17 de mar de 2012

Memórias Parienses

Paris est une fête! Para mim, particularmente, uma festa de aniversário, já que entrei para o clube dos “enta” aqui na capital da cultura ocidental. Desde a semana passada, fui tomado de grande nostalgia. Tenho rememorado grandes e fúteis momentos de minha passagem pelo tempo e espaço. Encontrar-se é fugir dos ponteiros do relógio. É perder-se com o mapa na mão. Com a diferença do fuso, perdi quatro horas, eu sei, mas fiz aniversário duas vezes. Tive duas meia-noites. A do velho e a do novo mundo. E entre uma e outra, escrevi este texto. A moveable feast foi a expressão em inglês, originalmente utilizada por Ernest Hemingway para descrever a cidade-luz. O imaginário da cidade é uma construção móvel. O já velhinho conceito de “representação”, do historiador francês Roger Chartier, expoente da Nova História Cultural, ainda funciona para observar a urbe. Como se enxerga e como é vista pelo estrangeiro, depende dos referenciais históricos. Das representações feitas pela própria cidade e pelas trazidas pelo visitante. No universo pessoal não é diferente. Como nos vemos e como somos vistos são olhares que se cruzam o tempo todo, compondo algo móvel a que chamamos de identidade. Este caleidoscópio mnemônico é o que compõe a complexa construção de nossa história. Tudo muda constantemente para permanecermos os mesmos. Os conflitos internos e a relação com os outros entrelaçam-se, ora produzindo significados edificantes e heroicos, ora neuroses reprimidas e paranoicas. Com a história das cidades é assim também. A memória de um local guarda um inconsciente coletivo repleto de deformações imagéticas e constantes sínteses, reducionistas por uma questão de sobrevivência. O que se lembra e o que se esquece é uma restauração permanente, tanto de indivíduos quanto de comunidades, cidades ou países. 
Filosofando barato à beira do Sena
Paris é mais bela do que fera. Já não parece tão brilhante quanto no entre-guerras, quando o jovem Hemingway, o casal Fitzgerald e outros artistas da geração perdida deslocaram-se da América em busca do charme parisiense. O período foi retratado no último filme de Woody Allen e no livro-guia Todos foram para Paris, do jornalista Sérgio Augusto. Tampouco é hoje tão assustadora quanto a cidade-monstro do final do século XIX, época das Fleures du mal, de Baudelaire. É pasteurizada, cosmopolita e globalizada. É poliglota. Já no aeroporto a moça das informações turísticas fala um português lusitano parfait. Apesar das paisagens não possuírem paralelo no Brasil, há uma sensação familiar. Café au lait com croissant é estar em casa. Sopa quente com sauvignon também é de um bairrismo gaúcho na rive gauche. No supermercado compra-se batata chips, queijo processado, biscoito, baguete, maionese. Tem muita coisa igual e estranha ao mesmo tempo. Livrarias fantásticas e sebos empoeirados são a cara dos que frequentamos no Rio, Porto Alegre ou até em Pelotas. Vemos os livros de sempre. Em francês, toutefois. Sartre, Maupassant, Camus estão aqui e aí. No cinema, os mesmos filmes americanos ou europeus. Nas rádios, mesmas músicas. Encontrar-se é encontrar o mesmo em qualquer parte do mundo.

Publicado no DP 09/03

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