24 de dez de 2011

Cartinha de Natal

Como eu queria escrever uma bela e verdadeira crônica de Natal. Uma que fizesse o velho Braga sorrir. Ou o Mario chorar. Uma que a doméstica entendesse. Uma que a professora recortasse. Mas que não fosse panfletária, engajada ou militante. Que não precisasse de defesa prévia, nem uma morte anunciada na véspera. Que não ficasse embaraçada em sua escolha das palavras. Eu queria escrever um texto sem medo de ser infeliz. Uma crônica que o menino lembrasse para sempre como a sua primeira vez. Ou que o Sabino desejasse como sua última crônica. Uma que o Bial gravasse sem filtro solar.


Que o Cazuza cantasse pra quem não sabe amar, ou o Chaplin discursasse antes de dormir. Que a censura classificasse como livre para todas as idades e horários. Que o cabeludo pregasse pras cucas maravilhosas debaixo dos caracóis de pensamentos. E que a galera não custasse tanto a sacar que o que falta é perceber a falta de sacação. Uma crônica forte, que desse na telha e pegasse igual frase de caminhão. E que desse vontade de copiar à mão e com carbono pra jogar do teco-teco.

Ah, quem me dera ter um pinguinho de sorte de abrir os olhos pra ouvir pelos quatro alto-falantes a realidade da vida. Eu juro que contaria pra todo mundo. Escreveria aos miseráveis. Àqueles que já sabem que amanhã será passado e o futuro não começa hoje. Contaria pra você que está triste. Pro ranzinza que acordou de mau humor e não quis lavar os dentes. Pro senhor, farto da vida. Pro rapaz, que não gosta de dar bom dia e não cede lugar no ônibus. Escreveria pra você mesma que não tem mais amigas. Pra você que está grávida sem noção do que fazer. Pra criança que carrega sem saber se vai criar.

Deixaria um recado de coragem ao pai que não aceitou registrar o filho e por toda vida sonhará com o seu nome e sobrenome. Escreveria pros açougueiros não venderem mais carne. Pros dentistas não arrancarem mais dentes. Pros filósofos não queimarem pestana. Pras cabeleireiras não alisarem mais os cachos. Pras garotas de programa não fingirem amor. E escreveria um abraço para ele que está sozinho. E mandaria um banho de chuva de pé no chão pra você que está com câncer. Um copo d'água vazio para aquele que toma pílulas. Eu mandaria uma carta de “volte duas casas” para você que vai trair sua família para montar outra família. E pra você que foi traído sem saber e deu o rosto para um beijo de despedida eu escreveria num guardanapo: tanto faz. E escreveria mais outras coisas pra você que está na estrada. Ou voltando do velório. Ou na escola. Na feira. No consultório. Na sexta-feira. Na fila de espera. Escreveria um deixa disso para aquele que procura a cracolândia. A heroina. A nicotina. E escreveria um não desista para a avó do dependente. Escreveria ao pintor que forrou o chão com essa folha e por acaso leu a linha em que falava de um pintor que forrou o chão com essa folha e por acaso...

Eu escreveria pra você que cogita tirar a própria vida ou de outrem, um silêncio para pensar só mais uma vez. Mas pensar daqui a dez anos. E escreveria um seja bem-vindo para quem achava melhor sequer ter nascido.

Eu escreveria pra quem não tem o que comer e está deitado na calçada com esse jornal cobrindo o rosto sem ver que está na cara que o cara caído ali é você. As palavras já não saem mais, pois é muito difícil escrever uma crônica de Natal, que seja bela e verdadeira ao mesmo tempo. Escrevi, porém, na esperança de que entendas que é para mim também que escrevo. Feliz Natal!

Publicado ontem no DP

Um comentário:

CESAR CRUZ disse...

Pois conseguistes, escritor! Não sei se o velho Braga sorriu lá onde está, mas, se serve de consolo, este escrivinhador paulistano aqui, sentiu uma invejinha desta bela e lírica crônica que produziste. Parabéns!

Feliz Natal.

Cesar Cruz