13 de fev de 2010

Feiúra roubada


Se a beleza é relativa, a feiúra é absoluta. Claro que existe um componente subjetivo ao considerar alguém desprovido de algum caractere aceitável como belo nos padrões culturais atuais e locais. Mas aí já não se trata do feio, e sim do feinho, do sem graça, do sem sal. O feio é o feio. É universal. Atemporal. Ninguém questiona sua “fealdade” - aliás, que palavra bem feia!

A feiúra existe há muito tempo. Na pré-história todo mundo era feio e ninguém ligava muito pra isso. Tinham outras prioridades como descobrir o fogo, a roda e evitar que um certo tigre dente-de-sabre entrasse na caverna. Além disso, não havia máquinas fotográficas nem televisão ditando modas. As pinturas rupestres eram pouco detalhistas. Parece que foi mais adiante, na Grécia antiga, que a coisa começou a ficar... feia.

Para Narciso, entorpecido pela própria imagem, era feio o que não fosse espelho e na sua modesta opinião toda deusa era Medusa. De fato, a górgona era tão medonha que se o cidadão a olhasse diretamente virava uma estátua de pedra. Só podia ser vista em reflexo. Uma vez que o Narciso, em seu narcisismo, não deixava ninguém usar o espelho, muitos foram transformados em estátuas gregas naquela época. Ainda teve o caso de Hefesto, produção independente de Hera, que saiu tão feio que a deusa o atirou do Olimpo.

Com o cristianismo os feios ganharam o consolo de que herdariam o reino dos céus e lá todo mundo seria bonito. Nero lavou as mãos. Logo mais, na Idade Média, mataram várias bruxas de meia idade, o que ajudou a diminuir o número de crianças com verrugas no nariz por algum tempo. Por aqui, tivemos um caso oriundo da mitologia indígena. Macunaíma, que não veio ao mundo para ser pedra, nasceu uma criança feia e virou o herói de nossa gente.

Os feios têm sobrevivido ao longo dos tempos. O que muda é o modo como a sociedade os encara. Uma dificuldade sempre foi se colocar no mercado de trabalho, que valoriza tanto a boa apresentação e uma carta de recomendações. Alguns fugiram com os circos. O teatro e a televisão empregaram muita gente. Comediantes, freaks, vilões. Outra diculdade pode ser arrumar casamento. E se o feio não quer uma bruxa, a feia espera por um príncipe. Alguns conseguem. Tem mulheres que até preferem homens bem feios. Bandido de filme, durões, brutos. Afinal eles também amam.

Os homens dizem que não existe homem bonito. Um feio disse isso uma vez e a maioria repete. As mulheres comentam na boa ao achar outra fêmea bonita. Quando um cara quer ou precisa admitir que outro homem é bonito fica enrolando, pede ajuda aos deuses, escolhe palavras, gagueja e não consegue. Aí fala que é simpático, boa pinta ou presença. “Fulano é presença.” Que frescura! Claro que existem homens bonitos. Tem o... o... Não me ocorre agora. Feio? Lembro uma legião. Porque somos muitos. O Carpinejar assume. Diz que se acha feio como o Woody Allen sem óculos. Rouba a feiúra do outro. E é. É feio mesmo! Já nasceu filhote-de-cruz-credo. E fatura uma grana com isso. Vende livro. Ganha prêmio. Legal. Acho bacana. Inclusive arrisco o trocadilho de que os bonitos que me perdoem, mas feiúra é fundamental. Alguns mudam com o tempo. Allen era horrível quando jovem e hoje é um velhinho simpático. É, perdeu a graça, eu sei, o sal, mas ganhou tanto dinheiro com seu óculos de Grouxo Marx sem bigode que todos ainda dizem que o amam.


Comigo foi ao contrário. Contam... Ok, minha mãe conta, que eu era um menino lindo. Que parecia um principezinho. Quanto embaraço por causa disso na escola, no condomínio e na mercearia! Enfim, bonito ou não, fui ficando parecido com o Woody Allen. A turma comentava na faculdade. Eu até que gostava. O padrão dos bonitos é degringolar com o tempo. É a história do patinho feio em sessão análise com regressão. Outro dia me deslocava de táxi em Porto Alegre para a Feira do Livro e o motorista perguntou se eu não era aquele escritor... como era mesmo o nome? Demorou um pouco até que lascou, o Carpinejar. Tudo bem, tava escuro e eu tinha raspado a cabeça um dia antes, mas tenha dó! Sem contar que nunca ganhei um tostão com isso. Feio e sem din-din será que elas também amam? De quebra, o taxista também era tinhoso. Quem sabe estejamos voltando pra idade da pedra e todo mundo seja feio, mesmo com photoshop?

Não é preconceito. É conceito mesmo. A fealdade pode ser bonita. Por que não? E não estou falando de beleza interior. A feiúra tem sua graça. A beleza se leva muito a sério. Narizinho empinado. A caricatura tem conteúdo, o retrato só tem a forma. A feiúra é natural. A beleza morre jovem. Lembrei. Lembrei dum bonitão. O Elvis foi o homem mais bonito do século XX antes de virar o Elvis gordo. E ganhou muita, muita grana nas duas fases.


No Brasil parece que tem um ator boa pinta também. Não tô lembrando o nome, mas fazia uma novela das oito, a dos italianos e não ganhou muito dinheiro. Promete-se que a
situação dos feios vai melhorar, pois com o “fome zero”, a tendência é diminuírem as caras feias no país.

6 comentários:

Camila disse...

Parabéns!

Gostei muito da forma descontraída e despretenciosa que escreves. Vou visitar o blog mais vezes.

Pompeia disse...

Bem!!! feio feio!!! depende da perspectiva.
Eu acho sempre interessante alguma imperfeição... e depois a beleza cansa lol

foi a primeira vez que aqui passei, talvez volte
pompeia

Eduardo Trindade disse...

Feios / unidos / jamais serão vencidos!
(E se nos uníssemos todos? Hum, não sei se daria certo, tavez conseguiríamos só tocar um negócio de túnel do terror nalgum parque de diversões. Enfim...)

Enfim, mais uma crônica primorosa e, principalmente, redentora: um viva para os feios!

Monisa disse...

A verdade é que beleza é aquilo que agrada aos olhos. :)

Gostei muito do seu blog, parabéns. ^^

Carmélia Cândida disse...

Que MARAVILHA de texto! Gostei muito do seu estilo!!! Quero ler mais e mais e mais.
Um abraço!!!

Loja Organicus disse...

Olá, taís bom? Adorei o post; gosto do seu stilo descontraido, divertido e bem humorado. Primeira vez que passo por cá e pretendo passar muito mais vezes. Adoro ler coisas novas. Sucesso pra ti. Um abraço, Joara Letícia.