2 de mar de 2012

A segunda guerra

Semana que vem completo quarenta. A coisa não tá fácil! Parece que vou pra guerra. É como entrar em desvantagem pra decidir a segundona. É batalha dos aflitos sem garantia de jogo até o final. É esperar ônibus com letreiro de “recolhe”. É apertar botão de elevador em pavimento com setinha só pra baixo. Se a vida fosse um bumerangue, aos quarenta faria a curva de volta. Não se engane, o leitor, não adianta negar, espernear, desertar. Pode pôr brinco na orelha, corrente no pescoço, conga nos pés, o conflito de gerações é o lobo do homem. Se não casou ainda, sofre. Se acaso separou, casa de novo. E sofre. Se os filhos estão crescendo ou são novinhos, tudo é motivo de preocupação. Se for empregado se incomoda. Se for o chefe se acomoda. Tudo gera crise e enche o olhinho d´água. Mas guerra é guerra. Em frente, marche!

É a segunda adolescência. Travam-se lutas com a pele, cabelos e dentes. Sente-se só e bem acompanhado. Ao completar quarenta, ainda não se é sábio o bastante pra ganhar o prestígio dos veteranos, nem jovem o que chega pra encarar a zoação dos recrutas. E essa crise de meias verdades pode durar de vinte a trinta anos dependendo da sorte do sujeito.

Vive-se um recomeço, sem direito a tréplica. Não adianta chorar sobre o dente de leite derramado. Já não vale a pena ver de novo. Muitas das coisas deixadas de fazer não mais se realizarão. Carreira militar tem limite de idade. Escalar o Everest ou saltar de paraquedas, não me sobe nem me desce. Aprender jiu-jitsu? Código Morse? Tocar gaita de boca? Definitivamente não.

A partir dos quarenta, os dias correm, correm até romperem os tendões. O calendário de Aquiles é o ponto fraco dos números da folhinha. Os meses se queixam da coluna. A semana passada já tem bolsa debaixo dos olhos e a nostalgia dá seu toque diário. Entre um e outro blim-blom, você saca então por que o avô se emocionava a troco de nada com os mesmos causos.

Escrever sobre o próprio aniversário é, aliás, coisa de quem alcança as quatro décadas. Aos trinta, nada redigi sobre a data querida. Agora sou um cara mais serinho. Não quero empregar o termo “coroa”, tá em desuso. Para Nelson Rodrigues o homem só ficaria maduro depois dos quarenta. Maduro tem cara de milico aposentado. Fechadaço. O cronista Cesar Cruz, autor de A idade do vexame, nomeou assim seu livro por conta de um dos textos que versa sobre o advento de sua era quaternária. Já o historiador Jayme Pinsky, refletindo sobre o tema, registrou algumas lamentações dos quarentões de primeira viagem. Oportunidades perdidas, livros não lidos e filmes não vistos estão na desordem do dia. As amizades que não fez, as mulheres que não namorou e aquele parente velhinho que não visitou ficaram no terreno sagrado do que podia ter sido e se foi. E não é que bateu uma saudade doida do tio Luís, com suas histórias da Segunda Guerra que nunca chegou a me contar. Dizem que chorava só de lembrar.

Publicado no DP, sexta
 

2 comentários:

Gisa disse...

Menos Márcio! hahahaha
Ter 40 é uma delícia! Acredita! Seja bem-vindo à nova casa dos "enta", já estou nela há seis anos indo para o sétimo e posso te dizer com tranquilidade: É linda!
Um grande bj professor!

CESAR CRUZ disse...

Márcio, parceiro de letras e solidões (e, agora, décadas tetradécadas!). Tenho a dizer que senti e sofri esta tua crônica. Por mais que eu fale do assunto, não consigo esgotá-lo. É um sofrimento, essa segunda metade da vida que se inicia pra gente. Dizem (mas acho que é inveja dos jovens)que essa segunda metade tende a nos trazer mais aborrecimentos e menos prazeres que a primeira! Duvido! Estou otimista! Mesmo com o tendão rompido. (Sim, leitor, a parte do tend~çao foi alusão do Márcio a este amigo aqui, que andou pisando num buraco... Coroa é fogo!)

Abços
Cesar