26 de ago de 2011

Jornada Literária de Passo Fundo

Primeira vez que participo da Jornada Literária de Passo Fundo (como ouvinte). A parada é bacana mesmo. Com edições bienais, a festa criada em 1981, é agora balzaquiana.

Contando com muitos autores de renome, o encontro oferece múltiplas possibilidades de programação, sendo difícil não perder alguma sessão ou debate. Entre os palestrantes figuraram o secretário estadual da Cultura Luís Antônio de Assis Brasil e o filósofo da chamada Cibercultura, Pierre Levy. Com uma temática plugada na atualidade, Leitura entre nós: redes, linguagens e mídias, a Jornada proporcionou uma reflexão sobre os novos suportes eletrônicos de armazenamento que se somam ao tradicional livro impresso. Apontou ainda algumas alterações já provocadas nos paradigmas de leitura e novas formas não lineares de pensamento.

 
Ignácio de Loyola Brandão
14ª Jornada Literária de Passo Fundo/RS

Loyola Brandão destacou-se na simpatia com que coordena os debates. Maurício de Sousa, aquele mesmo da Turma da Mônica, contou a história de seus empreendimentos, avisando que apenas começou. Também colaboraram a Márcia Tiburi, o Humberto Gessinger e muitos outros, além de um cidadão bem conhecido nosso, o Vitor Ramil. Sob a mediação do professor Augusto Fischer abordou os limites e a liberdade no escrever sobre a cidade. Apresentou sua trajetória literária trilhada pela imaginária urbe espelho, Satolep, representação que fez da Pelotas real.


A névoa que cobre os paralelepípedos da cidade seria a mesma que forma uma fantasmagoria no seu processo criativo. A trama somente passa a ser bem conduzida quando o autor define o formato artístico do seu trabalho. Para tanto, Ramil partiu do famoso Álbum de fotografias de 1922, elaborando 28 narrativas ficcionais, uma sobre cada imagem. Sua novela ou romance corre sobre este eixo condutor. Cito um trecho: “É que estar em minha casa e me sentir um absurdo dentro de um absurdo me fez parar e perceber que o caminho de nuvem aberto pelo que eu acabara de ler e fotografar, (...) ainda não se esgotara (...)”.

Vitor Ramil e Márcio Ezequiel em tons de cinza
 Sua fala contrastou bem com a dos demais integrantes da mesa. Para o lajeadense Ismael Caneppele, autor do romance Os famosos e os duendes da morte, filmado em 2009, a virtualização dos espaços e relações permite que se experimente uma vida que não existe. Que se saía da aldeia sem sair. Enquanto Ramil busca uma cidade real a partir da sua recriação ou simulacro, Caneppele tem sua prosa marcada pela angústia do resgate da Lajeado de sua adolescência, que pouco a pouco vai sendo deletada do real.

Flávio Ferrarini lembrou que, em seu tempo de piá, brincava nas ruas de Travessão Paredes, onde andava de rolimã, perna-de-pau e bodoque na mão. Foram os tempos ou os espaços que mudaram? Acrescentou que seus filhos foram criados já entre os muros de casa e, mais recentemente, computadores e videogames oferecem senão utopias (não lugares) a nossas crianças. Deixo o juízo de valor ao leitor. O cartunista Edgar Vasques, figuraça, iniciou desculpando-se aos nativos da internet por aqueles que nascemos fora dela, os visitantes. Saí do encontro com mais indagações que respostas, tal como ocorre ao lermos um bom livro. O futuro da literatura ninguém sabe ao certo. Mudanças continuarão ocorrendo e não devem assustar.

Tanto faz tablete de argila ou de silício, ao menos enquanto as mídias não forem a mensagem. McLuhan que nos perdoe! Afinal de contas, o virtual já não faz parte do real?


    Publicado em 26/08/11


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