1 de jul de 2009

Conficções II

Tenho medo de Jesus Cristo. Não tem jeito, tenho medo de todos eles. Deus menino, majedoura, carpinteiro, de olho azul, em aramaico ou dublado. Tenho medo das chagas e do sagrado coração. Até porque não gosto de sangue. As imagens. As imagens sempre me assustaram. Acho que foi por isso que abandonei o catolicismo. Tomar a santa hóstia com o Cristo agonizando suspenso lá atrás... Credo!
Na casa de meu avô nas grotas de Itapuã/RS, tinha uma gravura do santo homem no fundo da sala. Desbotada em azul e branco, era meu pavor completo na infância. Em noites de gaiteado e pouca luz no pisca-pisca do querosene queimando, eu dançava de cabeça baixa. Pra não ver a imagem, fingia acompanhar o pezinho bem juntinho com o meu. Ok, eu gostava do pezinho da Betina, prima um pouco mais velha, unha feitinha, dedo pequeninho, mas não esquecia um segundo sequer que o olho redentor me via lá da parede e sabia que eu sabia que ele me via.
Aliás, foi essa mesma prima que me levou depois pela primeira vez no cinema, e logo verá o leitor que não fujo do assunto: Qual filme? Qual o filme? Não. Esse do Mel Gibson não vejo nem a pau! E foi bem antes. “Marcelino, pão e vinho.” A fita era da década de 50, mas sempre voltava às telas. Eu tinha meus 8 anos. Era 1980. A gurizada de hoje nem conhece. Não perderam nada. Conto rapidamente: é a história de um piá que encontra uma escultura de Jesus crucificado numa sala de um mosteiro. Em tamanho natural, o Bendito começa a se mexer e falar com ele. Não lembro direito da história, parece que o menino trazia pão e vinho e aí rolava o papo melodramático. Minha prima chorava e eu, Deus que me perdoe, me contorcia na poltrona. Pô, sem contar que na mesma época passava o Superman II no Baltimore. Tenha dó!
O que tenho a confessar é que esse medo nunca acabou completamente. A terapia ajudou, mas não virei fanático nem na fase protestante com a mis-en-scène toda do Apocalipse, nem tive fé suficiente para ser ateu com o materialismo histórico. Por outro lado, ir pro céu seria um inferno. Ia ter que me esconder o tempo todo. Parece que não rola muito mais que uma folha de parreira e tem a tal onipresença que não dá uma folguinha pro cristão. Tá que o Diabo não é nenhuma Miss eu sei. Mas até a coisa da pata de bode com unha fendida e rabo de flecha parece menos assustadora que o olhar direto e sereno de Nosso Senhor. É o divino que assusta. O ressurreto que apavora. O peito transpassado esperando o dedo de São Tomé. Fobias estranhas todos temos. Essa é daquelas que só não vendo pra crer.
Na época do secundário, a prima ainda me ensinaria a rezar. No final, após um amém dito bem baixinho, ajoelhou e disse: ai, Jesus.

5 comentários:

Cesar Cruz disse...

Caro Márcio,

Bem, por onde começo... Olha, nem sei ao certo como vim parar aqui, acho que foi pelo blogue da Taís Luso, enfim. A verdade é que curti muito sua prosa, sua crônica bem escrita, singela e despretensiosa. Excelente esta daqui, aliás! Ri a beça, pra ser sincero! Santo Deus! Coitada dessa priminha, assediada em nome da fé! ahaha!

abração
Cesar Cruz
S.Paulo/ SP
cronista também.

Anônimo disse...

Também tenho a mania de voltar lá para 1980. Volta e meia escrevo de algo que foi daquele ano. Será que inícios de década marcam tanto assim?
Marciane Faes

Márcio Ezequiel disse...

Pois é. Aquele ano foi marcante. Tinha 8 anos... aquela coisa toda de aurora de minha vida, embora não tão querida. Teve a vinda do Papa ao Brasil, ou melhor a Porto Alegre. Eu não fui ver, a mãe nem cogitou, não que tenha feito falta. Mas naquele ano aprendi a assobiar, a amarrar os sapatos e a escrever. E assobiando ia pra escola com meu kichute bem amarradinho atrás do tornozelo e de olho nos céus portoalegrenses, hehehe.

Anônimo disse...

Mas e o que dizes do 1972?
Sempre me interessei em saber como andavam as coisas por aí quando a gente apareceu no pedaço: o ano mais terrível da ditadura militar, do massacre de Munique, porém o ano que a TV ficou colorida? Uma coisa pra compensar a outra?!
Marciane Faes

BANDO DA LEITURA disse...

chorei tanto quando li marecelino pão e vinho. reli e rechorei. Foi meu primeiro livro. Há pouco encontrei e comprei. Acho que vou ler para as crianças do bando. Acho que eles não vão chorar. Outros tempos!