4 de set de 2011

Papo de louco

Quase todo escritor é tachado de pancada. Não faço apologia à  loucura romântica. Dissimulada. Pra aparecer. Qual seria, porém, a motivação de alguém para escrever, publicar e tentar vender livro num país não leitor? Só se for maluquice mesmo. É a maior prova de desvario. Carência total de noção.

O primeiro sintoma é crer haver algo a ser dito. Sai então por aí à cata de situações e personagens. Às vezes se enreda mais do que a trama que redige. Busca inspiração das musas. Faz sauna de letrinhas. Associa-se em agremiações e comunidades virtuais. Depois jura que alguém lê suas abobrinhas, rimadas ou não. Ser escritor nem é tão grande coisa assim, sabia? É carteiraço de capa dura. Charlatanice de autoestima. É dizer tudo de velho outra vez. Na internet há mais escritores que leitores.
O grande lance é achar algum pensamento que valha a pena compartilhar. O mundo, contudo, não colabora. O chefe não apoia. Ócio criativo na empresa? Nem pensar! Os amigos olham com desconfiança, receosos de serem repaginados na ficção do louco. Ao compor enredos, personagens e desfechos o escritor é bendizer absorvido pelo universo que cria. É complexo de Zeus mascarado em folha de rosto. E alguns piram o cabeção nesse processo de fingimento do real. Completo fora da casa!

Tenho escutado com certa frequência a alcunha de “doido”. Estou quase convencido. Talvez saibam de algo que ignoro. Terei tomado remedinho pra cabeça na infância? Será que fui  internado na adolescência? Maconha? Tanto faz. O certo é que ideias de gerico são tratadas como coisa de maluquete. 

Charles Kiefer bem observou que “Nenhum escritor resiste ao fascínio da loucura.” É como se houvesse para o artífice das letras uma atração irreprimível de ultrapassar a barreira para ver o outro lado. As aproximações entre a beletrística e o manicômio são inúmeras. O Alienista, de Machado de Assis deve ser o maior exemplo na literatura brasileira. Fernando Sabino também deu sua contribuição com o Grande Mentecapto (não leu? veja o videozinho arriba).  


É loucura da boa, entretanto. Necessária talvez. Nada tem a ver com patologias psiquiátricas que poderiam inviabilizar o processo criativo. Falo antes da doideira geral que faz o “artista” enxergar o que outros não conseguem ver. Aquilo que está na cara, mas encoberto pelo véu da proteção social, das convenções inconvenientes e das formalidades deformadas.

Clarice Lispector destacou que “a loucura dos criadores é diferente da loucura dos que estão mentalmente doentes.” Estes teriam errado o caminho da busca, passando a constituir casos médicos, enquanto aqueles se realizariam no próprio ato de sua loucura espontânea. Mario Quintana em Simultaneidade responde à questão “Você é louco?” com um “Não, sou poeta!”
Não é essa a piração que o leitor espera encontrar nos melhores textos?




Publicado no Diário Popular - 02/09/11

6 comentários:

Gisa disse...

Loucura e escrita, escrita e loucura, psicoses literárias e literárias psicoses, não sei dizer, só sei que são inseparáveis quando a ordem é criar.
Um bj Márcio.

Verônica Pacheco disse...

Muito bom!

mxpalombo disse...

comentário-citação:

"Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?"

ótimo texto, Márcio!

Mario Gayer do Amaral disse...

Márcio, o que é a loucura senão o caminho para a verdadeira obra?

Então se escrever é um ato de loucura, então sou o cara mais louco da face da terra e a oficina é o meu sanatório, eheheheh...

Beleza de têxto e amanhâ estarei na oficina para mais um pouco de loucura literária...

Um grande abraço.

Webert Gomes disse...

Que bom, alguém que o disse por mim sem que eu precisasse escrever. Me salvou da besteira de escrever sobre que se escreve. Rsrs!

Ótimo, ótimo, ótimo texto, estampa dos pensamentos que nascem e se estagnam na mente do escritor - do louco - do poeta.

disse...

muito bom poder compartilhar insanidade... acompanho o blog sem regularidade e me deparei com um assunto em comum!
http://jardimperdidodeachadosinominados.blogspot.com/2011/09/simultaneidade-do-quintana.html
zeitgeist! devem ser o ventos de fim de agosto ou os primaveris que sorriem novas possibilidades...
muito bacana tb o post da terapia literária!
parabéns!
abraço!