11 de dez de 2011

O culto amigo


O Natal aquece o comércio, mas estimula o consumismo, todos sabemos. E como não podemos dar presente a torto e a direito por aí, inventamos essa do amigo secreto. Mario Prata escreveu que existem dois tipos básicos de amigos secretos: o do trabalho e o da família. Seja rico ou seja pobre, o resultado sempre vem: distribuição de vale-sorrisos falsos, quando não um festival de mau gosto embrulhado e com fitinha mimosa. Isso ocorre porque não é moleza agradar os outros. Nem Jesus agradou...

Presentear é coisa do passado. Desde os gregos já se davam presentes de grego. Salomé de tão entediada pediu uma cabeça de regalo ao rei e ainda ganhou uma bandeja de brinde. Os reis magos (ou eram pastores?) também presentearam o Deus menino. Aliás, algum cristão aí arrisca uma dica sobre o que seja mirra? Os exemplos históricos das oferendas baratas também se sucedem até os dias atuais. O povo gosta de uma lembrancinha nem que seja marca diabo. E a geração “não esqueça a minha Caloi” saiu das mais pidonas. Atender alguns pedidos, entretanto, pode sair caro. Então, pintou outra ideia. Só pode gastar até tanto. Vai ver por isso só vem porcaria.

Fala sério! Eu nunca ganhei nada que prestasse. Sobre isso já escrevi por aqui e se me repito é porque a instituição da dita amizade secreta está falida mesmo.

O pior é que não tem como escapar do evento. Sempre lembrarão do seu nome na hora do sorteio e ainda entregarão à revelia o papelzinho com a graça do seu par.

Sendo inevitável, pensei em algumas alternativas. Que tal um amigo secreto cabeça? Nada a ver com João Batista... por favor! Proponho um “culto amigo”, um amigo secreto literário. Cada um presenteie com um livro e passado o período de férias, devolvam-se os exemplares para doação a uma escola ou biblioteca pública. Hein? Seria um primeiro passo para romper a mesmice das garrafas de vinho chileno, perfumes da fronteira e camisas polinho. Sei lá... Parece que sempre falta alguma coisa. Ah, culpa cristã nossa de cada dia!

Outra dinâmica solidária (ou natalinamente correta) seria cada um comprar um brinquedo ao seu par. Algo que fosse a cara do seu amigo, amiga. Interessante exercício seria esse de tentar ver a criança no adulto. Feita a revelação e enfrentada toda sorte de chacotas, os presentes seriam então encaminhados para um lar de menores abandonados. Apresentei tal proposta no trabalho, dividindo as opiniões. Houve quem louvasse e quem se rebelasse. Alguém sapateou que queria presente de gente grande e pronto! Do contrário não brincava mais. Outro concordou em receber o brinquedo, porém, avisou que não entregaria sua peça para doação. Em meio à agitação, o gaiato da turma repetia insistentemente que me daria uma bonequinha. Discute daqui, argumenta dali, Papai Noel isso, Jesus aquilo e ficamos no modelo tradicional. Pregar no deserto é brincadeira!

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