2 de fev de 2012

O poder da palavra indecifrável



“Pouco se me dá que claudique a onagra, o que me apraz é rosetá-la”. Bourdieu estava certo. A escrita carrega um poder simbólico de dominação. Eu sei... Essa é mais velha que andar pra frente. Será, porém, a cutucada inicial desta crônica.

Na antiguidade, escribas e filósofos tinham posição social confortável. A palavra escrita nunca foi para todos. Na Idade Média, admiro quem acredita que tal período acabou, a Igreja se arvorou da autoridade para dizer o que podia ou não ser lido. Tudo latim e amém. Miserere nobis.

Com o advento dos tipos móveis de Gutenberg e as traduções da Bíblia para as línguas vulgares, os monges copistas medievais perderam poder, apesar da bela caligrafia filigranada que tanto ensaiaram. Meio milênio mais tarde, ainda persiste um poder claudicante no uso arabesco dos vocábulos.

Letrado é sinônimo de erudito. Pessoa com alto grau de instrução. Médico, advogado, professor. Por que o médico escreve difícil? Muitas vezes nem o farmacêutico entende ao certo suas receitas por linhas tortas. Calma lá, não pretendo induzir à automedicação ou ao abandono dos consultórios. Ao contrário, precisamos é justo de bons médicos que nos apontem a cura. O que não se entende mesmo é o uso dos garranchos na prescrição manuscrita. Desde Hipócrates o problema é o mesmo. Então por que não escrevem direitinho? Já reparou que os doutores não usam computador? A maioria mantém as fichinhas dos pacientes registrada à mão. Será só pra não dar o braço a torcer? É a força dos remédios alopáticos. É o poder da indecifrável receita curativa. O que vai agora? Antibiótico ou anti-inflamatório? Ácido acetilsalicílico ou antiácido?

E se não for na forma, será no conteúdo. Com a devida vênia, mas no Direito igualmente conserva-se no linguajar muito de sua força. Aparta-se o leigo, impossibilitando-lhe qualquer autodefesa. Enquanto isso, o Judiciário incha com petições redigidas por advogados de porta de cadeia ou cartório, que sequer sabem escrever com alguma coerência e coesão. Recentemente revisei alguns trabalhos de conclusão de um curso de Direito e de fato há perigo na demora de uma reflexão sobre a qualidade das formações acadêmicas. Será que o bom Direito virou fumaça? Tranquilo, não precisa ficar na defensiva. É a força dos remédios constitucionais. É o poder da indecifrável petição. Que vai agora? Um habeas, um mandado de injunção? Uma tutela antecipada?

O literato não escapa do vício da linguagem empolada. O homo academicus é o mais agarrado ao seu status quo intelectual. Vide a reforma ortográfica. Baita ideia (sem acento). Agora uns poucos acham que sabem escrever o que não sabiam antes. É o poder do indecifrável dicionário de bolso atualizado.

Voltando a nossa citação inicial, vejamos o pai dos burros: Onagra - feminino de onagro, jumento. Claudicar - mancar, fraquejar intelectualmente. Em suma, pouco importa que manque o burro, o que a gente adora é tocar-lhe a espora.

Publicado no DP 27/01/12
 

Um comentário:

CESAR CRUZ disse...

Oportuna crônica, Márcio!

De uns tempos pra cá, pessoalmente, venho num processo de crescente antipatia por esses arroubos de erudição, especialmente no meio literário tupiniquim.

Custei, mas aprendi que em literatura, o simples é o melhor: menos é mais.

Digo custei, pois fiquei uns bons tempos num esforço enorme para "escrever bonito", e demorei a perceber que o bonito é o simples. Um dia eis que li um artigo do Borges dizendo que fez o mesmo, perdeu anos com essa patacoada de querer escrever difícil. Me senti em ilustre companhia!

Quanto aos membros do jurídico, magistrados, advogados e afins, penso: será que um dia não perceberão o ridículo que é aquela linguagem dos contratos?

Lixo por lixo, fico com o velho Odorico Paraguaçu, prefeito de Sucupira, seriado da minha infância. Ah, o Odoricão sim, tinha estilo ao dizer:

"Dorasvantemente hoje vamos encher o peito de orgulho pela inauguralidade deste burlenesco monumento em bronze natural, homenagem da municipalidade, que, com gotejamentos de benquerenças e amorosidades, abraça seus eleitores sucupiranos!"

Coisa linda!

Abço
Cesar