26 de abr de 2009

Conficções

Temos a tendência de só enxergar o imediato. Nossa percepção do tempo é muito limitada. Curta mesmo. O passado se dissipa num átimo (sempre quis escrever essa palavra), ainda quando o tempo pára numa fila de banco ou numa aula de contabilidade. Somos prisioneiros de um presenteísmo imediatista. Escravos do agora, agora, agora e seguimos montados no ponteiro mais magrinho do relógio, tiquetaqueando sem sair do lugar. Parece que só existe o hoje. Não há passado - já passou. E não há futuro - ainda não aconteceu. A premissa não é nova e nem se pode dizer que polemize (esquemão tão em voga na crônica pós-moderna). Santo Agostinho já se debatia com o tema em suas Confissões, acrescentando que para falar de passado e futuro era preciso ter a coragem de falar do que não existe.Chegou ao ponto de suplicar a Deus que mostrasse onde estava este tempo para além de nosso espaço. Não com essas palavras, é claro, mas em latim, língua da divindade católica. Ao tentar resgatar o passado, o historiador - cujo ofício é provar que aconteceu alguma coisa antes de ontem, depara-se com tantas versões e possibilidades que vê o real escapar entre os dedos de Chronos. Pode mesmo questionar a existência desse concreto de outrora. Aí é melhor mudar de profissão. Escrever ficção. Entretanto, às vezes, o passado bate à porta a fim de manter a ilusão intacta. Semana passada recebi um emissário que me conectou ao ano de 1905. Neto de um Inspetor da antiga Alfândega de Porto Alegre, citado em meu livro sobre a repartição centenária, trouxe uma coisa bonita. Cartões postais endereçados ao ex-dirigente da unidade aduaneira. Documentos que apontavam o tempo da terceira gestão daquele dignitário, conforme a pesquisa que realizei. Expliquei-lhe que não poderia ficar com os cartões, pois ainda não havia um espaço de Memória sobre a Alfândega e que era uma quixotada minha, não comprada pelos meus contemporâneos. Segurava o livro orgulhoso entre um leque de mãos a folhear os dias narrados de seu antepassado. Cidadão muito afável e nostálgico por um tempo que não conheceu, emocionou-se sem alterar o brilho nos olhos secos pelo ar condicionado em minha sala. Ofereci o exemplar de presente. Lemos o trecho que resgatava o segmento da história de seu avô, que depois, quase ao fim da conversa confessou não havia tido filhos, mas essa já é outra história.

Na imagem, Chronos dorme à beira de uma sepultura.

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