17 de mar de 2012

Memórias Parienses II

Escrevo aqui o que poderia ser um trecho de meu diário de viagem em Paris. Os dias têm 25 horas. Achei chocolate 99% cacau. Anda-se muito por aqui. De metrô e a pé. Subi na Torre Eiffel de elevador. O tal chocolate é amargo pra dedéu. As pernas doem um horror. No metrô tem um cara que toca blues e bate pandeiro com um pé. Subi na Notre Dame na pernada. Dá pra ver o Arco do Triunfo. Do arco dá pra ver a torre e o rio. Não quis passear de bateaux. Baita breguice. Talvez no último dia eu arrisque. Nem que seja pra agradar a namorada. Ela mora comigo mas chamo de namorada. Ainda não provou o chocolate. Não gosta de amargo.

Não há semelhanças entre Paris e Pelotas. De onde tiraram que as cidades se parecem? Cada lugar é único. Cada namorada é uma. Os mendigos são diferentes também. Não pedem nada. Alguns até mais bem vestidos que eu. A maioria dos barcos ilumina a margem do rio com holofotes visíveis da torre. Tudo fica visível da torre, menos a torre. Quase 300 metros de altura. Ah, mas de lá não se vê ninguém pedindo dinheiro ou comendo chocolate amargo. Lembrei do Vitor Ramil cantando que do alto da torre a água do rio é limpa. Dos poucos mendigos que cruzei a pé, notei que ficam ajoelhados com uma plaquinha explicando o motivo da súplica silenciosa. Tenho 80 anos, avisava um.

Não gostei das galerias Lafayette. São chiques demais pro meu gosto. Lá em frente havia uma mulher bem trajada agachada. Olhando pro chão. No papelão, apenas um tenho fome, por favor e obrigada em bom francês.

Algumas roupas são mais baratas que no Brasil. Outras não. A comida é cara. Baguete é barato. Nunca vi gente pra gostar tanto de pão. Livro é caro. Nos buquinistas (livreiros da beira do rio) acham-se exemplares mais em conta. Nada que preste. Alguns datam até o século 17. Caríssimos esses.

Outro dia vi um homem, perto do hotel, sem as pernas, lá nele. Na sua frente o copo de moedas. A livraria próxima à Sourbonne apresenta bons volumes. A Shakespeare and Company é a mais incrível! Reduto de língua inglesa. 99% dos livros in english. Na parte superior ocorrem encontros e oficinas literárias. Subi pra espiar. Discutiam algum texto em française et inglese numa sala repleta de livros. Noutro ambiente, um japonês tocava piano. Qualquer um pode improvisar ou interpretar partituras que lá se encontram.

Há uma cama para jovens escritores que não tenham onde dormir. É preciso ajudar na loja e ganhar a simpatia do dono. Tem uma parede em que é possível deixar um recado ou uma foto. Achei tri. Não deixei recado algum. Fiquei pensando se "tri" não teria vindo de très bonne.

Atrás da Notre Damme um cara toca gaita dessas que tem de norte a sul no Brasil, só que diferente. Na ponte sobre o rio, cadeados são presos com os nomes dos enamorados, a fim de ficarem juntos para sempre. Minha namorada adotou um cadeado com nossas iniciais.

No La Defense há outro Arco do Triunfo. Futurista. Todo de vidro. Não subi. Lá tem um shopping também. O metrô tem cheiro de corpo.


O Sting tocou no Zenith. Valeu! (Nota do autor: aliás foi lá no show que tive o insight para este texto, o que foi um grande alívio, pois em viagem é fogo tirar um tempinho para escrever.) 

No Pompidou, um sujeito bacana toca mais instrumentos que o outro do metrô. É homem-banda-girafa. No entorno da Saint-Eustache uma mulher atirava beijos da janela. E daí?

 Saiu no DP ontem.

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