24 de jun de 2011

Sobre Indefinições




Não sei por que as pessoas criaram essa aversão a rótulos, latas e caixinhas. Enlatado é sinônimo de descartável. Por qualquer coisa, já nos acusam de estarmos rotulando ou pondo tudo em caixinhas prontas. O que seria do mundo sem nada escrito no frasco de veneno? Sem o balde na cabeça da moça do leite condensado? Sem o nome na caixa amarela de amido de milho? Aliás, milho em espanhol é maiz, que deriva de um vocábulo indígena pré-colombiano. Palavras são rótulos. Toda frase inicia em caixa alta. E os livros são ideias enlatadas.

Na cozinha de minha avó havia um conjunto de latas em cima do armário. Além da estamparia florida, vinham rotuladas de fábrica. Da maior à menor. Arroz. Açúcar. Farinha. Feijão. E abrindo as latas, o leitor não vai acreditar, sabe o que encontrávamos? Arroz. Açúcar. Farinha. Feijão. Simplesinho, né? Tudo no seu lugar. Davam-se nomes aos grãos. Rejeitamos uma organização aperfeiçoada por nossas avós por séculos.

Hoje não usamos mais as tais latas. Preferimos enrolar a embalagem e tacar um prendedor de roupa para mantê-la fechada. Ou dobramos a tampa das caixinhas, arremangando sempre à mesma altura, pondo ordem na despensa. Depois fica difícil convocar o arroz, o açúcar, a farinha ou o feijão naquele exército enfileirado de reservistas.

Bons tempos quando na mesa de trabalho havia duas caixinhas de madeira para os documentos. Uma etiquetada como entrada e outra como saída. No meio do caminho, um carimbo e uma Bic para rubricar. Agora o despacho é eletrônico. Os memorandos são virtuais e os destinatários têm uma arroba carimbada no nome. Assinatura digital é uma impossibilidade manual.

No campo das ideias ocorre o mesmo. Sem rótulo, nenhum remédio é genérico. Vivemos a fragmentação das certezas. Tudo é relativo, preconceituoso ou faz mal. Qualquer esboço de definição será tratado como prejudicial à saúde.

A milícia politicamente correta nos leva ao exílio pessoal. A indefinição é confundida com mecanismo de resistência. O brasileiro sequer consegue apontar sua cor ao IBGE. E esse é o pior racismo. O da letra miúda. Aquele que independe de rótulos e tem conservantes de longa vida.

A gurizada preenche questionários nas redes sociais virtuais para tentar descobrir quem é. Li um tweet de uma menina que teclava assim: “responda às perguntas abaixo e saiba a sua orientação sexual”. E completava, “a minha foi: hetero”.

Falar a idade também virou tabu. Dizer que alguém é velho é xingamento. Daí inventarem essa da melhor idade. Mas chamar de criança também ofende. Maduro pode? Não, diz que cai do pé. Adulto? Muito sério! Mas então não somos nada?

De tão cheio de dedos em breve não conseguiremos assinar o próprio nome.


Publicado no Diário Popular, 23/06/11.

Um comentário:

Amanda Lemos disse...

Gostei bastante do Blog.
Muito interessante !

É bom ver a cada dia que passa mais originalidade nessa "blogosfera". :)

Deixo o meu aqui caso queira dar uma olhada, seguir..;
http://bolgdoano.blogspot.com/

Muito Obrigada, desde já !