9 de set de 2011

Por que marchamos?

Todo desfile é uma parada. Antes foi o 7 de setembro e logo mais tem a cavalgada dos Farrapos. Sempre me surpreendo com a quantidade de cavalos e a histórica sujeira que deixam. O povo gosta. Fazer o quê? Panes et circenses.

Em crônicas anteriores já tratei da historicidade forjada para as duas efemérides e vou poupar meu teclado do mesmo discursinho sabe-tudo. Vamos pegar leve, que o santo é de barro e a cobra é de vidro. Viva o Brasil varonil! Viva a brava gente do Rio Grande do Sul!

Tenho uma privilegiada visão da passeata patriótica do segundo andar do prédio furreca, onde moro na outrora glamourosa Gonçalves Chaves. Estava à toa na janela e fiquei pensando na origem de tudo isso.
Os 18 do Forte marchando para a morte em 1922.
Lembrei de minha infância, quando marchávamos em torno da quadra escolar em Porto Alegre. Criança adora essas fuzarcas. Eu não sabia amarrar o meu kichute e o pai reforçava o nó por detrás do calcanhar. Já pensou tropeçar em plena avenida? Sempre destrambelhado, nunca fui escoteiro. Talvez por isso jamais aprendi direito a dar nós ou fazer topes.

Não entendo a existência dos desfiles enquanto instituto comemorativo. Seria coisa dos militares? Ritos de vitória? Celebração bélica? Algo para pôr ordem no barraco, quem sabe?

Sinceramente não sei. Acho que faltei esta aula de O.S.P.B. É uma falha em minha formação. Será por que não servi às Forças Armadas? Tudo bem, não perderam nada. Eu não saberia nem amarrar um coturno ou segurar um fuzil.

Como teria sido no tempo do pai? Viu a banda passar em sua juventude ordeira que optou em amar o Brasil, para não o deixar? Será que, ainda piá, assistiu ao suicídio do presidente criador do nacionalismo? Não temos memória familiar. Nada aprendi da nossa história em casa.

Será que minha avó marchou pela tradição, pela família e propriedade? O que sei é que não tínhamos propriedade alguma. A família era uma total bagunça, com os velhos sempre aprontando. E a tradição? Huahuahua. Deixa assim... Uma avó era filha de índios, a outra de uruguaios. Um avô, de portugueses, o outro, de sírio-libaneses. Verdadeira misturada buarqueana. Dizem que um tio-avô sentou a pua na Itália e depois muito desfilou como veterano na perimetral em Porto Alegre. Gente boa. Só não gostava de tocar no assunto. Chorava.

As marchas e os desfiles carregam um poder simbólico. Toda a frota policial e militar integra a festa da independência. A prática não chega a ser exclusividade reacionária. A antiga esquerda também marchava. Os soviéticos desfilavam com seus tanques e mísseis durante a guerra fria. Prestes também marchou. Temos ainda a marcha dos “sem”. Dos negros. Das Margaridas. E as paradas LBGT. A questão de ordem que deixo é: quando marcharemos na mesma direção?


Publicado no
Diário Popular
09/09/11

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