1 de dez de 2011

Achados e perdidos


Achei uma moeda na rua. Não peguei. Achado não é roubado, não é mesmo? Só não colhi porque era de dez centavos. Menos de um real não paga o mico da agachada em pleno Calçadão. Pobre centavinho, lá ficou desprezado por todos. É a moedinha do dom Pedro, já viu? Pô! Nossa independência vale só isso?

Quem seria suficientemente desimportante para figurar no desmerecido metal? Podiam pôr os vis personagens da história do Brasil. Os traíras. Silvério dos Reis, Calabar. Mas não. Homenagearam o imperador playboy. O libertador filhinho de papai. O Tarcisão do livro didático.

Tiradentes também foi pego pra Cristo. O maior bode expiatório da nossa história perdeu a cabeça. Está lá na moeda de cinco centavos. E o ferrinho de um? Nem se vê mais. Exibe a caretinha do Cabral, que se perdeu no caminho para as Índias. Piada pronta, eu sei. Segui caminhando e pensando no valor das coisas perdidas, moedas pequenas, descobertas e independências nossas de cada dia.

Estou perdido mesmo! Fiz uma lista das últimas baixas. Sou um perdedor assumido. Perco tudo. O último guarda-chuva extraviado era bonzinho. Comprado em loja, com nota e tudo. Paguei vários níqueis de dez centavos por ele. Esqueci na entrada do restaurante. Alguém carregou, com certeza.

Semana passada foi o celular. Caiu do bolso no ônibus. Liguei horas depois pro meu número e ouvi mensagem de não estar mais acessível. Aonde teria ido? Algum vivo encontrou e, claro, não devolveu. Removeu e jogou fora o chip. Quem quer devolver, devolve - orientou a moça da operadora antes de me vender o novo modelo. Deveríamos ter o direito de saber ao menos isso, o paradeiro do objeto. Facilitaria o luto. Teria alguém achado o chip desovado? E o cartão de memória? Lá estão meus contatos telefônicos, torpedos, fotos de minha filha de touquinha no inverno, da Bianca dormindo no sofá da sala e as efígies dos gatos de rua que adotamos.

O Sabino tem uma crônica no livro O gato sou eu, em que tratou dos objetos perdidos. Apregoa a existência de um tal caboclo escondedor que se diverte ocultando os trecos de que mais precisamos. Chave do carro, caneta, óculos. Aconselha que procuremos um pouco, até para não desapontar a entidade brincalhona. Porém, sem muita persistência, o que poderia tornar a busca interminável. Tão logo desistamos, o objeto reaparece bem diante do nariz. E quando não há volta? O autor explica então que nada tem a ver com o caboclo nesse caso, quando é acometido por outro fenômeno: o buraco negro. É o “achados e perdidos” do Universo. Uma área em que nenhum homem jamais esteve, que pode estar no forro de um sofá ou do outro lado da galáxia.

Vou acender vela pro Negrinho do Pastoreio se entender com o caboclo e de repente passo a achador de alguma moeda valiosa. Nem precisa ser a dracma perdida de Jesus ou o zahir de Borges. Qualquer um real serve. E quem sabe, numa dessas, eu me encontre por aí.

Publicado no DP
sexta passada

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