8 de jan de 2010

2010, ano de investir


A maior maldição da consciência é a noção de tempo. Todo final de ano apuramos os resultados e a retrospectiva nos liquida. O “restos a pagar de exercícios anteriores” é passivo permanente nas realizações pessoais. Nunca gostei de contabilidade e nunca vou gostar. Não entendo o método das partidas dobradas. Quem dá é credor, quem recebe é devedor. Sempre saio do ano com cara de devedor que não tem como pagar. É calote nos desejos. É prestação atrasada de promessas. Penduro tudo num passado mais do que perfeito. Fiado só ontem. No balanço anual há quem diga que a primeira década deste século 21 foi vazia, sem grandes fatos além do 11 de setembro e da crise econômica. Que não surgiram novos grandes escritores, cantores, atores, bandas. Discordo. Não vou demonstrar aqui que tal ou qual personalidade foi mais ou menos relevante. É cedo pra isso e esse é o ponto. Grandes políticos? Sem comentários. Ok, ok. O Nobel ao Obama e o filme do Lula foram adulações prematuras, mas tampouco gosto de política. Pretendo antes apontar que uma análise da década, logo que acaba, resulta em falso negativo. É passivo a descoberto de memórias sem solidez. Mesmo a História Contemporânea precisa de algum tempo para o necessário distanciamento entre o historiador que a conta e a época por ele vivida. Se bem lembrarmos, ao final dos 90 foi a mesma coisa. Diziam que nada havia de marcante. Os anos 80 (boys don’t cry!) só passaram a ser louvados já neste século e será igual com os anos 00 - é assim que se chama a primeira década? Anos zero? O saudosismo surge sempre depois. Aliás, saudosismo cheira a mofo. Melhor usar o termo passadismo. Demora pro passadismo idealizar o outrora. Permanecemos na década que finda ainda um pouco mais. Imobilizados por segurança. Preenchemos o ano anterior nos cheques, exemplo válido, é claro, para quem já era adulto no século passado. É parte da transição. Sempre negamos o hoje. Isso porque se considera o presente como o pior dos mundos. O que é bom não volta mais. O que é ruim deixará cicatrizes em gerúndio. E colocamos sempre o indicativo na cara do tempo pra falar mal do presente: não, aqui não é legal o bastante. Somos infelizes, insatisfeitos, frustrados, incompletos sempre no agora. Por isso também divinizamos tanto os tempos idos, quanto os vindouros, ao passo que demonizamos o presente. O ontem é o deus do Gênesis que criou o Éden do nada. Para a maioria o que é bom está numa era dourada ou num futuro promissor em que tudo se realizará. A palavra idealizar pode se referir tanto à reelaboração do já vivido, quanto à projeção do que virá pela frente. O amanhã é o deus do Apocalipse que restaurará o Paraíso perdido. A cultura cristã nos apresenta um hoje feio em que lhe basta o seu mal. É pecaminoso. É mundano e deve ser sofrido. Não é incomum ouvirmos de saudosistas absurdos de exaltação ao que as folhas de calendário levaram sob o vento dos tempos. Há quem cultue até do período militar. “Pelo menos não tinha essa bandidagem que está aí” – confessam alguns. É a maldição da consciência! Acidente da evolução que nos tornou mais aptos a sobreviver no ringue da seleção natural. Jesus do Céu, como isso foi possível? Fico devendo. Não sei. Entretanto, resulta daí tudo o que nos diferencia dos animais: a vontade, o poder, o dinheiro, a ganância, a culpa, o refrigerador duplex, a religião, a guerra, a televisão a cores, a inveja, o orgulho, o cigarro e a falta de tempo. O sofrimento vem dos traumas que vivemos no passado. A angústia pavimenta a estrada para o futuro. Ou seja, esquecemos do hoje, que na maioria das vezes é ótimo. O que funciona não é lembrado. Alguém acorda de manhã sentindo satisfação por não estar com dor de cabeça? Mas se tiver uma dorzinha, ou qualquer pequeno desconforto, pronto! Estragou o dia. A década, talvez! Neste ano quero fazer bem diferente. Viver como um neurótico anônimo: um dia de cada vez sem sofrimento. Nada de reflexões sobre o passado. Nada de esperanças para o futuro. Apenas o hoje importa. Pra ser sincero, a década passada até que não foi tão vazia assim e o ano promete grandes investimentos na vida pessoal.

5 comentários:

Paula disse...

Brilhante! Reflexão que precisa ser feita no "início de um novo tempo" como são considerados todos os janeiros...

Borges disse...

Ei Marcio, muito bom seu blog, diferente, tipo da leitura que gosto. Visite solescrito.blogspot.com. Abç

Márcio Ezequiel disse...

10! voltem sempre! Borges, to indo pro solescrito agora.

Sandra Gasques disse...

Muito bom seu texto. Somos passado, presente e futuro, resultado do encontro de partículas que estavam no universo desde sua criação. Mas realmente renegamos o presente, que num piscar de olhos já virou poeira. Talvez a fuga do presente se dê porque fazer parte dele exige comprometimento, responsabilidade e ação, e nem todos estão dispostos a isso.

Eliana disse...

Amei...Eliana Camejo