8 de jul de 2007

Texto Publicado no "103 que Contam"






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O Conto a seguir foi publicado em 2006 na coletânea organizada por Charles Kiefer (foto ao lado).
Ensaiei um fluxo de consciência a partir dos momentos finais da vida do personagem e o texto pode exigir um certo fôlego devido ao recurso literário utilizado e...enfim, boa leitura!


Impressões da travessia


---------------------------------------------------------------->Márcio Ezequiel

Porque os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos não sabem cousa nenhuma, nem tampouco eles têm jamais recompensa, mas a sua memória ficou entregue ao esquecimento. Eclesiastes 9:5

Ela, que tantas vezes o amara por completo, agora apenas segurava-lhe a mão. Não sabia o que dizer. Buscava um sinal de consciência no parado dos olhos. Sentia uma dor que já era dos dois. Nenhum argumento de consolo precisava ser dito. Olhava-o em silêncio. Inadequado seria qualquer verbo. A foice falava por si. Nada poderia solver aquele instante de eternidade. Não se conhecia um antídoto. Enigma dos enigmas... O corpo dele estava aquecido, provavelmente ainda febril. As céticas linhas do termômetro não traziam novidade havia dias, sequer despertando a curiosidade.

Embora distante, parecia-lhe sereno. Como se sozinha estivesse, chorou com toda a maciez de uma estranha tristeza; com toda a suavidade de um dia chuvoso de inverno. Seu choro não produzia som. Escorria gentilmente, quieto e constante; sem o clímax catártico que talvez trouxesse o alívio almejado. Não fosse a grande travessia que estava por vir, tal fonte não mais secaria. Continuaria a verter como desde antes, tão rigidamente leve como sua respiração; mero adorno de olhos caprichosos precisando recordar como se chorava com o corpo.

Continue remando, não está longe. Você vai conseguir. Vai, pode ir. Vê alguma coisa, consegue ver algo? Seu silêncio parecia um tipo respeitoso de adeus. Não sonhava fazia dias. Não acordava completamente tampouco. Limbo do ser. Delirava em lembranças. Vagava nos detalhes de outrora. Ao longe uma calma balada tocava a incredulidade dos fatos. E eis, então, que mirando o quadro de Van Gogh no vazio mergulhou...

imenso dentro do vaso que agora me serve de esconderijo cercado de girassóis um para cada mês do ano na aridez disforme enxuta pela luz em gotas era a noite onde gostaria de permanecer sem hora marcada pra voltar nas mesinhas dos bares da boemia livre em um local qualquer do tempo solto e solitário caminho pelo centro da cidade num domingo a tarde os carros voam rapidamente por entre o mar das gentes que não costumava ali passar pois já passaram flâneur de mim mesmo enfim onde vou onde quiser tudo tão cheio de melancolia que dá uma saudosa vontade de rir ou de correr sem pudor sem rimar de cuspir na terra todos os vermes e de novo a última pitada na bagana que segue por rabo de foguete até quicar cintilante no meio fio da rua movimentada por carros antigos passando como pode um desfile pra mim de onde vem este cheiro de ambrosia procura procuro mas não encontrei ainda ah lá está não lá está aqui descobri meio decepcionado o saboroso manjar já não parece doce o bastante de fato o cheiro era melhor que o gosto o arreto melhor que o gozo cada detalhe deste derradeiro retrospecto onde vou até o fim que tá ficando quente cheiro de alfazema perfume envelhecido cansado não cansado te digo que não cheiro de meus livros da cama quente com brancos lençóis bordados em púrpura e violeta bonitos mesmo e a água morna mentolada na bacia e a lâmina afiada camisa engomada e o talco fino que tô pronto vamos lá já tô pronto sim os suspensórios alinhados ao jogo de dama na praça e a pinga no boteco tudo está ali no jornal aberto as velhas novas de sempre gente que eu não via há tempos parece sonho não importa se me vêem ou não apenas firme não afoito mas audaz decidido em minha peregrinação onírica olha se não é o compadre Marico não pode ser como tu tá conservado rapaz que anda tomando cachaça com mel que te ensinei tu tava tão acabado olha a madrinha não me conheceu sempre gostei da suavidade da água em ondas depois de tocar a pedra meus lábios em solilóquios inquestionáveis e certos sempre certos até de canto de boca rindo agora pro espelho bigode bem feito pretinho mas desde as entranhas rir é o remédio é o remédio porque pra que este atraso estou de malas prontas e tenho saudades de meu pai o cheiro de remédio nas ventas impregnando os velhos ares de antigamente que quarto encerrado abram as janelas os passarinhos estão lá fora e vieram me ver ou despedir-se claro vieram me encantar com seu canto de vida que lindo fui bom sim meus amiguinhos não fui santo mas fui reto pena que não poderei fazer mais agora que sei tanto não nem tanto ao céu nem tanto ao inferno um filho da puta fui ruim sim quem não erra que atire o cacete naquele tempo era difícil a vida com a firmeza da rosa me corre um fio de sangue pelo braço mas indiferente é o ferrão na murcha palma da mão doce e suave como vinho gaúcho é o meu sangue com o dedo tremendo ainda acaricio o caule desafiando os espinhos que cravam nas unhas não existe espinho Manuela pensamento no tempo de uma vida tempo que veio buscar o que deixou em mórbida mordomia período que se foi e não pode jamais ser igual vento de fim de tarde cheiro da grama folhas secas terra e madeira podre não poderei ficar aqui ah mas essa dor tu não conheces pois quem parte também sofre também levo uma mancha de saudade no peito levo lágrimas e lamentos que à terra hei de lançar lá do alto esfumaçada estão minhas vistas que sono etéreo torpor onde estás tô te ouvindo que apertado não entendo não tô nada que é silêncio faz em prol do esquecimento quero recompensa chuva pra baixo e pra cima com choro parti em pranto volto chegar também pode ser doloroso última palavra não lembro o nome dela grito primal ela ficarás bem som luz forte não esquecerei não esquecerei não minha mão dói adeus meu amor falta-me o ar ajude-me a respirar





Um comentário:

Anônimo disse...

Com quantos gigabytes se faz uma jangada um barco que navegue? Capitão, vejo mais uma daquelas ilhotas em meio ao lixo eletrônico! Vamos dar uma esticada nas pernas... É pirotecnia pura!

Os escafandristas virão explorar sua casa, seu quarto, suas coisas, sua alma... vestígios de uma estranha civilização.

DÁ-LHE EZEQUIEL, PARCEIRINHO 100% unindo ação ao pensamento...

Rodrigo Troyano Prates