11 de mar de 2010

Autocrítica literária

Fico abismado com o fosso que separa os que escrevem dos que estudam literatura. Os acadêmicos acham mil e um defeitos nos textos, vozes e estilos tanto de iniciantes, quanto dos que já vendem seus livros. No meio literário temos os que lêem, os que lêem e escrevem, os que lêem e estudam os escritos dos que escrevem e os críticos literários. Os críticos primeiro leram bastante. Depois tentaram escrever. Aí resolveram estudar o que os outros escreveram antes deles (e ainda não termiram). O crítico literário é o Uroboro. É o urubu. É lobo de si. Mas o crítico literário tem Lattes. É o Doutor. O crítico literário faz suas belas artes com honoris causa. E se alimenta disso. Do ovo e da galinha. O escritor escreve suas balelas como underdog\papeleiro\grafiteiro. O crítico literário é o literato. E o literato dá aula na Federal, publica artigos e ministra oficinas ilimitadas. O escrivinhador troca livro no sebo e discute de tudo no calçadão. O literato é o engenheiro das estruturas textuais. É o arquiteto das formas narrativas. Ele e só ele sabe planejar um bom texto. Seguro. Moderno. Arrojado. O escritor é o arigó. É o pedreiro que empilha travessões e faz puxadinhos de reticências... O crítico literário conhece todos os clichês a evitar. O escritor coloca seus tipos na prensa e roda folhetins novelescos de água e adoçante. Abaixo o abaixo-não-assinado de críticas de gabinete! Oh, purê de batatas morais pós-modernista. A literatura atual está se deformando pela forma. Reinventando rodas para andar por novas veredas sem saída. Estamos esquecendo das boas histórias que prendiam o leitor por mil e uma noites simplesmente pela possibilidade de distrair, de pegar pelas costas, de marcar páginas fazendo orelha. As críticas literárias enchem o saco. Tudo é feio, brega ou engorda. O crítico é o doutrinador. O jurista que se jura. O escritor é o advogadozinho de família. O literato, top de linha. O escritor é o fim da picada. O crítico é o homem bom. O escritor, o bom selvagem. O crítico literário é o psiquiatra do monstro. O literato é multinacional. O escritor, fundo de quintal. O literato é solista na orquestra de câmara. O escritor toca teclado em casamento de pobre. O literato não faz plantão. O escritor vira a noite. O crítico é formado em nutrição. O escritor vende ervas na feira. É o cara que amassa o pão que o literato comeu. Depois corta cebola e chora. O crítico levanta o cálice de sangue e cheira fundo. É o enólogo. O escritor é o poeta. E o lirismo de sua prosa poética causa independência química que pode levar até à morte. E, então, a crítica literária escreverá sua biografia, reconhecendo e resgatando seu trabalho aos cânones literários.

12 comentários:

Marta disse...

pois é... viva!! É o poeta. está lindo, adorei

Gisèle disse...

Também fico abismada com vários fossos, alguns enumerados e ´ditos´ em sua escrita: com certo humor e mal-humor necessários. Outros... do dia a dia... nos vácuos e disjunções.

Gisele

Anônimo disse...

Putz! Pra mim, o crítico literário é igual juíz de futebol, o que o cara queria mesmo era jogar, mas não tem competência, então se conforma em fazer parte do jogo apontando as faltas dos outros... kkkk

Marcio da Costa disse...

Vergonha esse blog censurar comentários!

Thalita Covre disse...

Rs, o anônimo mandou bem com a comparação. E digo mais, ou não digo nada, quem diz é Silviano Santiago: o crítico é quem sabe o caminho mas não dirige o carro.

Bem, me formei em letras e deveria ser assim, exatamente assim, crítica, mas não deu. Sinceramente, não vejo nenhum sentido em fazer interpretações em cima de coisas que devem, antes de tudo, serem sentidas e identificadas.

Ainda vejo a literatura com os olhos de criança.

abraços, Thalita.

Márcio Ezequiel disse...

Oh, Xará, não sei de quem vc tomou as dores, pois nao lembro de ter "censurado" postagem alguma sua. Espero que entenda q meu blog, apesar de bem amador é o local onde divulgo meus trabalhos e escritos e embora nem sempre agrade a gringos e goianos, ninguem é obrigado a acessá-lo. Algumas pessoas são grosseiras, mal-educadas ou postam comentários que agridem por agredir, sem argumentação consistente, sem acrescentar nada. Aqui há vários comentários de pessoas que nao concordaram com pontos de vista apresentados, mas o fizeram de maneira inteligente, agregando qualidade ao espaço. Optei por moderar as postagens, o que é de praxe em muitos blogs até porque existe spam em postagem. Se concordar, comente. Se discordar argumente. Agora, se baixar o nível, eu recuso a postagem mesmo, afinal a casa é de pobre, mas é limpinha e tá paga! Enfim, viva a liberdade! 100 Censura!

Eliúde Damásio disse...

O que você tem contra tocar teclado em casamento de pobre? Kkk! Ainda bem que parei com isso...

E quem veio primeiro? O texto ou o crítico? Quem inventou a literatura? Como já li por aí, "não se erguem estátuas para críticos". Um dia a gente morre, e ganha uma cadeira na ABL e um livro no vestibular.

Márcio Ezequiel disse...

Hehehe. nada contra e nada a favor. escrevemos uns para os outros. o crítico analisa. e no fim, bem no fim... o ponto final. volte sempre.

Marina disse...

acho que um não é necessariamente separado de outro: o critico pode ser escritor. escritor crítico, quem sabe, mas de seu "próprio" texto. como o texto não é próprio, mas alhures, as coisas começam a se complicar ou a ficar mais, muito mais interessantes. eis a teoria.

Márcio Ezequiel disse...

E aí, Marina. Captaste o espírito. Daí a ironia do título. Fiz senão uma crítica literária aos críticos rançosos gritada por um "Eu Lírico". Enfim quando se explica piada e poesia perde a graça. Volte sempre!

myopiandown disse...

O escritor é o vadiinho que passa de ano sem querer.

Michel Abelaria disse...

O escritor é o que existe de fato. Maravilha de texto, Márcio!