8 de jul de 2009

Postscriptum


Nada mais injusto que bilhete de suicida. Não há direito de réplica. Acusações são desferidas em monólogo. A ampla defesa mete a bala no ouvido do contraditório. A última carta tem entrega garantida e sem carimbo de “retorne ao remetente”. O finado não pode ouvir você xingando, difamando, rindo ou chorando.
É herança indesejada. É dramática. Passional.Coisa de amor e ódio. O de cujus sempre odeia e ama alguém. Primeiro culpa meio mundo, depois se justifica com a outra metade. A necessidade de se explicar até no momento de desistir das explicações é motivação para a redação final. “Foi por isso, por isso e por aquilo. Perdoado? Obrigado!” E o matador de si mesmo não quer ninguém falando mal depois. Vá que pensem bobagem. E se a vizinha entender errado? E no trabalho? Vão falar o que no fumódromo? “Foi doença ruim”, dirá um. “Não, acho que foi guampa”, chuta o outro. Assim não dá. Há uma reputação a zelar. Por isso presta contas tim-tim, por tim-tim, mesmo sabedor do saldo deficitário. Deve, não nega e não paga. Matar-se é uma redundância de dívidas. É abreviar o inevitável. Somos mordomos da vida que lá no finzinho nos será tomada mesmo. Que me perdoem os simpatizantes, mas suicídio é burrice. É sair no meio do filme. Por isso qualquer explicação dada não convence ninguém. Muito menos os entes queridos.
Vargas escreveu a carta-testamento e ainda deu tempo de se vestir pro sono eterno. Porque não acredito que escreveu o célebre texto já de pijamas como foi encontrado. E tudo isso pra quê? Pra entrar na história? Que bobagem! Podia ter deixado uma banana no criado mudo e saído da vida que dava na mesma. Até um “fi-lo porque qui-lo” funcionaria melhor.
Ser, estar, ficar e permanecer não existindo por opção de morte deveria bastar ao defunto voluntário. Sem cartinhas. Sem pedidos. O bilhete do suicida é um epílogo de diário. Coisa que não deveria sequer ser escrita pra morte e sim, dita em vida. Agora não sendo capaz de escrever (e viver), cale-se para sempre.

2 comentários:

Ruty Elane disse...

Quem tenta matar a si mesmo, na verdade, só quer aniquilar o incomodo interior que sente, já nos disse Augusto Cury em um dos seus livros. Por que não usar uma vírgula, ao invés de por ponto final na própria história?

Concordo com você: Suicídio não, é burrice.

Aplausos!

Giovanna Cóppola disse...

Márcio, vi o link para o seu blog em uma comunidade no Orkut e vim dar uma olhada, tem muita coisa bacana aqui. Vou adicioná-lo aos favoritos e visitá-lo mais vezes. ;)