10 de jun de 2009

Quase-quase

Namoradinha de infância não se esquece, né? Normal. Mas e aquelas que gostamos e não chegamos a namorar? É que quando a gente é criança tem um período em que se gosta sem ter um nome pra esse gostar. É o que é: sem rótulo, nem bula e não tem remédio. É um quase-namoro. E será que lembramos desses casinhos também? Pois me dei conta um dia desses que lembramos e muito. Com detalhes. Cecília, menina cor de giz, meio sem graça tinha canela fina e cabelo curto. Lá está, em 1981, na garagem do edifício em que moramos na Lucas. Ainda brinca, sem saber que a olho daqui. Pernas leves pulando amarelinha. Saia comprida esvoaçante e blusão azul arremangado. Falou comigo à primeira vista e seguiu falando, falando como se me conhecesse há dias. Quando criança não se pensa o tempo em meses e anos. Só em dias, como se na folhinha houvesse sempre aqueles mesmos números grandes. Aí ela mostrou suas figurinhas querendo troca. Sim, sim, tinha muitas, mas não daquelas. Só de jogador. Mas troquei umas e outras. Só pra agradar. Depois perguntou junto com a resposta se eu morava ali, apontando a porta. Acho que nem ouviu minha cabeça balançar. Não sei ao certo quanto tempo ficamos naquele prédio. Menos de um ano, parece que foi. Mas brincamos muito. Eu na bici, lá e cá. Fazia o 8 e cortava o céu dela. Ainda ouço como contava seus saltos sem queimar a linha. A voz gritada na garagem fazia eco sempre com cheiro de escapamento. A malha pintada dos boxes baldios era nossa cidade. De um carro aqui e outro ali, fazíamos casas, esconderijos, estradas. Tinha tudo: padaria, farmácia, ponto de ônibus. Atrás do Chevete verde metálico do pai dela, era o ferrolho. Militar aposentado, ele. O meu pai não tinha carro. Outros carros de outros pais também estavam lá. Se não me engano eram das mães, donas de casa. Só pra buscar os filhos no colégio e ir ao super. Sim o apartamento do Zelador era ali, no garajão, de modo que eu sempre sabia quando ela descia pra brincar. Percebo agora o modo como alteramos nossas memórias com base nos conceitos que nos ensinam a lembrar coisas que não tinham nome na infância. Eu gostava dela sem saber que podia gostar. E depois já gostava gostando, mas não deu tempo de saber que podia gostar com outro nome. A vez que dei um beijo no magrinho do rosto, tenho certeza que pensei em doce e após pagar a prenda ela disse: agora eu me escondo!

2 comentários:

Simone Schuck disse...

Isso que é amor de verdade, mesmo não sabendo o nome, o porquê - e nem querendo saber mesmo!

Márcio Ezequiel disse...

Oi, Simone.

Obrigado pelo tempo gasto na leitura de minha crônica e pelas belas palavras devolvidas de troco. Já guardei na carteira e vou torrar com algum sorriso ou olhar ainda esta semana. Também gostei do teu blog. Realmente intenso, descontraído. Continue escrevendo sempre. A gente produz idéias, consome sentimentos e compartilha caracteres. E a satisfação é garantida ou seu $$ de volta.