2 de jul de 2011

Sobre o frio


Tome um golinho do vinho abaixo,
aqueça as mãos e leia a crônica na íntegra.


Extremamente Frio

Que semana bandida! Vai te embora! Já disse que não gosto de frio. Disse e assinei em cima, em crônica aqui mesmo no Diário Popular, em julho do ano passado. Não quero parecer extremista. Sou um chato, admito, pois também não morro de amores pelo forte do verão. É que tenho problemas com extremos. Principalmente quando estou em dificuldades para aquecer meus próprios extremos.

Não quero parecer repetitivo, mas a temática antifriagem bate novamente à porta da geladeira. Vamos quebrar o gelo e mergulhar fundo pra saber o tamanho do iceberg.

O inverno tem cada uma! Analise friamente. Onde você lê o jornal? Em casa? No trabalho? Do lado de cá, escrevo em frente à lareira, culpado pelos danos ambientais dessa fumaça que toma conta do ar pelotense. O pulmão da cidade sustenta seu vício e só assim sobrevive à estética criogênica. A hipocrisia é hipotensa no verão e hipotérmica no inverno.

Entre um gole e outro de vinho, lembro de quem sofre nos casebres lá na volta da rodoviária ou no Balneário dos Prazeres. De minha cama quentinha, penso nas crianças deitadas em colchões úmidos. No sujeito que pernoita nas calçadas históricas do Centro. Nas gentes dos albergues. Na metade mais pobre da metade pobre do Estado.

Não é conosco. Nunca é. Nós temos aquecedores a olhos vistos e ares-condicionados pelo poder aquisitivo. Torneiras quentes de cama, mesa e banho.

Ah, que diria a mãe de minha mãe, depois de um dia daqueles em que lavava o guarda-roupa inteiro no tanque de pedra fora de casa? Ouço sua voz. "Menino, levanta as mãos pro céu! Tu tens tudo!" É, vozinha, como é boa nossa vida. Sou um extremista consciente, ponderando o que tirar do freezer.

Nossos lençóis térmicos precisam ser desligados para suportarmos o calor da própria pele. Esbanjamos energia limpa em banhos de espumante. Lâmpadas incandescentes são tão belas. No inverno é quando comemos mais. Temos mocotó, puchero, parillada, boi na brasa e chá de boldo.

Vem gente de fora pra curtir o frio gaúcho. Orgulho regional. Na Serra não colocamos tapumes para cobrir favelados, como fizeram no Rio. Nossos pobres são melhores. Sequer aparecem. Não se misturam. São extremamente discretos.

Frio é psicológico. Absolutamente relativo. Só gostamos do frio quando temos condições de adaptar a sensação aos nossos corpos socialmente privilegiados. Mas o calor humano do povo do sul é grande. Temos as campanhas do agasalho, graças a Deus. Doações para acabar com a superpopulação de roupas de lã empelotadas em nossos guarda-roupas.

O pior é que gosto de falar do tempo. Minha conversa de elevador preferida. Somos uma potência emergente de casas preaquecidas. Em breve conseguiremos enfrentar o frio numa boa.   

Publicado no Diário Popular
01/07/2011

Um comentário:

Gisa disse...

É Márcio, gosto de alguns extremos...
Nunca pensei sobre isso, mas talvez goste somente daqueles que me dão sensação de queda-livre, mas que também escondam a certeza de poder contar com o pára-quedas a qualquer momento...
Um bj e boa noite.