11 de mai de 2010

A outra metade do copo

Quem costuma dizer “nada está tão mal que não possa piorar” é pessimista ou otimista? A maioria associa o dístico popular com o pessimismo. Alguns defendem que somente um verdadeiro otimista teria tal percepção. Realista, outros diriam. Minha tese aqui é a de que a frase seja mais empregada pelo que chamarei de falso-pessimista. São estas pessoas que cansam a gente sempre se queixando de tudo. O pessimista pra valer não pensa assim. Para ele o túnel escuro não tem fim e todos os copos estão sempre vazios. Para o azarão convicto nada pode piorar, pois já está no pior dos mundos. Já o falso-pessimista tem orgulho de seu pessimismo. Torce pelo mal contínuo, com efeito erga omnes. Fosse-lhe oferecido um mundo sem problemas com um estalar de dedos, negaria ao universo o estalido em prol de suas acariciadas mazelas. Nem todos, entretanto, são chatos. Tem os simpáticos, os engraçados, os geniais. Woody Allen talvez seja um dos mais célebres falso-pessimistas. No monólogo inicial de “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, diz que a vida transcorre entre o horrível e o miserável, embora se tivermos sorte, será apenas triste. E rimos meio sem graça, com metade da boca.
Carl Rogers diria que “estamos” pessimistas ou “estamos” otimistas. E no ciclo eterno das coisas mutáveis que somos, convivemos com nossos fracassos de maneira diversa. O otimista tira lições dos erros do passado. O falso-pessimista teme repeti-los no futuro e acaba sofrendo prematuramente por isso. O real pessimista está bem além do mal. Ele não acha nada do nihilismo. E logo, não liga pra silogismos e dilemas.
O falso-pessimista cumpre todas as profecias auto-realizáveis de seu Apocalipse interior. Deseja que as coisas piorem para todos de um modo geral, pois não estão suficientemente boas para ele. “To be or not to me” é a questão que se coloca a cada existência sua que inventa pra doer-se um pouco mais. Martiriza-se para conservar inalterado seu mundo. O pessimista mesmo, ao contrário, é maduro, consciente, tranquilo. Só ele bota tudo a perder. De corpo inteiro, sem alma. No seu ponto de vista, ponto de ouvido, ponto tátil, nariz e boca e até em sexto sentido, ele sabe que tudo vai dar errado. Sempre. Não há surpresas. Sente-se pacificado pela certeza das incertezas. Não existe tempo de vacas gordas, nem bonança depois do temporal. Enquanto há vida, não há esperança. O falso-pessimista é autocentrado e infantil. Suas janelas têm os vidros revestidos de aço pelo lado de fora. Ele brinca de cabra-cega sozinho e reclama da luz que entra pela fresta de olhos vendados. Então, aperta bem as pálpebras pra não estragar a brincadeira.
Para o desassossegado Fernando Pessoa, ser pessimista era tomar qualquer coisa como “trágico”. Por isso, nem os sonhos lhe agradavam. Achava-lhes defeitos de uma dor universal. O bom pessimista é assim: grandioso em seu silêncio. É para ele que tudo vale a pena. O falso-pessimista, o de alma bem pequena, segue pregando que tudo pode piorar. Coitado! Detesto “coitadismo”. Detesto porque muitas vezes me faço de coitadinho e sofro a pena própria. É um sofrimento auto-imune que se deve evitar a todo custo. Não me entendam mal, por favor. Não quero bancar o otimista. O otimismo alienado já não me serve. É meia-taça de café frio. O pensamento positivo é um engano redundante. A fé mente pro destino e jura que ele acredita. A maior parte das pessoas é otimista ou falso-pessimista. Difícil mesmo é achar um pessimista autêntico. Puro. De berço. Que saiba viver sem se queixar o tempo todo. Que lute até perder e não desista de ensaiar seus equívocos. Um dia, se você tiver sorte, talvez encontre alguém assim. Dizem que só tem um pessimista de verdade no mundo. Parece que mora no Brasil.

12 comentários:

Patrícia Gonçalves disse...

Queria muito conhecer esse único pessimista! Mas tive a sorte, não conheci maiakovski, mas agora tô conhecendo você! Logo vê que sou otimista!

CESAR CRUZ disse...

Ficou perfeito o título. Uma lapidação feita na minha (bruta) sugestão.

Abç!

T. Escanho disse...

Adorei seu texto! Identifiquei vários falso-pessimistas conhecidos!

thali* disse...

gostei muito de seu texto...valeu o esforço!

Marcos Campos disse...

Adorei o texto, a gente se identifica e identifica os outros...

T. Escanho disse...

Obrigada pelo comentário. Tudo bem que foi meio por livre e espontânea pressão, mas vale mesmo assim!

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Caro Amigo Márcio

Conheci-te através do Porto das Crónicas da nossa Tais, do VEREDAS do Pedro seu maridão e, ainda do César e os seus Cusos. Vim ao teu blogue e gostei. Convido-te, por isso, a visitar a Minha Travessa e seres seguidor dela, o que desde já te agradeço.

E não posso deixar de te dizer que esses que «cansam a gente sempre se queixando» são, no mínimo, uns chatos. Perdão: uns chatarrões!!!

Este teu texto é bem interessante. Aliás, como antes afirmei quanto a gostar, esta tua pirotecnia tem que se lhe diga e os rojões - por aqui diz-se mais foguetes - são bravos. Muitos parabéns!

Desculpa a chatice que te possa causar este ‘tuga desavergonhado e escrevinhador. Também ando pelo Facebook, o que quer dizer que estou aposentado, mas vivo. E tão bem disposto quanto seja possível…

Qjs = queijinhos = beijinhos

Abs

Elaine Paiva disse...

Lendo seu texto lembrei de uma amiga Paulista. Ela estava numa situação terrível e a cada vez que piorava ela dizia "Pior do que está não pode ficar". Pronto, piorava mais ainda a situação dela. Um dia uma vizinha disse-lhe para não pronunciar essa frase e que a cada infortúnio ela agradecesse a Deus pelo aprendizado na dificuldade. Em verdade, sabemos que as nossas dificuldades aparecem pelos erros ou decisões equivocadas que tomamos no passado e, que, só se tornam visíveis no futuro. Nesse caso, minha amiga aceitou como uma dica religiosa e realmente a vida dela começou a caminhar. Mas, acredito que o que realmente aconteceu foi que ela passou a tomar as decisões corretas, e claro, misturada com um pouco de fé e esperança.
Òtimo texto!
abras...Elaine

Guima Guiomar Beineke disse...

Maravilha!

Assim que tiver um tempinho lerei teus outros textos também.

Parabéns!

Abraço do Guima

Luiza Gosuen disse...

É a primeira vez que leio um texto de sua autoria e, me identifiquei com muitos conceitos que faz - aliás gosto de gente que escreve o que pensa, sem bloqueios - principalmente a definição de otimista alienado comparado à meia-taça de café frio, achei perfeita porque cada palavra é rica em conteúdos. Parabéns!

Lorrayne L disse...

Falsos-pessimistas são pessoas que possuem uma convivência dificílima com as outras. Além de suas infinitas lamentações e medos, esperam que todos se sensibilizem á sua causa, vejam o quanto seus problemas são maiores e que digam sempre as mesmas frases feitas para o tão sofrido "amigo".Mas o pior, é quando desejam que todos a sua volta afundem em um poço sem fundo de desgraças ( algo que sempre quis entender). Devem achar que reduz o sofrimento ou apenas sentem-se melhor ao presenciar a desgraça alheia.
Gostei muito da sua análise. Parabéns!

Monique Botelho disse...

Muito bom o texto!!!Eu vejo o falso pessimista como a vítima do mundo!!!Conheço alguns, adoram se fazer de vítima para esconder a própria incapacidade!Ou seria força de vontade?Rapaz, vim aqui conhecer meu mais novo seguidor e me perdi no seu blog!!!Amei as metáforas e seu modo de escrever!!Já ri, pensei, raciocinei...Gostei, parabéns!!