2 de mai de 2010

Crônica Coletiva


Eis a crônica escrita com base no poema-enquete do post anterior.
Agradeço a todos que participaram pelas palavras de apoio e inspiração.


Ainda não tem título...
Alguma sugestão?

Quem costuma dizer “nada está tão mal que não possa piorar” é pessimista ou otimista? Postei esta indagação em forma de poema-enquete aqui no blog. Seria uma pergunta retórica? Quem sabe? Todas leituras sempre são possíveis. Eu não tinha a resposta pronta para a charada apresentada. Houve bastante participação e os comentários foram se somando no site. A afirmação mais recorrente foi que seria um realista. Outros defenderam que somente um otimista de verdade teria tal percepção. Seria um indeciso? Um resignado? “Resignado vale?” – alguém perguntou. Vale. Outras tantas soluções foram colocadas: bipolar, péssimo realista, aporético, aporrinhático, sensível, crédulo, lulista, colorado. Um contista! - gostei dessa.

O pessimista foi descrito como um acomodado que se incomoda esperando o pior acontecer e nada faz para que seu mundo continue saborosamente horrendo.Vê sempre copos vazios pela metade. O dístico popular tem lugar mais comum na boca do pessimista ou seria do falso pessimista? Para o azarão convicto nada pode piorar, pois já está no pior dos mundos. O falso pessimista tem orgulho do seu pessimismo. Torce pelo mal contínuo, com efeito erga omnes. Fosse-lhe oferecido um mundo sem problemas com um estalar de dedos ele negaria ao universo o estalido em prol de suas acariciadas mazelas.

No monólogo inicial de “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, Woody Allen diz que a vida transcorre entre o horrível e o miserável, embora se tivermos sorte, será apenas triste. Não me sinto nem melhor nem pior do que isso. Este cultivo da ideia de que tudo possa piorar é da natureza humana desde os tempos antigos. Depois que Eva comeu da árvore do bem e do mal, foi fácil convencer Adão de acompanha-la na transgressão. Sabe como? Conhecedora do lado ruim da vida, ela começou a por defeito em tudo e o resto da lenda vocês conhecem. Viver no Paraíso ao lado de uma pessimista seria um inferno. Os homens são mais pessimistas do que as mulheres. De tanto andar por aí pendurados na base do pênis ou rodando em seus carrões potentes, financiados em 280 meses, são mais medrosos e acham que tudo pode dar errado a qualquer momento. Esperança, aliás, é palavra feminina. Carl Rogers diria que “estamos” pessimistas ou “estamos” otimistas. E no ciclo eterno das coisas mutáveis que somos, aprendemos a conviver com nossos fracassos. Digo, o otimista aprende. O pessimista não. Sofre prematuramente seus nano-problemas. Cumpre todas profecias auto-realizáveis de seu Apocalipse. O pessimista é autocentrado. Suas janelas têm os vidros revestidos de aço pelo lado de fora. As coisas devem piorar para todos de um modo geral, pois não estão suficientemente boas para ele. “To be or not to me” é a questão que se coloca a cada existência diária que inventa para si. Seu discurso pseudo-correto disfarçaria uma apatia, escondendo suas inverdades de eterna insatisfação. De corpo inteiro, ponto de vista e de ouvido, ponto tátil na língua, no nariz e até em sexto sentido, o pessimista sabe que tudo vai dar errado. Sempre. Tem onisciência do fim dos tempos nas próximas 24 horas. Para ele não existe tempo de vacas gordas, nem bonança depois do temporal. Preso e com a chave das algemas bem apertada na mão, reclama da luz forte que invade a fresta de seus olhos vendados.

Para o desassossegado Fernando Pessoa, ser pessimista era tomar qualquer coisa como ‘trágico’. Por isso nem os sonhos lhe agradavam. Achava-lhes defeitos de uma dor universal. O pessimista é assim mesmo, de alma bem pequena, para quem nada vale a pena. Acreditar que tudo pode piorar é dizer, tragicamente, que nada possa ser mudado para menos do que o pior. Detesto coitadismo. Detesto porque muitas vezes me faço de coitadinho e sofro a pena própria. É um sofrimento auto-imune que se deve evitar a todo preço. Por outro lado, o otimismo alienado também não me serve. Tenho uma colega de trabalho otimista. No calendário em cima da mesa, ela já anotou em todas as segundas-feiras do ano “Que dia bom”. Não dá, né?

Pensamento positivo é uma redundância. Fé é mentir pro destino e jurar que ele acredita. O otimista faz papel de bobo algemando o pessimista e entregando-lhe a chave. Vendando-lhe, mas deixando uma frestinha pra espiar o buraco da fechadura que lhe ata as mãos. Tudo isso seria realmente trágico se não fosse engraçado. E rimos. Rimos tanto que chegamos a ficar tristes. O otimismo entristece tanto quanto o pessimismo porque erra em pensar o amanhã quando só existe o hoje, com boas chances de uma piora no dia seguinte. Aí, há que se admitir: hoje não foi tão ruim assim. Aproveitemos o dia, que amanhã já é segunda-feira!

15 comentários:

claudia disse...

Adorei...ai vai uma sugestão para o título "O pessimista colhe o que planta hoje...já o otimista colherá no futuro o que acredita ter plantado durante toda sua vida."

CESAR CRUZ disse...

Explorou bem o tema, Márcio. Valeu!A minha sugestão de título
"O copo pelo meio".


Abraços
Cesar

em tempo: quero sua opinão sobre um tema porreta de controverso (escritor é só quem escreve livro?). Tô quase apanhando lá. Vá ao meu blogue e deixe sua opinião qdo puderes.

Thais Travassos disse...

Caro Marcio,
O Woody Allen tem um novo filme, que vi na sexta-feira e ele chegou nesse mesmo impasse: afinal na vida, é o "whatever works"? O nome foi muito mal traduzido por "tudo pode dar certo", na verdade: "qualquer coisa que funcione". E é assim, não? E viver o HOJE, sem projetar expectativas futuras ou remoer feridas passadas é tão difícil. Obrigada pelo post. foi providencial, como o filme do Allen!

rthiago disse...

Talvez um bom titulo embora não citado no texto fosse "A beleza está nos olhos de quem vê" ou então poderia ser "Pessimismo ou otimismo, a verdade está dentro de você". Estão ai minhas sugestões.
Obrigado por citar os copos, rsssss. Muito boa sua crônica!
Gostaria de conversar mais contigo. rthiago@msn.com
Abraços e continue com o ótimo trabalho.

Talita Young disse...

Gostei muito do seu texto, só não sei se concordo com a comparação entre o otimista e as frases otimistas. Acho que são diferentes; as frases otimistas são para alienados.
Também não concordo com a proposição de que os pessimistas são iguais aos que praticam coitadismos.
Muitos praticantes do odiável coitadismo, usam o tempo todo os chavões otimistas.
Enfim, o melhor, de fato, está no ser otimista, que tende a ver que tudo na vida tem dois lados. Um que é bom e outro que é ruim. E pode ficar feliz ou triste com isso.
Beijo na alma!

ManuBizz disse...

Eu concordo com Carl Rogers, estou otimista ou estou pessimista...
Tambem penso que as probabilidades ajudam para o que eu possa considerar otimismo ou pessimismo, o caso da patetica e pessimista lei de Murphy...Engracado isso...
Enfim, acredito que a colocacao nao seja nem pessimista e nem otimista, simplesmente ideia lancada no ar em que o ouvinte absorve, sendo assim o pessimista ou otimista da historia...

Ana Nobrega disse...

Que tal levar para o lado otimista e nomear com: "Se melhorar estraga"
ou ainda "Nada é tão bom que não possa melhorar."

Em poucas palavras... disse...

Cara, você é ótimo! Adorei!

Tâmara disse...

adorei esse duelo travado entre o pessimista e o otimista....rs Enquanto lia, parágrafo por parágrafo, eu me peguei pensando: O que diria Nietzsche se lesse essa crônica antes de pensar em escrever a tão badalada obra Genealogia da Moral? ( onde ele trava duelos entre o Bem e o Mal)...rs E cheguei a conclusão que de fato, Nietzsche teria que repensar seus argumentos....rs

Anônimo disse...

Nada mal... tudo bem?
(Bia martau)

PROFESSORA MARA BENBASSAT disse...

Talvez caiba bem a frase filosófica um tanto alterada:
"SER OU ESTAR"

Ser pessimista, ou estar pessimista?
Ser otimista ou estar otimista?
Ser ou estar podem sim criar uma aliança de sentimentos, emoções, fases da vida em que podemos SER ou podemos ESTAR vivenciando algo parecido com o que você quis dizer com tudo isso.
Om Shanti! yoginiMara do twitter.

giselle disse...

Bárbaro o texto.

Minha sugestão de nome: "oh, vida..oh, carpe dien...oh,...."

beijos

Giselle Zamboni

Galatéia disse...

Boa crônica! Gostei!

"FINAL DAS CONTAS" - é minha sugestão para o título. :)

Abraços

Carolina Casarin disse...

adorei o blog! você sabe de onde são essas fotos do woody allen com a scarleth johanson?

Vanessa Yamane disse...

Primeira vez no seu blog e entusiasmadíssima fiquei! Adorei o linguajar, o estilo de escrita, o humor, a sinceridade! Mais uma fã da sua escrita.