16 de dez de 2011

Escritor Pedinte

Por favor, senhor ou senhora, você pode ler essa crônica? Tomou-me tempão para escrevê-la, pode dar uma olhadinha? É baseada numa música dos Beatles, ”Paperback Writer”, em que a letra é uma carta a um editor, através da qual um autor implora para escrever livros de bolso, brochuras (paperback). Para tanto, conta que redigiu um trabalho com mais de mil páginas, baseado em um romance sobre um homem cujo filho trabalhava para o jornal britânico Daily Mail. Apesar do emprego fixo, o tal filho também desejava ser escritor de livros de bolso. Não entendeu nada? Pois era bem isso. Uma história dentro da história. E tudo dentro da letra da música. O homem se chamava Lear, anagrama para “real” ou referência ao rei shakespeariano, não se sabe. Comentaristas atribuem o nome a Edward Lear, pintor vitoriano que escreveu alguns poemas que inspiraram John Lennon, coautor da canção com Paul McCartney.
Lançada em 1966, rapidamente alcançou as primeiras posições nas paradas britânica e americana sem valer-se da temática amorosa, comum à produção da gurizada de Liverpool. As letras anteriores eram de John e a vez de escrever algo tocava a Paul, sendo dele a ideia da canção epistolar metalinguística. Dizem que usou uma carta de verdade que recebeu de um aspirante a escritor. Por volta de um minuto e vinte segundos de execução, percebe-se John e George fazendo um ”backing vocal” com a canção infantil ”Frére Jacques”, apelando ao inconsciente com uma música dentro da música, enquanto Paul seguia com o tema principal.    
Os ”paperback” começaram a ser produzidos em maior escala no final dos anos 30, tornando-se muito populares nos decênios seguintes. Logo após a Segunda Guerra, o preço da celulose disparou e as editoras encolheram suas publicações  para o chamado formatinho -  igual ao da Revista Seleções. Nesta época bombava a ”Pulp Fiction” (Ficções de Polpa), gênero, aliás, que existia desde a virada do século (vide google).
A tarefa de publicar nunca foi fácil, leitor. O escritor tem que suplicar para provar que tem algo vendável a dizer. Podemos virar milionários, prometia o personagem imaginado pelos músicos mais bem-sucedidos do planeta.
No Brasil dos anos 80 a música “Inútil” ainda reclamava “a gente escreve livro e não consegue publicar.” O mundo mudou para tudo continuar igual. Hoje preconiza-se o ressurgimento de edições baratas, algumas com material de melhor qualidade do que a polpa da celulose. Usa-se o papel reciclado, que tá na moda. Qualquer um pode publicar seu livro em uma gráfica ou editora pequena. Pagando do bolso, claro. O processo todo, entretanto, anda longe da simplificação almejada e ter acesso a um editor é um exercício que beira a mendicância.  
A canção dos Beatles dizia “Eu quero ser um escritor de livros de bolso!” Hoje teríamos que acrescentar, “um escritor brilhante, com dinheiro suficiente pra bancar a edição, coquetel e  divulgação, além de, se não for pedir demais, que venda um milhão de exemplares”!
Publicado hoje no DP.

3 comentários:

CESAR CRUZ disse...

Caro Márcio

Deus sabe o quanto me identifico com isso. A solidão do escritor é de fato atroz e brutal, como diz o Kiefer. O Cristóvão Tezza tem uma verdade que até dói de tão verdadeira, veja: "escritores são animais agonizantes". Concordo plenamente. Sou um mendigo das letras. Um mendigo confesso. Que vergonha...

Acabei de lançar mais um livro, como você, e ando na luta inglória por divulgação, por que pelo menos os amigos comprem 1 exemplarzinho-pelo-amor-de-Deus! Uma lástima.

Como disse um amigo meu: "Cesar, o problema é que essa é uma guerra atômica, só que você a está enfrentando armado de estilingue". Verdade.

Por falar em ajuda mútua, já que ninguém nos lê mesmo, não tem jeito, me manda 1 exemplar do seu livro "Prelo". Autografado, por favor. E me mande também o número da conta pra eu depositar. Passe os dados por email que te passo meu endereço: cancruz@terra.com.br

Abço forte,
Cesar Cruz

Mario Gayer do Amaral disse...

Pois é, Márcio. Mas é o preço que se paga pra lutar pelos nossos desejos literários (E que baita preço!!!)
Isso que não falamos que o brasileiro não tem o hábito da leitura, o que agrava ainda mais nossa situação. Senti isso na pele quando lecionei no meu estágio de História.
Isso tudo não me desestimula a escrever, mas pra vender um milhão de exemplares só vendendo a alma ao diabo e olhe lá!!!
Esse é o nosso desafio. Convencer as pessoas a ler nossa mensagem.
E pra eu terminar esse pitaco e nos encher de esperança, lembro das palavras do grande general Maximus:
"Tudo o que a gente faz na vida, ecoa pela eternidade"
Quem sabe, daqui a uns 50, 100 anos a gente não fica famoso como os baluartes do século 21, eheheheheh

Um grande abraço!!!

CESAR CRUZ disse...

Sou uma besta... O nome do livro que quero é este:

"Leia antes de jogar fora"

O "Prelo", ao qual me referi, veio da frase 'livro no prego', que você escreveu, pelo jeito com erro de grafia, como 'prelo'.

Enfim... aguardo seu email!

abço
Cesar