20 de fev de 2010

Time's up!

Não existe hora certa. Pode ligar pro 130, procurar na internet, perguntar pra diarista. Cada fonte dará um horário diferente. Vivemos perdidos no tempo. Não sabemos a hora. Com o fim do horário de verão tudo fica ainda mais confuso. “Que horas são? (...) No horário novo ou antigo?” – o povo pergunta. Como assim? É convenção. O que vale é o que tá no relógio.


Vivemos à deriva com ponteiros tique-tateando no escuro do tempo. Veja bem: Deus nunca ajuda quem cedo madruga. Após o meio-dia só se pode dar boa tarde e a novela das oito começa depois das nove. Tá tudo errado! Agora, falando sério, como uniformizar o horário num país em que aviões caem por erro de controladores de vôo?


A hora foi definida no Mundo Antigo. O pessoal gostava muito do número doze naquele tempo (12 signos, 12 meses, 12 apóstolos) e dividiu o dia numa dúzia de partes, do nascer ao pôr-do-sol e a noite noutras doze. Não era muito preciso, pois o tempo diário de exposição solar varia ao longo do ano e de um lugar pra outro. Basta lembrar que no Pólo Norte o sol fica rodando no céu por seis meses e depois há uma longa noite, que com aquele friozinho é bem melhor pra ficar embaixo das cobertas.


Os gregos usavam duas palavras pra definir o tempo. Chronos era o tempo mensurável, cronológico, todavia menos preciso. Kairos (καιρός), indicava um momento exato, especial. Nos textos bíblicos tal noção aparece também. Na carta aos hebreus o profeta indaga: “que mais direi? Certamente, me faltará o tempo (chronos) necessário...” Já o escritor do Apocalipse foi admoestado para não fechar as palavras da profecia, pois o tempo (kairos) do fim estaria próximo. O relógio de Deus marca as horas em kairos.


Enquanto isso, aqui na Terra não existe uma ocasião exata para cada evento debaixo do sol. Não há uma hora certa para nascer nem para morrer. Nem para plantar, nem para comer. Não há hora certa para matar nem para fazer sexo com fins reprodutivos. Para derrubar ou construir um site. Não há hora certa para chorar nem para chorar de rir. Para dançar, cantar, sapatear, dublar, não há. Não há hora certa para chover nem para alagar. Para abraçar, nem para dizer que ama. Para dar até logo ou dar adeus. Não há hora certa de baixar, salvar ou deletar. Rasgar ou remendar. Não há hora certa para casar ou pensar. Para divorciar ou esquecer. E se não há hora certa para nenhum propósito que almejamos não sei porque corremos por aí sempre atrasados com estes marca-passos pendurados no pulso. Nossos relógios carregam o tempo chronos. Mensurável, contudo impreciso. Errar é humano.


Já se criou relógio de tudo que é jeito: de sombra, água, areia, à corda, com rubis, à quartz, alimentação solar. De primeiro eram públicos. O da Catedral de Canterbury, na Inglaterra, foi construído em 1292. Quase quatro séculos mais tarde tiveram uma grande ideia: passaram a fazer relógios com o ponteiro dos minutos. Já o magrinho apressado dos segundos entrou na roda em 1762. Da Roma antiga aproveitaram os números romanos nos mostruários, embora não se saiba ao certo porque o IV apareça como quatro palitinhos (IIII) em alguns modelos.


Santos Dumont (aquele mesmo que inventou o avião depois que os americanos inventaram que tinham inventado primeiro) foi quem idealizou o relógio de pulso. Queria facilitar a consulta sem precisar soltar o manche, o que poderia ocasionar a queda do aparelho mesmo sem a ajuda de controladores de vôo. Acabou causando alguns problemas quando se olhava as horas com um copo na mesma mão, mas o povo se adaptou logo. Os americanos e suíços reivindicam até hoje o invento do relógio na pulseira. Na era do telefone celular a hora está voltando para o bolso, mito do eterno retorno.


No século XXI, dizem que dispomos de padrões atômicos de precisão distribuindo horário por GPS para diversas partes do mundo, mas continuamos perguntando as horas. Por que os relógios não tem atualização automática, via satélite? Seria da hora!


Acho engraçado quando dizem que o relógio está trabalhando direitinho. Se o relógio tá trabalhando o que estamos fazendo aqui parados? Matando tempo? Na verdade somos oprimidos por essa maquininha judaico-cristã-pequeno-burquesa, que nos dá corda para as voltas do dia-a-dia.


Outra reflexão cabível seria que se tempo é dinheiro, como apregoam os americanos, então um Rolex não traria felicidade? Sei lá! O que sei é que tenho medo daqueles modelos de parede em que o ponteiro dos segundos gira sem intermitência, continuamente. Nem tics, nem tacs. Angustia horrores. É como se o relógio esfregasse na cara da gente que o tempo não para. Na sala do meu terapeuta tem um desses.


Lembro bem que minha avó costumava dividir o dia em duas etapas: o que aconteceu antes, geralmente no começo da manhã, mais ou menos até a hora em que minha mãe saía para o trabalho. Chamava de “dia-hoje”. O que se passaria depois, no fim-de-tarde, quando a mãe voltava, designava como “logo”. Eram tempos mais simples feitos de passados curtos e futuros não muito distantes.


Hoje em dia é que tudo está mais complicado. Surgem novas teorias a todo instante. Física quântica, relações espaço-temporais, buracos de minhoca. E os alarmistas agora estão pregando que o mundo acabará em 2012 (oh, o doze aí de novo), quando os relógios finalmente poderão descansar de tanto trabalho. Nós também. Que horas são?

6 comentários:

Zatonio disse...

"Ganhei" um bom tempo lendo seu belo texto...

dmc disse...

Eu não tenho tempo para estas... coisas!
Há mais? :D

Marta disse...

Tic tac tic tac adorei curtir o tempo por aqui.
abraços

CARLOS DE QUEIROZ disse...

Muito booom!
Apareça no meu blog, ok? Te seguirei aqui e no twitter.
Abço.

wwwtribunadorio.blogspot.com

giselle disse...

Nem contei o tempo...
Tuas letras são fantásticas...teu texto me hipnotiza, feito um ponteiro de relógio na parede do tempo!
Ganhei tempo, ora!
Adoro teu blog...
Beijos,

Giselle Zamboni

Almir disse...

Nossa, que texto ! Simplesmente.. PERFEITO ! :) Inteligencia tão ... Nem tenho palavras ! Parabéns !
BY.twitter/espicles :)