25 de jul de 2009

Sensação Térmica

Nesta época do ano todo mundo só quer escrever sobre o frio. Sintamos a coletividade da sensação térmica. Peraí, deixa eu ver. Sim, não. Sim, meu pé esquerdo tá congelado e do direito não sinto nada tornozelo abaixo. Que? Estética do frio? Never more. Never more. Como escrever num clima assim? O texto encolhe. Se contrai. E meio curvado só quer ver TV enrolado no edredom. E a notícia que nos passam é a mesma do inverno passado em que a gauchada aparece toda entrouxada na rua. Seu João tirou o pala do baú. Dona Tereza deixou-se abraçar pelo guarda-roupa. Mas sempre tem um querido de manga curta. Não tá com frio, não? – pergunta o repórter esfumaçando. Um pouco, na correria tu nem sentes - diz de queixo firme o rapaz. De onde vem essa gente? Da Patagônia? E depois todos querem ir a Gramado pra curtir o frio. Eurodisney dos Pampas. Quem gosta pra valer desse ar gelado que dura todos os dias de inverno rigoroso dessa semana devia ir é pra fronteira: Livramento, Jaguarão, Santa Vitória do Palmar. Lá sim, o vivente não precisa fazer charminho. Porta aberta nos fundos e o vento encanado no lombo. Aí queria ver. Café colonial? Na campanha? Fonduezinho? Não mesmo, é sopa de pedra na concha. Pão com banha e leite quente. Bem assim, foneticamente correto, sem meias vogais. Aqui em Porto Alegre os apartamentos são frigobares de dois e três dormitórios. Não tem um que seja quente. O Guaíba deitado no divã quer saber se é rio ou lago. Revoltado, dá um gelo na cidade. A umidade do ar é absoluta. O que também nos faz penar no verão. Mas no calor eu até me saio bem. O que mata é o frio. Estou desenvolvendo uma teoria sobre minha aversão ao inverno. Minha e de muitos. Nasci em março. O mundo me foi apresentado na promessa de vida, em semelhança ao útero materno. Passados alguns meses e a primeira mudança brusca que senti foi no inverno. Assim quem não gosta de frio, provavelmente nasceu no verão e vice-versa. É o primeiro sofrimento na própria pele. E os indecisos? Paridos na meia-estação. Claro. Pode perguntar pros conhecidos que é batata! Dá certinho. Mas então tá bueno. O vinho acabou. A lareira amornou e o provolone me enjoou um pouco. Vou tentar preparar um chocolate quente sem um pingo nos is. Vou me recolher pras cobertas e pra quem gosta de frio, aquele abraço. Aposto que o RJ continua lindo.

3 comentários:

Cesar Cruz disse...

Bela crônica! Pô, aí o frio é danado de forte! Haja saúde, né, amigo!

Particularmemnte aprecio mais o outono/ inverno à primavera/ verão. Escrevi sobre o delicioso Sol do outono! Leia lá, quando tiver um tempo, está entre os publicados.

Abraços
Cesar

em tempo: o termo pirotécnico, me faz lembrar o conto Pirotécnico Zacarias, do excelente Rubião!

Márcio Ezequiel disse...

Com certeza, Cruz. O Pirotécnico Ezequiel é mais um morto que pensa que existe e solta seus foguetes por aí. Saudações póstumas.

Marcio disse...

Tudo bem que inverno rima com inferno. Mas tem suas compensações, né chará. Afinal a gente pode estrear aquele casaco dá aquele chega pra cá gostoso na gata. Rsrsrs. Gostei muito do blog e gostaria de convidá-lo a visitar http://emaranhadorufiniano.blogspot.com e odo meu grupo http://po-de-poesia.blogspot.com

Abrçs!!!

Marcio Rufino.