12 de ago de 2011

Crônica Presente

”Atenção, atenção! Agora é queima total de estoque. Torra-torra de ideias. É só nesta sexta-feira, antevéspera de Dia dos Pais! Não sabe o que comprar? Ligue já e descubra dicas quentíssimas. E mais, levando uma boa ideia para bajular seu velho, você receberá totalmente grátis um belíssimo conjunto de sugestões para agradar sua mãe, sua sogra e toda a família!”


Que beleza de campanha seria essa, leitor! Infelizmente, não é assim que funciona. Não se vendem ideias. A publicidade falhou comigo. O comércio é pra quem sabe comprar. Não existe autodidatismo na escolha de presentes. Vem com a pessoa ou não. É um dom. Já me resignei com meu analfabetismo consumista.

Quebro a cabeça todo ano sem um tostão de criatividade na data paterna. Para agravar minha responsa, o pai faz aniversário 14 de agosto. Barbadinha uma pinoia! A empreitada exige dose dupla.

Não gosto de trazer problemas pessoais para o texto, mas é aqui onde melhor administro meus insights de jerico. Alguém ajuda? Quero um bom vendedor! Um bem chato. Daqueles que atacam na calçada. Serve até ambulante, desde que traga bons palpites.

Sei no que você tá pensando... Injustiça sua! Não deixo para o último minuto coisíssima alguma. Guardo encartes, assisto aos intervalos da TV aberta, leio até revista de consultório à cata de um cacareco qualquer. Ano passado levei um genérico de água velva, acompanhado da crônica recortada aqui do jornal. Baita gênio!

Tenho dificuldade em selecionar marcas, barganhar preços. Uma espécie de limitação cambial. Desconfio que seja de família. O velho Záchia, meu bisavô, deve ter sido o único que veio da Síria para ser mascate no Brasil e ficou nisso. Não conseguiu montar lojinha, nem enriquecer. Diz que o homem era terrível. De uma ignorância bárbara. Do tipo brigão. Se não entendessem seu sotaque, passava o laço em todo mundo e o negócio tava encerrado. Um DNA sem tino comercial pode ter me alcançado cá do outro lado do balcão e talvez por isso hoje eu seja um mau consumidor.

Meu avô tampouco sabia negociar. Abriu sapataria e depois atacou de fotógrafo. Só dava mancada e queimava o filme. Quebrava sempre. O pai safou-se passando em concurso público. Eu idem. Não precisamos assim inventariar talentos de varejo não herdados.

Agora, verdade seja dita. O pai também presenteava com cada porcaria. Entretanto, acertava a seu modo. O caminhãozinho de madeira que fez antes do parto foi um agrado prematuro. Não se sabia o sexo dos filhos de antemão naquela época. Eu adorava minha Caloi. Cor de laranja! E o Falcon com roupa de milico? Foi o único que ganhei. Quando quebrou, colou as pernas com durepoxi, dificultando um pouco a marcha do soldado. Eu não ligava. Seguia brincando. Depois teve a máscara do Batman, que ele encheu de gesso moldando a caretinha do herói. Pendurou na parede aquela cara branca. De arrepiar! Conservo, porém, uma coleção desses episódios como os melhores presentes que recebi.

Ainda não sei o que levar no domingo.
A crônica, certamente vai.

Publicado hoje no
Diário Popular, de Pelotas.

2 comentários:

frô disse...

Na psiquiatria, chamam isso de comportamento-padrão... são coisas que vivenciamos e que qdo vemos q outros vivem igual, pensamos: "Meu Deus! Mais um coitado nesse mundo!"..

Sim, sou igualzinha...

Aos 20, qdo passei num concursinho básico, meu pai me vira e diz: "filha, chega de roupa de feira... nem q seja uma a cada 3 meses, compre roupas boas..".. nao sei consumir...

Presentes... meu deus.. ainda nao comprei... e qdo tem o bendito amio-secreto? Só dou fora... é chocolate pra diabético, vinho pra recém-saído do aa, livros já lidos, brinco de argola pra mulher gorda, etc., etc...

No ultimo aniverssario de papai, meu marido ajudou: ele é chato igual ao meu pai e... propagandista.. daqueles q vendem terreno no céu, se preciso... comprei um PIJAMA pela BAGATELA de 120 reais!!! Tá lá.. sem usar, no guarda-roupas, há 2 meses.. e ele jura q é pq gostou demais e nao quer GASTAR...

Eis nossa sina...

Abrçs e boa sorte...
de sua companheira analfabeta!

Anônimo disse...

gosto muito quando escreves deste jeito simples, com tiradas profundas (tipo ataque ao consumismo de forma tão elegante) e dos sempre bem vindos trocadilhos (como o marcaha soldado), adorei esta crônica, lida só hoje!
abç. profe e parabéns!!!
Clesis.