10 de jul de 2011

Sobre auto-psicografias

Bem Perdido
pelo espírito de Márcio Ezequiel

Quem é esse que escreve por minhas mãos afinal? De quem é essa voz que fala pelos dedos e se transforma em garatujas bem alinhadas? Hacker que invade meus pensamentos e faz deles sua senha de acesso ao leitor, quem és? Há sem dúvida um sujeito por aqui, bem atrás dos olhos. É a essência de um “eu” que segue junto sempre-sempre, faça chuva ou faça sol. Deveria conhecê-lo melhor, pois é meu corpo quem possui esse espírito e o invoca todas as semanas para apresentar alguma ideia inovadora, um olhar atravessado, um ensaio de insight, um cheiro de passado. Encontrar esse estranho que se esconde fora da moldura do espelho é olhar-se sem desviar os ouvidos. É seguir a leitura sem mudar de linha. É encarar a folha de rosto pedindo identidade.

O escritor é médium de si. Carrega uma legião sem nome. Psicografa enredos do aquém. Percebe dimensões não experimentadas em carne e ofício. Tá tudo aqui. Debaixo da touca. Aqui se faz e aqui se deve. Ele não quer saber. Escreve o que viveu e o que não viveu. A vida fracionada que podia ter sido e não foi. Porque a cada vírgula há uma guinada alterando desfechos. Os plots abandonados pelos bosques da ficção nada mais são do que as outras encarnações. As bifurcações deixam avistar os trajetos deixados de lado ainda por um bom tempo. Espectros acenam de lá, impassíveis.

Toda alma vale a pena quando a vida não é pequena. Sujeito de enunciação do cronista, esse desconhecido que chamam de “eu lírico” prega seu próprio advento como um messias que sai da tumba para salvar a própria pele. Seus manuscritos mais sagrados são apócrifos e herméticos. Escatológicos e proféticos. Sua exegese exige êxodo, gesta e romaria.

Certa vez aguardava um voo com a aeronave ainda em solo. Enquanto outros passageiros vinham a bordo, as poltronas estavam vagas em minha fileira. Esperava pensando quem sentaria junto. Então me vi um pouco mais jovem, entrando bem perdido lá na frente, à procura do assento. Chegando perto pediu licença sem reconhecer-nos mais velho. O “jovem eu” pegou uma revista para ler. Pouco depois veio o piazinho. Nem me preocupei se estava acompanhado. Vinha firme, com meus sete ou oito anos, oculozinhos, cabelinho pro lado. Passei educadinho e me espichei na janela tentando ver lá fora.

Estávamos ali. Os três. Mesmo destino. Um só espírito com vários corpos e uma vida. Sem estranhamento ou temor entre nós mesmos. Percebi que minha essência mais recôndita seria o que aqueles três de mim tinham em comum.

Por onde anda sua infância? E que tal a juventude? Que será da velhice? Talvez não adiante procurar. A revelação é uma dádiva. Aquele que procurar ficará perdido. E aquele que não buscar achará. Por isso mesmo eu sigo procurando. Bato à porta que eu mesmo não abro e quase nunca espio os caminhos abandonados.

Diário Popular, 08/07/2011

Um comentário:

Gisa disse...

Assim falou Zaratrustra e Márcio Ezequiel...
Um beijo