16 de set de 2011

Viajando no tempo



A máquina do tempo é um dos mais fascinantes temas da ficção científica. Antes da ciência moderna já se ficcionava sobre isso? Por certo não nestes termos. Charles Dickens, Mark Twain e até os gregos já haviam tratado do tema. Foi, porém, H. G. Wells o primeiro a colocar em seus enredos um produto da ciência à disposição do protagonista. Contrapôs a máquina às tramas anteriores, explicadas pela ação de divindades ou anomalias naturais. Uma engenhoca assim só poderia ser sonhada após a Revolução Industrial. Os transportes temporais logo foram associados aos deslocamentos espaciais em altas velocidades. Albert Einstein deu seu empurrãozinho nesta direção.

Nunca imaginamos avançar para o futuro em lombo de mula. Já pensou? Seria colocar a carreta na frente dos burros na volta para o futuro. Pois é justo aí que erramos. Ninguém precisa de aparato algum para viajar no tempo. Somos todos mochileiros do expresso cronológico. A passo de tartaruga, claro. Sequer podemos, aliás, interromper tal marcha. O presente é móvel e estamos atados a ele. Mesmo depois de mortos existiremos somente no momento atual de alguém. Através de uma lembrança, de uma fotografia, de um nome gravado na pedra. Nunca antes ou depois. É agenda permanente de hojes.

Viver é percorrer esse trajeto idealizado pela abstração que apelidamos de tempo. O que é o tempo, afinal? Uma colherada de engrenagens girando no pulso? A sombra solar derramada na pedra da praça? Nove e meia semanas de amor?

E se o tempo não existir? Se for uma construção cultural? Então ficar velho e morrer nada teria a ver com o transcorrer de horas, dias ou anos. Se fosse possível suprimir a chamada dimensão temporal sem tocar nas três medidas espaciais continuaríamos envelhecendo? Não pare para pensar.

Os efeitos de uma viagem dessas também intrigam os visionários aficionados. O paradoxo possivelmente gerado ao mudar qualquer evento no passado desencadearia realidades alternativas. Ora, essa característica corrobora minha tese da jornada em lombo muar. Se você seguir ou abandonar esta leitura, será conduzido a universos diferentes. A cada ato no fluxo contínuo do presente, rejeitamos toda uma vida. Se brigo com o cara que buzinou na esquina, por exemplo, estou sujeito a tomar um tiro e morrer. Se deixo pra lá, posso colidir na próxima curva com um carrão importado. Sem seguro para terceiros. Ficaria bravo ao ponto de querer descontar no primeiro que passasse. Talvez o mesmo sujeito que me xingou na esquina anterior pagasse o pato. O acaso é mestre no duelo das possibilidades. No cabo de guerra das dimensões a corda nem sempre arrebenta do lado mais fraco.

O fascínio por uma viagem no tempo carregará sempre a nossa essência existencial mais cotidiana, rala e arrastada. Todos criamos universos alternativos viajando no mesmo lugar chamado tempo.


Publicado no Diário Popular hoje.

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