29 de jul de 2011

Ensaio sobre as cores

Mistério tão insondável quanto a matéria, é a existência das cores. Somos feitos de matéria, sem saber de onde ela veio. Tampouco sabemos a origem da coloração das coisas materiais. Havia cores antes de serem pensadas? Ou estão somente nos olhos de quem as pensa? Penso, logo a cor existe? Dizem que os cachorros não distinguem as cores. Nenhum cão se manifestou sobre o assunto até o momento. Cachorros têm olhos. Além disso têm bocas e dentes caninos.

Quando nossos olhos se formaram, as cores já estavam lá, inclusive nos próprios olhos, aguardando para serem vistas. Sem a luz branca não há cor. Morcegos voando de noite ficam quase imperceptíveis a olho nu. Ainda que seus olhos brilhem, um gato pardo continua pardo no escuro. Os gatos brancos, idem. O preto é a ausência de toda cor. Preto é também uma cor.

Morcegos usam a audição para ver. Os felinos enxergam bem na escuridão. Os caninos não. Minha mãe nunca gostou que usasse a palavra escuridão. Diz que não presta. Ela tem medo de escuro até hoje, mas me deu a luz e a coragem. Afinal, alguém tinha que apagar as luzes da casa. O medo é um sentimento pré-histórico. O coração teme o que os olhos não veem. No tempo das cavernas, na escuridão, digo, na penumbra da noite, gatos pretos ou morcegos ocasionavam um certo mal-estar aos nossos antepassados. Caninos não. Mesmo porque um tigre-dentes-de-sabre poderia causar consideráveis danos com seus caninos brancos a quem fosse apagar a tocha. Tigres são felinos. Acredito que enxerguem bem no escuro. Ouvi na televisão, certa vez, que os gatos ouvem pelos olhos. Que teriam células auditivas nas vistas. Questionados, os bichanos não se manifestaram.

Crianças têm um medo ancestral do escuro. Por isso gostam das cores, que só existem na presença da luz. Na escola, eu tinha um estojo com doze lápis de cor. Outros alunos exibiam caixas com vinte e quatro e até mesmo trinta e seis cores. Meus cães, gatos, morcegos e tigres não eram menos coloridos que os deles. Eu tracejava com minha dúzia de cores, inclua-se o preto, criando múltiplas tonalidades.

Lá em casa, o televisor era preto e branco. Às vezes eu gostava de desenhar daquele jeito. Sem cores. Só papel branco e lápis preto. Branco é também uma cor. Tinha um guri no terceiro ano fundamental que comia grafite. Todos entregavam suas pontas quebradas para ele mascar a guloseima cinzenta. Exibia com orgulho os caninos virados numa Guernica. Grafite é feito de matéria. Caninos, também.

As cores são subjetivas. Azul para um é violeta para o outro. A grama do vizinho é mais bonita que a minha, que é mais verde que a dele. As cores mentem sem ficar vermelhas. Por isso não deveriam colorizar os filmes antigos. Soa falso aos olhos. Só o preto e branco é preto no branco.


Publicado no Diário Popular, 29/07/11.

2 comentários:

tkau disse...

Falar em cores me lembra muito da Sr. Morte que também gosta muito delas. Talvez seja porque ela e a ladra de livros realmente tenham passados escuros e sem vida, sem cor. Digo talvez porque ainda não as conheço tão bem.
É surpreendente como dizemos que tudo colorido é feliz, vivo. O carnaval é o momento mais feliz do ano, com pessoas alegres e se divertindo. As penas com mais cores que uma tela de computador podem ajudar a passar essa sensação que nem todos concordam. É, as cores mentem.
Por agora fico esperando o dia clarear e a chuva passar, pode ser que o arco íris venha mostrar toda sua beleza e quem sabe incentivar um namorado a fazer um pequeno poema desconexo mas cheio de amor sobre a alegria das cores?

Webert Gomes disse...

Escreve muito bem. Estou admirado. Traça subjetividade com objetividade, trazendo ao texto traços do cotidiano, do real, sem perder a poesia ou a "abstração". Aliás, falar de cores (e matéria) que mais é senão um passeio na abstração?

O pensar sobre as cores me acompanha instigando-me desde criança. Não cheguei a nenhuma conclusão ainda, principalmente pelo fato de que vejo branco nos que são morenos (já tive inúmeras discussões), vejo azul onde é verde. E o amarelo? É quase marrom, palha ou dourado? Como posso atestar que a minha cor é a sua cor?

Prefiro deixar para o pensamento algo tão abstrato que só com o pensamento pode se equivaler. A palavra é ousada demais para nela justificar o que é tão... tão o quê?

Enfim.

Não sei mais.