20 de set de 2010

Farroupilha

Foi o 20 de setembro o Precursor da Liberdade?



Para ser livre, não basta ser forte, aguerrido e bravo. É preciso levar na garupa a verdade acima de quaisquer crenças. Nossa história foi reconstruída na busca de um passado nobre e heróico. A Guerra dos Farrapos, entretanto, não teve origem popular. O tipo social que gerou o gentílico do nosso povo não tinha nas virtudes o seu forte. O gaudério era o andarilho, o vagabundo ou “vagamundo”. Está no dicionário se alguém não acredita. O gaúcho histórico, a pé ou a cavalo, não era exatamente um “Centauro dos Pampas”. Errava, sem trabalho nem casa, numa terra sem rei nem lei. À medida que foi se fixando como peão de estância, subordinava-se ao patrão sob o pala de uma igualdade social esfarrapada. O único elo de proximidade com o estancieiro era a cuia passada de mão em mão. O escravo não tinha vez nas liberdades do campo. Seu labor ficava restrito ao ambiente doméstico ou às duras tarefas nas charqueadas.

A peonada lutou na guerra a mando do patrão. Já a escravaria, que se iludiu com uma promessa de alforria, foi atacada de surpresa pelos imperiais na Batalha dos Porongos em pleno armistício. Foram dizimados quase todos os Lanceiros Negros que sobreviveram até ali, 1844. Tivesse o grupo de ex-escravos sido liberado, precipitaria um movimento abolicionista armado. Se Canabarro foi conivente ou não com a covardia do ataque não é questão que altere o resultado da chacina.

A Farroupilha, portanto, nada teve de revolução. Foi antes uma revolta da elite pecuarista local contra uma política tributária sobre o charque e seus insumos mais favorável ao concorrente platino. Acho perfeita a definição publicada há alguns anos pelo Juremir Machado, de que se tratou de uma guerra civil que perdemos, assinando um acordo de empate e comemorando como se vitória fosse. A verdade pesa no lombo do pingo, eu sei.

Bueno! Vamos mudar de prosa. Falar de música. O hino rio-grandense traz cifradas algumas ironias em seus versos. Afinal que “façanha” seria essa em que uma “ímpia e injusta guerra” serviria de “modelo a toda terra”? Não faz sentido nem em cabeça de papel.

A composição tem um histórico inusitado. Foi em 1838, em Rio Pardo, ao fim de um dos conflitos mais sangrentos para os legalistas, que a banda imperial foi capturada. O maestro Joaquim José Mendanha foi “convidado” a elaborar uma marcha exaltando a República Rio-Grandense. Cinco dias após a prisão, a obra foi executada ante as fileiras rebeldes. Perceberam a ironia? O hino que defende a liberdade foi composto por um prisioneiro de guerra. A música original foi perdida. Ecoaram rumores de que seria semelhante a uma valsa de Strauss. Não ocorreu a ninguém que o pseudoplágio talvez fosse uma façanha de sobrevivência do maestro?

A melodia do hino tal como conhecida hoje foi recuperada de uma única partitura anotada de memória, em 1887, por um músico chamado José Gabriel Teixeira. E isso quase meio século após sua composição! Acredite se quiser…

Os versos adicionados à música em 1839 eram diferentes e parecem não coincidir em métrica com os atuais. Fora isso, possuem conteúdo com dúbias interpretações. Dizia assim: “Avante, ó povo brioso! / Nunca mais retrogradar / Porque atrás fica o inferno / Que vos há de sepultar.” No último verso, uma polêmica: a falta de acentuação em “vos”, altera o sentido. Seria “vós” a segunda pessoa do plural que sepultaria o “Império infernal” ou um pronome oblíquo indicando quem seria sepultado por ele? Corrobora com esta interpretação uma versão anterior que terminava assim: “Porque atrás fica o abismo / Que ameaça vos tragar”.

Somente em 1966 o maestro Antônio Corte Real adaptou aquela partitura a um ritmo de louvor e epopeia, acrescentando a letra oficial marcada por versos fortes, aguerridos e bravos como: “povo que não tem virtude, acaba por ser escravo”.



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