13 de fev de 2012

Minha avó não gostava de falar sobre moléstia ou problema físico de outra pessoa apontando para o próprio corpo. Acreditava que o gesto, ainda que inocente, atrairia para si o malefício de outrem. “Lá! Lá nele”, dona Geroni sempre avisava com um ar de advertência.

Eu era piá e me divertia muito com a estranha superstição. Até que, certa vez, ela disse que vira nas imediações do mercado público um homem que não tinha o nariz. “Só os dois buracos... assim... lá nele.” Por um bom tempo morri de medo de ver o sujeito sem narega na rua. Em minha imaginação (e pesadelos) o dito cujo aparecia com uma cara de porco. Tipo nariz de tomada. Lá nele!

Nem faz muito que me lembrei deste caso. Até acrescentei ao meu conjunto de frases cotidianas o precavido dito de minha finada avó.
Foto: Márcio Ezequiel
Fui procurar se mais alguém usava a expressão. Diz que é bastante comum no nordeste. Coisa de baiano. Por aqui, entretanto, a maioria sequer entende quando mencionamos a explicação protetora de nossa integridade física.

Guimarães Rosa, autor que tanto se empenhou em registrar o linguajar popular, valeu-se do uso do termo no seu famoso Grande Sertão. “Ah, mas o que faltava, lá nele, que ele mais não tinha, era uma orelha, que rente cortada fora, pelo sinal. Onde era que o Luís Pajeú havia de ter deixado aquela orelha?”

Outra citação que encontrei é a do meu amigo Pedro Nava (ou era amigo do Drummond?) no seu livro Capítulos da história da medicina no Brasil. Registrou ali, quero dizer lá, uma definição do fenômeno simbólico: “Quando alguém indica sobre o próprio corpo o tamanho e localização da lesão de outro, sempre neutraliza o gesto de atrair, com a expressão exorcismadora ‘lá nele’ - como quem diz que lá continue e que para si não venha”.

Em nossos tempos, quando as pessoas parecem ser mais e mais autocentradas e voltadas para os próprios piercings, admira-me muito que o tabu linguístico não tenha pegado com maior força. Cada vez é mais raro colocar-se no lugar do outro. Não apenas para perceber sua dor, mas para entendê-lo melhor nas suas alegrias e frustrações.

Há duas semanas, num sábado muito quente, passei por um dos abrigos de menores da cidade. Várias crianças sentadas defronte da casa refrescavam-se na sombra. Parei para conversar com a funcionária da instituição. Logo em seguida fiz graça aos pequenos. Um dos meninos apontou um ferimento na própria perna, contando que havia caído. Mostrei um corte ainda cicatrizando no meu indicador direito. Então, de repente, todos falando ao mesmo tempo, passaram a apontar em si seus próprios dodóis e machucadinhos. Saí dali com um misto de candura e tristeza, pensando que estamos todos feridos. E a lesão é lá mesmo. Lá em nós.

Publicado 10/02/12 DP

Um comentário:

CESAR CRUZ disse...

Veio bem a calhar essa crônica, digamos, medicinal. Quanto a mim, rompi o tendão do calcanhar e estou operado...

Agora é pra mim que o pessoal olha e diz "aquele ali estourou o tendão do pé, LÁ do pé dele!"

abço
Cesar