18 de dez de 2009

Rosa e Azul













Recorte de "Les Demoiselles Cahen d'Anvers -
Rose et Bleue" - Renoir, 1881, MASP.



Minha filha tá a cara da mãe dela. Porém a vi ensaiando uma de minhas bocas. Estávamos na cama, depois do almoço de sábado, fazendo careta um pro outro antes da sesta. A visitação de final de semana sempre rende mais. Ficamos juntos um dia inteiro. E ríamos feito crianças. Depois conversamos um pouco, como dois adultos, sobre ursos e outros brinquedos. “Tá, agora fecha os olhinhos e a matraca, que vamos descansar”- espiei o relógio, porque se ela não dormir de tarde, isso prejudica o sono da noite na casa materna e uma coisa leva a outra, blá-blá-blá e, enfim, não vem ao caso. Mas de fato ela não quis dormir, o que me valeu a bela cena, mais ou menos assim: olhando bem de perto os meus olhos míopes de deitar, Rafaela ficou em silêncio e bem séria. Não era a cara de braba que aprendeu a fingir. Apenas uma seriedade tranquila. De quem não sabia que ia completar dois anos de idade em poucos dias. Olho-no-olho. E olho no olho e olho-no-olho. Até que baixou a guarda convergindo as pupilas em minha boca por um tempo. Fixou a vista e apertou os lábios sem me deixar saber se ia rir ou chorar. Foi aí, precisamente neste instante, que me vi refletido. Não que nunca tivesse acontecido. Só que desta vez foi diferente. Mais longe. Da boca pra fora, dos olhos pra dentro. Sim, um olhar penetrante de criança de boquinha fechada. Um olhar até ali todo meu, que nunca vi em espelho algum com os meus olhos binóculos de só ver pra frente.
Quando nos tornamos pais, voltamos na contramão. Ainda que já estivéssemos deitados, comodamente descansados na projeção dividida do rosto de nossos progenitores, damos meia-volta procurando um de-onde-viemos em nossos filhos. Traços e trejeitos estranhamente tão a nossa cara, bem ali, a um palmo do nariz, tencionam ao máximo a mola que nos impele na vida, puxando na direção contrária. Desde crianças, crescemos. Nossa pele estica e estica. Chega uma hora em que começamos a diminuir e sobramos nas curvas da boca e no canto dos olhos. E aprendemos juntos tudo de novo. A beber, comer. Não querer dormir. A ter medo do escuro. A não ter noção do perigo. A fazer a boca de rir e a de chorar. A dar a mão e querer o braço. A cheirar os perfumes e as meias. Dançar trocando fraldas, ambidestros com giz de cera numa mão e colherada de comida na outra. E mais e mais. Abrimos portas com os pés. Chutamos a bola com as mãos. Banalizamos negativas. Inventamos palavras pra arriscar alguns sins. E a ordem das parcelas se alteram na adição de cada expressão e feição que ganha voz nos olhos de quem finalmente já sabe, ainda que por um pequeno instante, numa tarde de sábado de visita, de onde veio e para onde vai.

5 comentários:

Angela Dal Pos - Morena de Pintas disse...

Adorei o texto, a paternidade é mesmo inspiradora. abs

Anderson Reichow disse...

Me projetei na tua situação e fiquei sem saber o que desejo pra mim. Ainda não me decidi sobre ser pai, mas teu texto ilumina bem o lado que em mim quer dizer sim.

Abraços,

Anderson Reichow

Lúcia Badia disse...

Vai ser o máximo o dia que ela, mais velha, ler o que escreveste sobre este dia.
Parabéns pelo texto.

Márcio Ezequiel disse...

Q legal q acharam bom o texto. Fui totalmente sincero.
Angela,fiz questão de registrar o momento pois foi fantástico mesmo.

Lúcia, espero q a minha Rafa um dia lendo esta crônica entenda um pouco do q senti naquele dia e busque a mesma fagulha nos olhos de seu(s) filho(s).

Anderson, muita gente não tem filhos e vive muito bem. Mas o q tenho certeza é q depois de tê-lo(s) não tem como ser o mesmo.É muito bommmmm! Abraços!

Ana Carolina disse...

é lindo demais, o seu blog. parabéns =))