sobre a famigerada inimiga que nos aguarda com braços vitruvianos:
“Morrer é hereditário.” “Morrer não tem perdão.” “Mas já? E por que eu? Por que tão cedo? Por que assim? Por que pra sempre?” “Não tenha medo de morrer. Talvez não haja o desconhecido, haja um velho amigo.”
O outro livrinho que jaz em minha estante é uma peça, O homem do princípio ao fim. Ali, e justamente mais para o fim do texto, Millôr traduz um trecho de Macabeth, de Shakespeare: “A vida é apenas uma sombra que caminha, um pobre ator, que gagueja e vacila a sua hora sobre o palco e depois nunca mais se ouve. É uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria significando nada.” E no fim, bem nos finalmentes o que concluo é que não tem graça. Graça nenhuma!

Publicado no
Diário Popular de Pelotas
30/03/2012

Um comentário:

CESAR CRUZ disse...

Excelente! Sim, esses escritores anosos parecem todos iguais em suas caras e competências. Espero que parem de morrer!

abço
Cesar Cruz