20 de ago de 2011

Sobre mendigos, revoluções e sapatos

Pari passu II

Sebastião Salgado, sem título, Ensaio "A luta pela terra", 1983
Um sujeito, desses que bate na casa da gente pedindo se tem alguma coisinha pra dar, abordou-me no portão de entrada. Não cheirava a trago, nem parecia dopado. Sóbrio e direto em sua súplica. Qualquer roupa, casaco ou sapato servia. Estava todo esfarrapado e com frio. Mostrou a metade do pé pra fora dos guides. Tive dó. Não foi culpa social ou religiosa. Lembrei do velho sapato que aposentei no inverno passado, guerrilheiro refugiado na sapateira. Couro marrom. Todo desbotado, desgastado e outros qualificativos batidos pelo uso. Ao menos estava em melhores condições que o desbeiçado pisante do rapaz. Deus que me perdoe, comparar meus pertences aos do mendigo. Mendigo, pedinte, reservista do exército de mão de obra... Sei lá como chamar em bom politiquês quem pede de porta em porta. Prometi dar uma olhada. Dois lances de escada e julguei que era o passo certo a dar. Por que ficaria com um calçado sem uso, havendo um necessitado lá fora? Coloquei numa sacola de súper. De brinde, um blusão cheio de bolinhas que aguardava a limpeza com prestobarba.

Pegou a doação, espiou, agradeceu e seguiu buzinando o porteiro dos meus vizinhos. Como assim? Não ia calçar ali mesmo? É impermeável sabe, moço? Tá chovendo, né? Não disse nada. Aquilo me corroía. Pior que não sei fazer caridade desde meu socialismo utópico universitário, morando com a mãe. Afinal, é papel do governo acabar com as desigualdades ou que enfrente a luta armada.

Estava ressabiado com tamanha ingratidão. Esperava nada menos que uma reação eufórica do sujeito. Resolvi manter a calma e o controle. Aquilo não me pertencia mais. Tentei olhar a cena com lirismo poético. Significaria uma sobrevida. Seguiria passeando pelas ruas de Satolep nos pés de um andarilho solitário.

Foi então que saquei. Era seu uniforme. Só podia ser. Ele usava aquela roupa rasgada pra sensibilizar a classe dominante. E se tiver uma comida, emendou, também aceitava. Ah, não, tchê pode parar. Que negócio é esse? Já dei o meu melhor sapato e um blusão praticamente novo. O.k., não foi bem assim que eu disse, mas resmunguei algo. Uma ideia veio à cabeça enquanto eu subia a escada de volta. Esse louco vai botar o meu sapato fora. Vai ver não gostou. E se pedisse de volta? Dissesse que o tinha prometido a um parente? Não. Nunca menti direito. Escorregaria em algum detalhe. Precisava conformar-me com o destino incerto do calçado. É o fetiche da mercadoria. Fecha os olhos da gente. Impressionante o quanto me agarrei àquele par andante. Supermacio. Por que não calçava logo? Fazia o quê? Uma acumulação primitiva de calçados?

Voltei com um pacote de polenta e a cara mais amarrada do mundo. Ele não estava mais lá. Caminhava em direção à Donja, carregando um saco de ráfia cheio da caridade alheia. Forcei a vista o que pude e ao longe enxerguei um dedão, ainda de fora.

Um camarada do tempo da faculdade dizia que não se deve dar esmola ou fazer assistencialismo pois atrasava a revolução! Foi o mesmo que mais tarde falou que a única revolução que desejava fazer era em sua conta bancária. Os pobres sempre estarão conosco. Será?

               Publicado no
         Diário Popular, 19.08.11.




Um comentário:

Márcia Luz disse...

A despeito de qualquer idealismo, doação ainda é um ato de significação confusa para o ser humano.