31 de ago de 2009

A margem

Quando um casamento acaba não se quer mais a casa. Passa-se a um período de vazios concretos. Mas a casa ainda vive. E se reproduz. Divide-se para formar outras duas. É mitose de salas de não-estar e quartos de não-dormir. É casa-óvulo. É casa-esperma. É casa-rodante. Na moradia de quem partiu não se olham retrovisores. Não se conservam souvenires de um abalo sísmico. As casas se reviram e se ajeitam de um lado para outro, buscando a posição mais confortável na cama de pregos. Na ex-casa o reboco marcado por infiltrações que antes nem se viam é maquiado por uma tinta alegrinha. Alguns quadros mudam de lugar. Outros são substituídos. Fotografias se escondem de cabeça baixa nas gavetas. Contudo, o desenho do marcado das molduras retiradas segue preenchido por namorados, noivos e pais boquiabertos. Todos ainda ali, em comunhão total. Rostos redecorados monologam meias-verdades em corredores menos frequentados.
No apê novo de quem saiu os filmes e as paredes são locados. O quarto tem TV ligada até tarde. Na cozinha o café é instantâneo. O pão ressureto surge a cada dia no grill. O saudosismo é conversa garantida sem necessidade de fiador. A sala de solteiro não precisa de mesa de jantar. No banheiro o espelho sorri sozinho os respingos de pasta de dente. Na suíte da antiga casa os fantasmas ainda co-habitam fechados no closet. Perfumes vestem os cabides.
As referências se quebram e os cacos ficam espalhados sem sorte pelo chão por um mau tempo. Mas onde é agora a casa? Que lugar é este de quem ainda nem bem saiu e já não sabe como voltar? É no meio do rio que se afoga aquele que se interrompe pra calcular qual a margem mais distante. E a distância nunca é a mesma, pois o rio não é o mesmo. E aquele que entra tantas vezes no mesmo rio relativiza sobre quem ele é agora. Quem é esse que é visto como outro? Visitante de sua própria vida. Volta sempre. E sobe degrau por degrau sem saber quem o vê com olhos mágicos. Visto por dedos de mão única. Arrasta-se com o alicerce da casa preso aos pés. A minuteira corta mais vezes a luz do que antes. Se quisesse subiria até no escuro, pois conhece bem o caminho. Caracol de passos sem outro destino para seu rastro brilhante de lesma. Os filhos ainda se agitam com o barulho de chaves nas outras fechaduras. Já não tem a chave da porta principal. A campainha é apertada de modo formal, pois tem hora marcada para ser aquele que cria. A porta se abre e é engolido mais uma vez pela casa.

3 comentários:

CESAR CRUZ disse...

Excelente e sensível síntese de uma ruptura amorosa. Sensacional! Pegaste pelo viés certo!

abç

Angela Dal Pos disse...

Oi, gostei muito da crônica. Senti até uma linha meio Carpinejariana. Será? resultado das oficinas? Anyways, o lirismo na prosa é uma das coisas que gosto muito. abs

Claudia Tajes disse...

Oi, Mȧrcio, passei pra agradecer o livro que tu deixou pra mim no Sarau Elétrico de ontem. Superlegal, muito obrigada! Beijo e até a próxima.