7 de nov de 2011

Éramos seis


Nesta semana noticiaram um nascimento significativo. Somamos agora sete bilhões de humanos. Diversos países disputaram o registro do bebê sorteado pela estatística reprodutora. O teste de paternidade apontou a mãe russa. Que diferença faz? Por Deus do céu, como somos tolos! Se pudéssemos levaríamos mirra, incenso e ouro ao messias do novo milênio.

Adoramos uma adoraçãozinha. Adoramos o número sete. “No princípio criou Deus céus e terra.” O primeiro verso bíblico tinha sete palavras no original hebraico. O tal número simbolizava a perfeição na antiguidade. O mundo, conforme a tradição criacionista, foi feito em sete dias, dando uma canseira danada no Criador. Assim também reza a lenda que sete pessoas teriam se salvado com Noé na arca. E por aí vai a numerologia. Adoramos coincidências místicas. Sete são os mares e as léguas viajadas por entre abismos e florestas. As cores do arco-íris e as artes são em sete. Sete são os anões da Branca de Neve. O sete é belo

Sete são as maravilhas do mundo. Mas pintamos o sete. E no mesmo número estão contados os pecados capitais. A vaidade, a gula, você sabe de cor e salteado.

Divulgaram também que atualmente um bilhão de pessoas passam fome. Números. Somente números, né? Pois então vou repetir mais devagar. Um. Bilhão. De pessoas. Tá ligado? Pessoas. Pessoinhas. Um bilhão! Fome. Sentem fome. Pegue um papel aí, vamos desenhar. Faça sete bonequinhos. Escreva abaixo o seu e outros seis nomes. Eu ajudo. Um do trabalho, um vizinho, padre, mamãe, filhinho. Seja criativo. Afetivo. Pode ser até figura de palitinho. Agora vamos desenhar uma pizza. Estatística que se preze tem que trazer gráfico. Ciência. Trace três retas e ficaremos com seis pedaços. Agora divida entre os bonecos. Escolha um para ficar sem. Se for você, parabéns! Abra uma ONG, crie o vale-pizza. Vire político. Se optar por deixar o colega passando fome, ele te passará a perna. Se deixar o vizinho em apuros, começará uma guerra. Deixe o padre sem o pão e o vinho e ele acenderá uma vela (ou uma fogueira). O empregado sem arroz e feijão organizará uma greve (ou começará a beber). Deixe o patrão sentir fome e viva a revolução! Ditadura é ditadura. Redentora ou não. É assim que temos conduzido nossa história.

O leitor lembra quando alcançamos o último bilhão de habitantes? Faz pouco, foi em 1999. E naquela ocasião a previsão era que em 12 anos chegaríamos aos sete bilhões. Na mosca. Somos bons de cálculo. Ótimos de estatística. Crescemos e multiplicamos direitinho. Dividir é que não é nosso negócio no grande circo azul. E o pior é que teríamos pão pra todo mundo. Que Malthus estava errado também já sabemos. E por que não “funfa” então? Porque comida é mercadoria. Porque antes precisamos alimentar o gado que virará hambúrguer de grife. Em 2050 estimam-se dez bilhões de habitantes. Grande coisa! Uma amostragem bem humana apontaria quantos famintos haverá.

Publicado no Diário Popular
04/11/11

2 comentários:

Gisa disse...

Fui abduzida por várias espaçonaves, mas preferi a sétima. Viajei nesse texto de ponta a ponta. Gostei demais professor.
Um grande bj

Rody Cáceres disse...

Márcio, to quase no final do teu livro e devo dizer que curti HORRORES e não o jagarei fora e muito menos emprestarei... É meu! Se te interessar, leia um troço que postei no AGORA ON LINE. Valeu! http://www.jornalagora.com.br/site/content/noticias/detalhe.php?e=5&n=19960