29 de jan de 2010

Saber de Careca


Não aceito minha calvície. Desconheço meu reflexo nas cômodas, nos armarinhos, no fundo das colheres. E não sou esse que passa por vitrines ou se perfila nas janelas de ônibus. Minha imagem interior tem a aparência de uma antiga foto 3x4 datada com carbono 14. E que bela juba eu tinha! Nunca deixava o cabelo comprido. Penteava para trás, estilo topete de cardeal. Mais pra Elvis que pra Lennon.

A decadência de minha “era capilar” começou cedo, por volta dos vinte e cinco. Coincidentemente logo após o primeiro casamento. Só coincidência mesmo, pois no meu caso foi genético. Aliás, a única herança de meus avôs. E contra a injustiça dos genes não tem processo amigável, nem apelação ao Supremo. Os dois velhos eram calvos. O pai também é careca. Ok, calvo. É feio dizer “careca”. Do cabeludo perdendo cabelo se admite dizer que esteja ficando careca. Depois do estrago, entretanto, vira “calvo”. E o calvo fica “pê” se for identificado pejorativamente. E com razão. “Careca é o pneu do monociclo do palhaço!”

Sonho com certa frequência que estou cabeludo de novo. Não há explicação alguma para o milagre onírico. Simplesmente ressurgem os fios. Que felicidade! É sempre difícil acordar de um sonho assim. É um pesadelo invertido. Interessante que nunca é igual ao cabelo que tive. Mas geralmente bacana. Vasto. Comprido. Castanho-claro. Da cor da infância. Outra vez sonhei que era bem preto e escorrido. Coisa linda, parecia um samurai! O último delírio anteontem foi um pouco bizarro. Vou precisar de algumas sessões de análise pra entender. O cabelo era repartidinho no meio. Ruivo. Tinha cara de adolescente, com sardas. Ando vendo muito Woody Allen. Parecia um pouco com o Mad ou o Ferrugem. Tenebroso. Mas estava feliz. Cabeludinho.

Eu preciso confessar que invejo quem exibe um bom cabelo. Não dizem que as mulheres sentem a tal inveja do pênis? É natural. A gente quer o que não tem. Pois então. Claro que há muito chumaço por aí que não me causa dor de cabeça alguma. Seria tal cobiça pecaminosa? Acho que não. Já pensou? "Não desejarás os mullets do próximo." Ao contrário, o Deus bíblico até protege os pouca-telhas. Tem o famoso caso do segundo capítulo de Reis, em que Eliseu se deslocava de Jericó a Betel e uma gurizadinha mexeu com ele: “Oh, careca. Sai fora!” Ele virou, encarou e tocou uma praga em nome do Senhor. O Supremo atendeu e duas ursas saíram do mato e destroçaram quarenta e dois daqueles meninos. Não sou religioso, mas achei justo.

Há os que busquem consolo na ciência. Apregoam que a queda estaria associada ao excesso de testosterona, justificando porque "elas" gostam mais dos carecas. Tem até remédio que diminui a produção do hormônio masculino. Eu acho bobagem. Em time ganhando não se mexe. Outros dizem que com a evolução os cabelos vão sumir de todo modo. Assim como os pêlos diminuíram muito desde os primatas, no futuro o homem não vai mais precisar disso. Os calvos estariam assim no topo da escala evolutiva. Gosto da idéia, desde que a natureza não se meta com as mulheres, que ficam muito bem com suas madeixas e vozes. E é claro, sem pênis.

Hoje em dia tá na moda rapar a cabeça. E o cara que tem cabelo, e raspa porque quer, pode ser chamado de careca. Não é ofensivo. É o "carecão"! O que não faz muito sentido é os calvos passarem a máquina no pouco que lhes resta na nuca e laterais. Tudo bem, também corto assim. Careca e fora de moda já seria demais. Contudo, admito que seja tapeação. Não chega a ser ridículo como faziam alguns senhores deixando crescer de um lado para puxar por cima da cabeça com gel. Mas não deixa de ser atitude desesperada. Como se zerando o corte zerasse a calvície. Deixasse de ser o calvo para se transformar no carecão. Tá certo que eliminando a meia lua da nuca diminui um pouco o aspecto de tiozinho, mas sempre fica uma sombra que denuncia onde termina o cabelo raspado e começa... a calva. E tem o brilho. O brilho eterno de uma cabeça sem cabelos é bem diferente da porção raspada. Ou seja, não engana ninguém!

E sempre tem um pra sugerir implante. Não dá, fica horrível! E mesmo que ficasse perfeito, já fui longe demais na calvície. Meu caso é terminal. Teria que mudar pra outro continente. Como chegaria subitamente no trabalho com cabelo. Capaz até de perder o cargo ou apanhar. Tem vários calvos por lá. O jeito é se aguentar e manter a dignidade. O pai e meus dois avôs se saíram bem. Nunca cogitaram sequer usar peruca.
Também vou sobreviver, entre um sonho e outro, tentando aceitar que aquele no espelho ainda sou eu. E qualquer problema, qualquer chacota na rua eu chamo as ursas!

14 comentários:

CESAR CRUZ disse...

Caro Marcio

Não tenho como negar: me identifiquei com este texto. Sou dos que, depois de anos de minoxidil, finasterida e frustrações acumuladas, vi pelo retrovisor, finalmente, no banheiro de casa, que não havia mais jeito. Mesmo. Foi há 4 anos. Radicalizei e raspei. Depois sofistiquei: comprei maquininha profissa. Como vc disse bem: melhor parecer um carecão-jovem-radical, do que um tiozão-véio-molengão.

Pois é, meu chapa. Essa é a vida de quem foi atingido em cheio pela Alopécia, lás pros vinte e poucos... e eu este ano chego aos 40! "A idade do vexame!" Vá ao meu blog e leia essa. Acho que vai se identificar.

abraços calvos
Cesar Cruz

Renata Braga disse...

rs estranho né!
Isso é algo que admiro.. e levar assim na boa como tu, e ainda conseguir escrever algo tão leve e divertido de se ler... é melhor ainda!

Que bom que gostou la do My Place,e gosteido elogio, tu ja ta nos meus favoritos.. com certeza... vou voltar!

Beijoo

Evelyn disse...

Marcio, tenho visto que vc está muito revoltado! Pega leve!... A vida é curta e cada um enxerga o que quer. Procure o que há de belo e verás que a felicidade ainda existe... (e não é só na musica!) Abraços de quem tinha tudo para ser revoltada mas é super feliz!!

MilaF disse...

Vi o seu texto anunciado no Facebook e me interessei! Afinal, sou casada com um careca. Antes de mais nada: calvo é eufemismo, assim como "mignon". Meu marido é CARECA e eu sou NANICA. Não é doença nem pecado!

Quando conheci meu marido ele tinha 23 anos e já estava careca o suficiente para ter decidido rapar o que ficou. Isso não o deixava nem feio nem com cara de velho. Essa ousadia de rapar - e o fato de ficar tão bonito sem cabelo que nem precisava tê-lo - me conquistou e desde então passei a reparar com muito mais gosto nos carecas.

"O que não tem sentido é os calvos passarem a máquina no pouco que lhes resta na nuca e laterais."

Discordo completamente! Assumir-se careca, como assumir qualquer outra coisa que se é, é libertador. E a liberdade atrai. Carecas, se isso vale algo, fica a dica de uma mulher que curte tanto carecas como cabeludos: se estão perdendo as telhas, rapem-nas de vez, exibam o cocoruto sem medo! É muito, muuuuito mais sexy do que manter os paralamas. Só não esqueçam do protetor solar. But that's just me saying.

Agora, inveja de pênis é freudice das mais forçadas. Tenho inveja de um porrilhão de coisas dos outros - de pênis, não, que estou bem feliz com o meu aparato feminil.

De resto, texto muito bom, descolado e engraçado. :-)

giselle disse...

Márcio,

Sensacional o seu relato psico-capilar, meu pai também tinha parcos fios na frente e cachos atrás, o chamávamos de calvoreca, sabe como é, o pessoal aqui da Mooca, em Sampa, é cheio de fazer "trocadalhos"- sabe a piadinha, né?!

Parecer o Ferrugem num sonho, ou pesadelo, é de fato tirar cabelos do baú?!

Sério, vc é bárbaro!!! Escreve demais!!!

Adorei te achar no twitter e vou virar fã assídua desta pirotecnia literária, vou mesmo!

Rezarei aos deuses para que seus cabelos sejam mantidos no lugar que merecem, é sempre bom respeitar a natureza!!!!

Um grande beijo.

Giselle Zamboni

Márcio Ezequiel disse...

Prezados.
O texto acima é obra de ficção. Nenhuma criança morreu. Nenhum animal foi maltratado. O melhor comentário foi o primeiro. A Cesar o que é de Cesar. Quem vive a coisa na pele sabe do que falo (sem trocadalhos com o "falo", please).
Não sou infeliz por não ter cabelos (vide foto ao lado,estou radiante e até sou bonitinho). Claro que nunca vi ninguém orgulhoso por ser careca. Agora se afeta ou não a auto-estima, de fato vai de cada um.
Se houvesse um ranking de fodões cabeludos x carecas, a briga ia ser feia: Cristo era cabeludo. Buda e Gandhi, carecas. Stalin, cabeludo. Lenin, careca. Capitão Kirk, cabeludo. Cap. Picard, careca. Mel Gibson, cabeludo. Bruce Willis, careca. Clark Kent, cabeludo. Lex Luthor, careca.O asterisco, cabeludo. O ponto final, careca.

Jenny Paulla disse...

Genial!=D
O engraçado é chamar logo Ursos que são tão peludos!hauhauhuahah
E realmente um carecão pode super atraente;)

Jenny Paulla disse...

Genial!hauhauha
O melhor é chamar ursos,logo os mais peludos!kkk
=D
E,realmente,um carecão pode fazer um sucesso danado^^

Luinha disse...

Adorei sua nudez. Colocando lenha na fogueira, soube que quem passa a dolorosa hereditariedade é a mãe.
Tem sido gostoso passar por aqui. Abraços
Marta

Meias de Seda (Suzy) disse...

Oi, Marcio!
Parabéns pelo blog e pelas crônicas. Adorei!
Quase não reconheci os senhores das fotos sem as respectivas cabeleiras...rs
Voltarei mais vezes para ler com calma os seus textos.

Um abraço,

Suzy ;)

Eduardo Trindade disse...

Comecei a sorrir já com o título de Pirotécnico Ezequiel, que me lembrou, claro, o Pirotécnico Zacarias, mas que ia além, porque se desmembrava em piro-técnico. Em seguida mergulhei nas tuas crônicas e achei-as saborosas e muito bem escritas. Imagino que a proposta destes rojões seria instigar mais algum barulho mas, por ora, só tenho elogios. Passarei a acompanhar teu blogue, ávido por descobrir aonde vai nos levar essa pirotecnia.
Abraços!

Márcio Ezequiel disse...

Blza, Eduardo.
Valeu a visita e as sacadas, deixemos o Zacarias responder então:
"Por instantes, imagino como seria maravilhoso arrancar do corpo lenços vermelhos,azuis,brancos,
verdes. "Encher a noite com fogos de artifício."
Murilo Rubião -
O Pirotécnico Zacarias

Flavio Trajano disse...

Caramba Márcio

Para o texto só um comentário: FABULOSO

Para a realidade vários comentários:

Estou ficando careca (calvo?)desde os 24 anos, decidi que calvo não fico, estou ridículo com esta plumagem no topo da cabeça tentando fazer parecer cabelo, a natureza é cruel tenho mais sobrancelhas que cabelo queria raspar tudo mas na época de colegio fiz isso e percebi que não tenho a cabeça muito simétrica, no fim das contas nem tenho para onde fugir, quem sabe a "calvice" me dê um ar de respeitabilidade.

Abraços
Flavio Trajano
Calvo enrustido.

beto barbazul disse...

Prezado Marcio,

Tão logo prestei vestibular meus cabelos começaram a ficar mais macios clarinhos e fáceis de lidar... pensei comigo, está ficando bom este meu cabelo, porém mal sabia eu que com 17 anos e com pai e avôs cabeludos era minha careca que se anunciava... Foi uma luta... Mas lá pelas tantas cansei e criei coragem e passei gillette na cabeça toda... Me descobri um novo homem... fiz piercing, tattoos e tenho uma barbinha azul... não curto aquele visual tiozinho de escritório... tenho 43 anos e ninguém diz a minha idade... Uma das vantagens da careca é confundir as pessoas... e curto muito quando me chamam de meu careca...ganho beijinho e tudo na cabeça... quanto ao brilho existe uns truques para diminuir, tem uns cremes na lojas especializadas, os cremes chamados de ''mate'' diminuiem muito a oleosidade na pele... tenho muito orgulho de ser careca, é claro que seria bom poder variar, mas como isso não é possível tomo um solzinho para deixar a careca dourada tipo Bruce willis e tá tudo certo... Num mundo de penteados e cabelos o careca é sempre visto com um ar viril, não sou do tipo que sofro pelo que não tenho, eu me adapto com o que tenho, meu sobrinho mais novo vive me dizendo que quando crescer vai querer ser como eu, ter tatuagens, barba azul e ser careca, e então vou ficar chateado se sou modelo para os meus garotos? eu curto a vida com o que ela me dá! Acho que a gente tem que se curtir pros outros curtirem também!