26 de jan de 2010

Leia antes de usar

Não tenho coragem de jogar fora os manuais de instruções. É bom mantê-los à mão, como sugere a etimologia do termo. É uma questão metafísica, dogmática. Deixo-os na mesma prateleira que os livros de referência. Junto com o Cambridge English Dictionary e o VOLP. E não são poucos. Tem o manual da TV, do microondas, do ar-condicionado, do celular entre outros ocupando bastante espaço. Aliás, um dos problemas é que são fininhos demais e de difícil acomodação na estante. Até param na vertical, mas de orelha caída. E não que não sejam extensos, porém impressos com letra miúda. Muitas das informações ali apresentadas sequer são necessárias. Funções quase nunca usadas nos aparelhos, detalhes técnicos e dicas de bom uso enchem linguiça. Como se um produto fosse melhor pela quantidade de explicações exigidas ao seu funcionamento. Grande parte é multilíngue e mal traduzido, inclusive para o português. Os desenhos e gráficos por vezes são de outros modelos ou trazem botões que não se acham no equipamento descrito. Alguns têm um resumo na primeira página, com passo-a-passo para início rápido, o que geralmente seria suficiente.
Os manuais de instruções são tipicamente masculinos. Mesmo que nunca os abra, quem não deixa pôr no lixo é o macho dominante da casa. Nunca vi minha mãe consultando instruções para ligar uma lava-roupa nova ou para alterar a temperatura da geladeira. É coisa de homem. Igual à caixa de ferramentas. É sua e ninguém mexe! Lembro quando recebemos em casa a TV à cores, o 3 em 1, o vídeo-cassete. Tava ali. Era só conectar alguns cabos, plugar na tomada e pronto. Mas o pai dizia: “Espera, espera. Não é assim. Tem que regular primeiro!” Certa vez chegou com um rádio novo e nos advertiu: “olha eu trouxe esse som, mas é cheio de botõesinhos e não é pra furungar antes de olharmos o manual.” “Olhar-MOS”, sim ele tinha que estar junto senão Deus nos acuda. Pior que tinha no máximo dois ou três botões. Fora o dial, só o on-off e o volume. Fazer o que? Poderes. Poderes de pai.
Hoje sei que o que dá resultado mesmo é a empiria. É fuçando que se desvenda tudo - ou quase tudo. Recentemente, depois de acender algumas vezes o forno do fogão no palitinho de fósforo, descobri como usar o acendimento automático. No manualzinho, nenhuma dica. Talvez quem os redija também não saiba direito ou tenha um prazer em não dividir o conhecimento adquirido.
Muitas pessoas buscam um manual de instruções para a vida. Talvez por isso livros de auto-ajuda vendam tanto, inclusive a Bíblia. Outro dia achei um volume sobre dicas para resgatar o casamento. Fala sério! É igual à terapia de casal. Quando se precisa de tal recurso é porque já era. Quem usa um guia pra se apaixonar? Ou tá ligado ou não funciona mais.
Como seria um manual de instruções da vida? Fininho, grosso, ilustrado? No mínimo, de difícil redação. Sem jurisprudência. Sucinto e exato. Que adianta escrever dez mandamentos e ter que acrescenar Salmos, Provérbios e Eclesiastes? O texto deveria ser bem genérico. As pessoas são diferentes e seus objetivos também. Acabaria semelhante ao horóscopo. Tão aberto que suas diretrizes perderiam o sentido prático. Ficaria dividido em várias seções como: 1) Manual do bebê (para utilização dos pais); 2) Descobrindo que não sou minha mãe ou do processo de individuação na fase anal (essa parte também contaria com ajuda dos progenitores); 3) A vida alfabetizada ou o que fazer com esse manual; 4) A orientação sexual sem traumas; 5) Religião ou ideologia: uma escolha dogmática; 6) Ovolactovegetarianismo não ortodoxo; 7) Seu filho não é você; 8) A melhor idade com sexo; 9) Ensinando aos amigos o hábito da leitura; 10) Preparando-se para o porvir. Glossário. Além disso, o Manual da Vida seria no mínimo bilíngue. Imagine, você tomando uma decisão errada durante uma viagem de compras ao Paraguai. Acabaria trazendo algum produto de qualidade inferior que não funcionaria bem nem com o melhor manual do mundo.
A rigor os manuais complicam tudo. Veja a TV: você liga, muda canais, baixa e sobe o volume e deu. Ninguém usa a tecla SAP ou o closed captions. Função timer? Sem tempo de aprender. Fazem do bem descrito algo mais complexo do que realmente é. De fato, colocar instruções no papel é sempre complicado: vide a Bíblia e outros livros sobre magia.
Minha filha, dois aninhos, estava com um DVD na mão a que assistiu muitas vezes. A convenci de ver outro filme. Mais tarde, quem disse que eu achava o primeiro disco? Acabei descobrindo-o dentro do vídeo-cassete. Já na semana seguinte ligou o aparelho correto e sem a ajuda de nenhum guia. As gerações futuras não precisarão de manuais de instruções e talvez a vida se torne um pouco mais simples. Na dúvida, deixo-os lá na prateleira de referências, junto com o Dicionário do Palavrão e o Novo Testamento na Linguagem de Hoje.

4 comentários:

Marta disse...

Hum muito bom andar por aqui. Creio que vc tem razão manual é coisa de homem. Venho de um forte matriarcado e guardamos com zelo os manuais. Nem sei porquê, pois nunca usamos. Adorei a sacudida. um abraço!

Dayane disse...

Detonasse.

Algumas considerações:

>Para falar a verdade, eu acho que só li três manuais na minha vida, um não sei do que era, mas desisti logo na segunda folha, outro foi para o meu celular, este eu só li as partes que me interessava, li e fiz o que pedia, mas não dava certo, ah, no fim, desisti, e o último foi para "instalar" o provedor, este foi fácil, aleluia, deu certo.

>Sobre o 'timer', eu uso essa função, mas vou dormir insatisfeita por não haver um botão que tire o pino da tomada.

> Por último, adorei a reflexão sobre o manual da vida, este só será possível vivendo, e sabendo aprender com os erros e acertos cometidos, por fim a gente segue o que deu certo, e dá um pontapé no errado.

O melhor manual na nossa formação de pessoa, é o tempo. por isso fecho meu comentário com uma frase de André Malraux:

"São precisos 60 anos e não 9 meses para fazer um homem."

Abraço!

gabriela disse...

Existem tantos manuais diferentes quanto são as pessoas...algumas não vale a pena nem abrir e folhear, algumas revelam-se de fato úteis, mais jamais se tenha a pretensão de que resolverão tudo. Nem por isso eu os coloco num balaio e jogo fora...o certo é que manuais que instruem e pessoas instrutivas eu guardo sempre comigo!

Agora, uma coisa ambos têm em comum, são difíceis de entender!

Renata Braga disse...

Muito legal teu blog!

Teus textos são ótimos .....

Voltarei!

Abrass