17/02/2012

Uva com Melancia

Não estou falando de uma ou duas vezes. Refiro-me a uma infância toda, uma vida, acreditando que não podia comer uva com melancia. A mãe dizia, a vó concordava, o vô não arriscava. E nós, os pequenos, acreditávamos piamente que a mistura das tais frutas empedrava no estômago. Um tio testemunhava inclusive que certa vez botou de volta a amálgama mortífera. De quebra, pra não fazer mal, a avó fazia todos tomarem uma colherada de salmoura após a comilança no pátio. Aliás, debaixo da parreira e em dia de melancia não se tocava em uva.

De onde os antigos tiraram essa, afinal? De outros antagonismos digestivos encontramos explicação histórica. Manga com leite, por exemplo, foi coisa dos senhores de engenho para evitar que os escravos comessem a fruta em demasia durante a noite. Chegavam a catar algum cativo ladino para provar os dois alimentos simultaneamente. A cena tinha seus efeitos pedagógicos enriquecidos com uma dose de veneno que fazia o escravo agonizar ou morrer diante dos demais.

A maldição da uva com melancia tem a mesma origem, sendo a primeira, o produto de maior valor e a segunda fornecida em abundância à escravaria.

Claro que a tal motivação não era única, mesmo porque a melancia, de fato, pode ser indigesta se apreciada sem moderação. No grenal das frutas a uva sempre saiu ganhando. É time de elite. Tem o plantel variado. Branca, rosa, preta, bordô, com ou sem semente. Casca soltinha ou pegada, a baga sempre agrada. É delicada, sofisticada. Melancia é melancia. Baby ou quadrada, o gosto é sempre o mesmo. É fruta de pobre.

A uva é metida a besta. Entojada. É dedo de dama em nariz empinado. Da boquinha do imperador romano à cabeça da Carmen Miranda, sempre manteve seu charme. A melancia é a bagaceira. É fruta sem alça. É servida aos porcos. Da uva se faz o vinho. In vino, verdade seja dita, a uva tem mais classe. Da melancia quando muito se faz um doce com gosto de água.

Que injustiça! Big duma sacanagem com a grandalhona. Usam seu nome até em impropérios. Quer aparecer? Pendura uma melancia no pescoço! E a difamação começa cedo. Sofre bullying na escola. Quando Ivo viu a uva não quis ver a melancia! Depois foi expulsa da salada de frutas. A situação vem mudando, sabemos. Está em plena ascensão na geladeira. Ganhou espaço no mercado de sucos e nas decorações de buffets. Se a uva é a gostosona, a melancia é a gordinha simpática. Terninho verde listrado. Camisa vermelha com botões pretos. Superfashion. Admite-se já que faça bem. É diurética, hidrata e sua semente é afrodisíaca, dizem. Por óbvio se a comermos toda há grande chance de parecer que engolimos uma melancia inteira.

Vamos combinar que essa de que faz mal com uva foi coisa de quem queria realmente aparecer. Agora, convenhamos, que não combina, não combina e, por isso, só por isso, eu não como as duas frutas ao mesmo tempo.

Publicado no DP hoje.



13/02/2012

Minha avó não gostava de falar sobre moléstia ou problema físico de outra pessoa apontando para o próprio corpo. Acreditava que o gesto, ainda que inocente, atrairia para si o malefício de outrem. “Lá! Lá nele”, dona Geroni sempre avisava com um ar de advertência.

Eu era piá e me divertia muito com a estranha superstição. Até que, certa vez, ela disse que vira nas imediações do mercado público um homem que não tinha o nariz. “Só os dois buracos... assim... lá nele.” Por um bom tempo morri de medo de ver o sujeito sem narega na rua. Em minha imaginação (e pesadelos) o dito cujo aparecia com uma cara de porco. Tipo nariz de tomada. Lá nele!

Nem faz muito que me lembrei deste caso. Até acrescentei ao meu conjunto de frases cotidianas o precavido dito de minha finada avó.
Foto: Márcio Ezequiel
Fui procurar se mais alguém usava a expressão. Diz que é bastante comum no nordeste. Coisa de baiano. Por aqui, entretanto, a maioria sequer entende quando mencionamos a explicação protetora de nossa integridade física.

Guimarães Rosa, autor que tanto se empenhou em registrar o linguajar popular, valeu-se do uso do termo no seu famoso Grande Sertão. “Ah, mas o que faltava, lá nele, que ele mais não tinha, era uma orelha, que rente cortada fora, pelo sinal. Onde era que o Luís Pajeú havia de ter deixado aquela orelha?”

Outra citação que encontrei é a do meu amigo Pedro Nava (ou era amigo do Drummond?) no seu livro Capítulos da história da medicina no Brasil. Registrou ali, quero dizer lá, uma definição do fenômeno simbólico: “Quando alguém indica sobre o próprio corpo o tamanho e localização da lesão de outro, sempre neutraliza o gesto de atrair, com a expressão exorcismadora ‘lá nele’ - como quem diz que lá continue e que para si não venha”.

Em nossos tempos, quando as pessoas parecem ser mais e mais autocentradas e voltadas para os próprios piercings, admira-me muito que o tabu linguístico não tenha pegado com maior força. Cada vez é mais raro colocar-se no lugar do outro. Não apenas para perceber sua dor, mas para entendê-lo melhor nas suas alegrias e frustrações.

Há duas semanas, num sábado muito quente, passei por um dos abrigos de menores da cidade. Várias crianças sentadas defronte da casa refrescavam-se na sombra. Parei para conversar com a funcionária da instituição. Logo em seguida fiz graça aos pequenos. Um dos meninos apontou um ferimento na própria perna, contando que havia caído. Mostrei um corte ainda cicatrizando no meu indicador direito. Então, de repente, todos falando ao mesmo tempo, passaram a apontar em si seus próprios dodóis e machucadinhos. Saí dali com um misto de candura e tristeza, pensando que estamos todos feridos. E a lesão é lá mesmo. Lá em nós.

Publicado 10/02/12 DP

02/02/2012

O poder da palavra indecifrável



“Pouco se me dá que claudique a onagra, o que me apraz é rosetá-la”. Bourdieu estava certo. A escrita carrega um poder simbólico de dominação. Eu sei... Essa é mais velha que andar pra frente. Será, porém, a cutucada inicial desta crônica.

Na antiguidade, escribas e filósofos tinham posição social confortável. A palavra escrita nunca foi para todos. Na Idade Média, admiro quem acredita que tal período acabou, a Igreja se arvorou da autoridade para dizer o que podia ou não ser lido. Tudo latim e amém. Miserere nobis.

Com o advento dos tipos móveis de Gutenberg e as traduções da Bíblia para as línguas vulgares, os monges copistas medievais perderam poder, apesar da bela caligrafia filigranada que tanto ensaiaram. Meio milênio mais tarde, ainda persiste um poder claudicante no uso arabesco dos vocábulos.

Letrado é sinônimo de erudito. Pessoa com alto grau de instrução. Médico, advogado, professor. Por que o médico escreve difícil? Muitas vezes nem o farmacêutico entende ao certo suas receitas por linhas tortas. Calma lá, não pretendo induzir à automedicação ou ao abandono dos consultórios. Ao contrário, precisamos é justo de bons médicos que nos apontem a cura. O que não se entende mesmo é o uso dos garranchos na prescrição manuscrita. Desde Hipócrates o problema é o mesmo. Então por que não escrevem direitinho? Já reparou que os doutores não usam computador? A maioria mantém as fichinhas dos pacientes registrada à mão. Será só pra não dar o braço a torcer? É a força dos remédios alopáticos. É o poder da indecifrável receita curativa. O que vai agora? Antibiótico ou anti-inflamatório? Ácido acetilsalicílico ou antiácido?

E se não for na forma, será no conteúdo. Com a devida vênia, mas no Direito igualmente conserva-se no linguajar muito de sua força. Aparta-se o leigo, impossibilitando-lhe qualquer autodefesa. Enquanto isso, o Judiciário incha com petições redigidas por advogados de porta de cadeia ou cartório, que sequer sabem escrever com alguma coerência e coesão. Recentemente revisei alguns trabalhos de conclusão de um curso de Direito e de fato há perigo na demora de uma reflexão sobre a qualidade das formações acadêmicas. Será que o bom Direito virou fumaça? Tranquilo, não precisa ficar na defensiva. É a força dos remédios constitucionais. É o poder da indecifrável petição. Que vai agora? Um habeas, um mandado de injunção? Uma tutela antecipada?

O literato não escapa do vício da linguagem empolada. O homo academicus é o mais agarrado ao seu status quo intelectual. Vide a reforma ortográfica. Baita ideia (sem acento). Agora uns poucos acham que sabem escrever o que não sabiam antes. É o poder do indecifrável dicionário de bolso atualizado.

Voltando a nossa citação inicial, vejamos o pai dos burros: Onagra - feminino de onagro, jumento. Claudicar - mancar, fraquejar intelectualmente. Em suma, pouco importa que manque o burro, o que a gente adora é tocar-lhe a espora.

Publicado no DP 27/01/12
 

23/01/2012

Foto GRAFIA


Esse é John.
O bichinho é medonho.
É do contra.
É birrento e bonzinho...
tudo ao mesmo tempo
Com seu terninho cinza e olhar caído.
É o mais vira-latas e arrogante Beatle.

Quem aguenta???
Quem vive sem???

Always know, sometimes think it's me.
But you know, I know when it's a dream.
I think a "No," I mean a "Yes,"
But it's all wrong.
That is, I think I disagree.

21/01/2012

Ignorância consentida

Falam tanto do conhecimento acumulado. Da sabedoria ancestral. Agora quero destacar um outro cabedal, que não tarda ao leitor perceber seu poder de propagação e reprodução rumo à posteridade. Refiro-me à Ignorância Universal. Uma falta de cultura milenar. Arraigada. Consolidada, que permeia o tempo, geração após geração.

Estamos na Idade Média. Ainda orangotangos... sempre orangotangos. Passamos fome. Frio. Roubamos. Matamos. Estupramos e pedimos nota. Tá bom, deixemos os orangotangos fora disso. As principais perguntas da humanidade não foram respondidas: de onde viemos? Qual o sentido de tudo? Existe vida após a morte? Há um Deus? Por que é tão difícil conseguir uma vaga para estacionar no centro?

O filósofo avisou “só sei que nada sei”. Desde o insight socrático nada pintou de novo. E continuamos boiando. Segundo Montesquieu, "a ignorância é a mãe das tradições". Já para o bodoso Paulo Francis, Deus o tenha, o tal instituto seria a maior multinacional da parada. Isso que ele não chegou a pegar a idiotização internética em seu esplendor com as redes sociais. Com a informática, acelerou-se a disseminação da desinformação. É a ignorância artificial.

É covardia. Dá de dez a zero na sabedoria. É uma entidade. Uma deusa astuta. Matreira. Dissimulada. Se precisar usa até óculos. Faz caras e bocas de intelectual. Posa de pensador na privada. A ignorância apropria-se do conhecimento e o deturpa, banaliza, reduz. Assimila tudo ao seu universo de desconhecimento e mal-entendidos. E sabe o que é pior? Não tem como escapar. Com seus tentáculos de Leviatã anticultural, alcança-nos onde quer que estejamos. Nem adianta isolar-se da informação, pois é nas sombras úmidas da alienação que tem seu principal habitat.

E o Big Brother, hein? Tá vendo? Grande parte do público não sabe o significado literal da expressão. “Você precisa aprender inglês”, cantava Caetano. A maioria nunca viu 1984, o filme. E por acaso você leu o romance de Orwell? Eu não. A ignorância é suprema. É onisciente, onipresente, onipotente. 
 
 
Eu não quero saber do BBB, da novela, da piscina, da margarina, e muito menos da Luiza que foi pro Canadá, mas a informação sempre chega. Essa semana ainda teve o tal lance do estupro. Não. Não vou contar, que não estou aqui pra colaborar com a ignorância de ninguém. Por falar em estupro, outro dia vi que o VOLP - Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa - traz a famosa variação popular “estrupo”. Verdade!

E olha que a dita listagem de palavras, com mais de 380 mil termos, é obra da Academia Brasileira de Letras. Agora tá liberado! Pode falar sem medo de errar. Qualquer hora incluem “menas”, “vrido”, “partilera”. Sei que a linguagem é viva e construída a partir do uso e da fala, mas convenhamos... estrupo é o que fazem com a gente quando recebemos tanta bobagem que nos mandam pelos tubos. Relaxa e aproveita.


14/01/2012

Sexta-feira 13

Este ano teremos três sextas-feiras 13. Sabia que existe até nome para o temor à referida data? Parascavedecatriafobia. A maioria gosta. Adora uma superstição. Cultua o medo. Talvez por isso os adolescentes curtem tanto filmes de horror. Não se sabe ao certo quando e porque começou a fama do dia de azar. Especula-se que suas origens reportem até o gênesis.  Logo depois da Criação, reza a bíblia, o Todo-Poderoso descansou no sábado, o que nos faz pensar que a véspera não foi muito fácil. Já na sexta seguinte, faça as contas, foi o primeiro décimo terceiro dia. Não podia dar boa coisa. Adão não tinha o que fazer. Eva também não. Baita tédio no Éden.
Sem redes sociais ou shoppings. Consegue imaginar? Programação de final de semana só com Animal Planet ou música gospel dos anjos. O resto da narrativa você conhece bem. Pomo de Adão. Folha de parreira. Freud, totem e tabu. O senhor e senhora sem umbigos devem ter considerado um tremendo azar darem papo pra serpente, que além de fofoqueira era trapaceira. Acabaram despejados do Paraíso.
O novo testamento também serve de base para a tese do dia agourento. Sabe a Última Ceia? Visualiza aí o quadro do Da Vinci. Jesus rangueando com os discípulos. Quantos havia ma mesa? Treze. Dentre eles o trapaceiro Judas. Resultado, um Cristo morto e transpassado por uma lança numa sexta-feira. As fontes do dia macabro, contudo, não se restringem à cultura judaico-cristã.
Sexta-feira em inglês, Friday, deriva de Frigga, deusa do amor, esposa de Odin na mitologia nórdica. Tá ligado que em espanhol, o sexto dia da semana é Viernes? Sim, também em homenagem à deusa em sua variação mais conhecida nossa, a Vênus romana. Conforme o mito pagão, Frigga era mãe de Balder, divindade que profetizava a própria morte. A deusa então o protegera, conclamando a tudo e a todos para que nada o ferisse. Foi aí que Loki, o deus trapaceiro, disfarçou-se de mulher e foi tentar Frigga, que inocentemente contou a vulnerabilidade do filho. Somente o visgo de uma determinada planta o faria sucumbir. O resultado foi uma lança embebida no tal sumo, transpassando-lhe o peito durante um banquete servido a doze deuses, além do próprio Loki. Somava-se novamente treze presentes numa ceia, sendo um filho de deus sacrificado.
Para que Balder ressuscitasse, todo olho deveria derramar-lhe ao menos uma lágrima. Mas Loki, representante do mal, negou-se a participar do pranto coletivo. Passaram assim a aguardar seu retorno, que após uma catástrofe apocalíptica governaria um mundo admiravelmente novo. As coincidências ajudaram na aceitação do cristianismo pelas tribos nórdicas. Frigga, segundo a crença, seria banida para uma montanha como bruxa, de onde, toda sexta-feira, amaldiçoaria os humanos, reunida com outras onze feiticeiras mais o Capeta. Fez a conta?
Quantos mesmo? Pois é. Que medo! 

Publicado dia-ontem no DP









06/01/2012

Dia de Reis

Los 3 amigos

Em vários países europeus a tradição do Dia de Reis tem maior destaque que o próprio Natal. Por aqui o 6 de janeiro é o indicador para desmontar presépios e recolher as guirlandas natalinas das portas. Eu apreciava na infância os tais diazinhos que se seguem às festas, pois a árvore permanecia um pouco mais na sala de casa.
Nem me ligava em quem seriam os chamados reis magos. À luz dos indícios textuais e históricos, revisitemos a efeméride. Somente o primeiro evangelista citou os ditos sábios que procuravam o novo rei dos judeus. Porém, em verso algum de Mateus se contabilizam os indivíduos, mencionando-se apenas os três regalos (ouro, incenso e mirra), pelo qual se inferiu o número dos generosos adoradores. Não se encontra também qualquer indicação sobre tratarem-se de reis - soberanos de outras terras. A Bíblia relata que teriam vindo do oriente, chamando-os de magos, palavra de origem persa. Por suas habilidades de observadores das estrelas, conclui-se que seriam astrólogos zoroástricos. O zoroastrismo é uma antiga religião monoteísta que influenciou a cultura messiânica judaico cristã. Seu profeta, Zoroastro, cujo nome quer dizer “observador dos astros”, é o mesmo Zaratustra que assim falava na obra de Nietzsche. 
Já os nomes Gaspar, Melquior e Baltasar foram claramente criados pela tradição medieval. O primeiro significa “inspetor” ou “aquele que investiga”. Melquior traduz-se por “o rei da Luz”. Também aparece como Belquior. Sim, igualzinho ao rapaz latino-americano que tinha medo de avião e andou por estas terras de Nosso Senhor seguindo alguma estrela. Por fim, Baltasar, vejam só, significa “Baal proteja o rei”. O deus Baal teve muitas variações no mundo antigo e só o que podemos dizer é que era o arqui-inimigo de Jeová no velho testamento. Todavia, resulta fácil observar que os nomes dos três bruxinhos santos adquiriram sentido, portanto, no pós-evento da pretensa visita. O momento do contato imediato pode igualmente ser objeto de ponderação. Segundo estudiosos do assunto, não haveria pista cronológica favorável à tradicional interpretação. O versículo-chave, ao contrário, descreve os peregrinos chegando a uma casa e não a um estábulo onde Jesus teria nascido. Aliás, o termo empregado aponta um menino e não um bebê, o que explicaria Herodes ter ordenado a matança da piazada de até dois anos de idade.

Em um tratado religioso de São Beda, monge que viveu entre os séculos VI e VII, há uma descrição dos três amigos. Melquior seria o mais velho, com 70 anos, barba e cabelos brancos. Baltasar, mouro de barba cerrada com 40 anos. E Gaspar, com apenas 20 anos, seria o mais jovem e forte.
As relíquias atribuídas aos magos estão na catedral gótica de Colônia, na Alemanha, desde o século XII. Em análise recente às suturas ósseas naturais dos crânios, constatou-se corresponderem às faixas etárias apontadas pelo antigo monge, o que não chega a provar que não foi mais uma falsificação medieval. E nestes diazinhos medievos que nos restam, penso que, no mínimo, deve haver ainda muito enfeite nas tradições históricas. E los tres amigos? Esses com certeza... só na TV.

       Publicado hoje no DP








31/12/2011

Retrospectiva de escritor

Todo final de dezembro a imprensa nos mostra o retrospecto do ano a que damos adeus. Eu sinceramente não curto muito. Acho meio down. Sempre lembram as guerras, os desastres naturais e os artistas que se foram. A realidade faz cara de drama quando vestida de nostalgia. A foto da folhinha velha é desbotada.

Talvez fosse proveitoso fazermos nossa própria reflexão sobre as batalhas e os desafios pessoais. E que não valesse enfatizar somente as catástrofes e sim registrar os filmes vistos, as obras lidas, as amizades conquistadas.

Não assisti a muitos lançamentos este ano, mas Cisne negro e Meia-noite em Paris valeram o investimento. O Liberdade foi o documentário do ano em Pelotas. Sensacional!

Vou puxar agora pro meu assado. Você seria capaz de listar todos os livros que leu durante o ano? Sim ou não, nunca lemos o bastante e prometemos mais para o ano que vai nascer.

As listas dos mais vendidos em 2011 são de outro mundo. Se a classe média aumentou seu poder aquisitivo para a leitura, ainda não sabe escolher bem os títulos da cabeceira. Padre Marcelo que me perdoe. O religioso publicou o livro mais vendido do ano no Brasil! A dona Zibia também vendeu horrores. Isto sem falar em vampiros e cabanas. Tudo muito assustador. Mas não quero discutir religião. Hoje não.

Alguns imortais infelizmente se foram. Gonzalo Rojas, Scliar e Sabato bem no início do ano pararam definitivamente de escrever. Publiquei crônica aqui, fazendo estes dois dialogarem como bons amigos no além. Há vida após o texto.

No primeiro trimestre organizei e ministrei oficina de escrita. Formamos um grupo bacana estudando os gêneros breves - crônica, conto e miniconto. Toda sexta, analisamos textos clássicos de autores consagrados e compartilhamos catárticas leituras do material produzido. Algumas amizades começaram ali com certeza.

Em meados do ano foi publicado o volume Histórias de trabalho da Receita Federal, resultante do concurso que idealizei junto ao órgão para resgate e registro de sua memória institucional. Também estreei o podcast Terapia literária na RadioCom, no qual comento ou leio trechos de algum conto ou poema famoso, quando não arrisco algumas linhas desta página.

Em agosto participei pela primeira vez da Jornada Literária de Passo Fundo. Foi demais! O evento é rico e instigante. Lá pude ouvir autores como o veterano Ignácio de Loyola e o talentoso Vitor Ramil. E foi justo lá que achei uma amizade, daquelas que parece sempre ter existido, o historiador e cronista Vitor Biasoli. De volta, por aqui, conheci, não por acaso, o também historiador e cronista Mario Osorio.

No último trimestre publiquei o livro de crônicas Leia antes de jogar fora, autografado em lançamentos respectivos na capital e em Pelotas. Recomendo. Baita leitura de cabeceira!

Por fim, avalio o ano como produtivo e agradeço ao leitor assíduo e paciente desta coluna. Que em 2012 façamos ainda mais amizades e leiamos muito, muito mais!

Publicado ontem:

24/12/2011

Cartinha de Natal

Como eu queria escrever uma bela e verdadeira crônica de Natal. Uma que fizesse o velho Braga sorrir. Ou o Mario chorar. Uma que a doméstica entendesse. Uma que a professora recortasse. Mas que não fosse panfletária, engajada ou militante. Que não precisasse de defesa prévia, nem uma morte anunciada na véspera. Que não ficasse embaraçada em sua escolha das palavras. Eu queria escrever um texto sem medo de ser infeliz. Uma crônica que o menino lembrasse para sempre como a sua primeira vez. Ou que o Sabino desejasse como sua última crônica. Uma que o Bial gravasse sem filtro solar.


Que o Cazuza cantasse pra quem não sabe amar, ou o Chaplin discursasse antes de dormir. Que a censura classificasse como livre para todas as idades e horários. Que o cabeludo pregasse pras cucas maravilhosas debaixo dos caracóis de pensamentos. E que a galera não custasse tanto a sacar que o que falta é perceber a falta de sacação. Uma crônica forte, que desse na telha e pegasse igual frase de caminhão. E que desse vontade de copiar à mão e com carbono pra jogar do teco-teco.

Ah, quem me dera ter um pinguinho de sorte de abrir os olhos pra ouvir pelos quatro alto-falantes a realidade da vida. Eu juro que contaria pra todo mundo. Escreveria aos miseráveis. Àqueles que já sabem que amanhã será passado e o futuro não começa hoje. Contaria pra você que está triste. Pro ranzinza que acordou de mau humor e não quis lavar os dentes. Pro senhor, farto da vida. Pro rapaz, que não gosta de dar bom dia e não cede lugar no ônibus. Escreveria pra você mesma que não tem mais amigas. Pra você que está grávida sem noção do que fazer. Pra criança que carrega sem saber se vai criar.

Deixaria um recado de coragem ao pai que não aceitou registrar o filho e por toda vida sonhará com o seu nome e sobrenome. Escreveria pros açougueiros não venderem mais carne. Pros dentistas não arrancarem mais dentes. Pros filósofos não queimarem pestana. Pras cabeleireiras não alisarem mais os cachos. Pras garotas de programa não fingirem amor. E escreveria um abraço para ele que está sozinho. E mandaria um banho de chuva de pé no chão pra você que está com câncer. Um copo d'água vazio para aquele que toma pílulas. Eu mandaria uma carta de “volte duas casas” para você que vai trair sua família para montar outra família. E pra você que foi traído sem saber e deu o rosto para um beijo de despedida eu escreveria num guardanapo: tanto faz. E escreveria mais outras coisas pra você que está na estrada. Ou voltando do velório. Ou na escola. Na feira. No consultório. Na sexta-feira. Na fila de espera. Escreveria um deixa disso para aquele que procura a cracolândia. A heroina. A nicotina. E escreveria um não desista para a avó do dependente. Escreveria ao pintor que forrou o chão com essa folha e por acaso leu a linha em que falava de um pintor que forrou o chão com essa folha e por acaso...

Eu escreveria pra você que cogita tirar a própria vida ou de outrem, um silêncio para pensar só mais uma vez. Mas pensar daqui a dez anos. E escreveria um seja bem-vindo para quem achava melhor sequer ter nascido.

Eu escreveria pra quem não tem o que comer e está deitado na calçada com esse jornal cobrindo o rosto sem ver que está na cara que o cara caído ali é você. As palavras já não saem mais, pois é muito difícil escrever uma crônica de Natal, que seja bela e verdadeira ao mesmo tempo. Escrevi, porém, na esperança de que entendas que é para mim também que escrevo. Feliz Natal!

Publicado ontem no DP

16/12/2011

Escritor Pedinte

Por favor, senhor ou senhora, você pode ler essa crônica? Tomou-me tempão para escrevê-la, pode dar uma olhadinha? É baseada numa música dos Beatles, ”Paperback Writer”, em que a letra é uma carta a um editor, através da qual um autor implora para escrever livros de bolso, brochuras (paperback). Para tanto, conta que redigiu um trabalho com mais de mil páginas, baseado em um romance sobre um homem cujo filho trabalhava para o jornal britânico Daily Mail. Apesar do emprego fixo, o tal filho também desejava ser escritor de livros de bolso. Não entendeu nada? Pois era bem isso. Uma história dentro da história. E tudo dentro da letra da música. O homem se chamava Lear, anagrama para “real” ou referência ao rei shakespeariano, não se sabe. Comentaristas atribuem o nome a Edward Lear, pintor vitoriano que escreveu alguns poemas que inspiraram John Lennon, coautor da canção com Paul McCartney.
Lançada em 1966, rapidamente alcançou as primeiras posições nas paradas britânica e americana sem valer-se da temática amorosa, comum à produção da gurizada de Liverpool. As letras anteriores eram de John e a vez de escrever algo tocava a Paul, sendo dele a ideia da canção epistolar metalinguística. Dizem que usou uma carta de verdade que recebeu de um aspirante a escritor. Por volta de um minuto e vinte segundos de execução, percebe-se John e George fazendo um ”backing vocal” com a canção infantil ”Frére Jacques”, apelando ao inconsciente com uma música dentro da música, enquanto Paul seguia com o tema principal.    
Os ”paperback” começaram a ser produzidos em maior escala no final dos anos 30, tornando-se muito populares nos decênios seguintes. Logo após a Segunda Guerra, o preço da celulose disparou e as editoras encolheram suas publicações  para o chamado formatinho -  igual ao da Revista Seleções. Nesta época bombava a ”Pulp Fiction” (Ficções de Polpa), gênero, aliás, que existia desde a virada do século (vide google).
A tarefa de publicar nunca foi fácil, leitor. O escritor tem que suplicar para provar que tem algo vendável a dizer. Podemos virar milionários, prometia o personagem imaginado pelos músicos mais bem-sucedidos do planeta.
No Brasil dos anos 80 a música “Inútil” ainda reclamava “a gente escreve livro e não consegue publicar.” O mundo mudou para tudo continuar igual. Hoje preconiza-se o ressurgimento de edições baratas, algumas com material de melhor qualidade do que a polpa da celulose. Usa-se o papel reciclado, que tá na moda. Qualquer um pode publicar seu livro em uma gráfica ou editora pequena. Pagando do bolso, claro. O processo todo, entretanto, anda longe da simplificação almejada e ter acesso a um editor é um exercício que beira a mendicância.  
A canção dos Beatles dizia “Eu quero ser um escritor de livros de bolso!” Hoje teríamos que acrescentar, “um escritor brilhante, com dinheiro suficiente pra bancar a edição, coquetel e  divulgação, além de, se não for pedir demais, que venda um milhão de exemplares”!
Publicado hoje no DP.

11/12/2011

O culto amigo


O Natal aquece o comércio, mas estimula o consumismo, todos sabemos. E como não podemos dar presente a torto e a direito por aí, inventamos essa do amigo secreto. Mario Prata escreveu que existem dois tipos básicos de amigos secretos: o do trabalho e o da família. Seja rico ou seja pobre, o resultado sempre vem: distribuição de vale-sorrisos falsos, quando não um festival de mau gosto embrulhado e com fitinha mimosa. Isso ocorre porque não é moleza agradar os outros. Nem Jesus agradou...

Presentear é coisa do passado. Desde os gregos já se davam presentes de grego. Salomé de tão entediada pediu uma cabeça de regalo ao rei e ainda ganhou uma bandeja de brinde. Os reis magos (ou eram pastores?) também presentearam o Deus menino. Aliás, algum cristão aí arrisca uma dica sobre o que seja mirra? Os exemplos históricos das oferendas baratas também se sucedem até os dias atuais. O povo gosta de uma lembrancinha nem que seja marca diabo. E a geração “não esqueça a minha Caloi” saiu das mais pidonas. Atender alguns pedidos, entretanto, pode sair caro. Então, pintou outra ideia. Só pode gastar até tanto. Vai ver por isso só vem porcaria.

Fala sério! Eu nunca ganhei nada que prestasse. Sobre isso já escrevi por aqui e se me repito é porque a instituição da dita amizade secreta está falida mesmo.

O pior é que não tem como escapar do evento. Sempre lembrarão do seu nome na hora do sorteio e ainda entregarão à revelia o papelzinho com a graça do seu par.

Sendo inevitável, pensei em algumas alternativas. Que tal um amigo secreto cabeça? Nada a ver com João Batista... por favor! Proponho um “culto amigo”, um amigo secreto literário. Cada um presenteie com um livro e passado o período de férias, devolvam-se os exemplares para doação a uma escola ou biblioteca pública. Hein? Seria um primeiro passo para romper a mesmice das garrafas de vinho chileno, perfumes da fronteira e camisas polinho. Sei lá... Parece que sempre falta alguma coisa. Ah, culpa cristã nossa de cada dia!

Outra dinâmica solidária (ou natalinamente correta) seria cada um comprar um brinquedo ao seu par. Algo que fosse a cara do seu amigo, amiga. Interessante exercício seria esse de tentar ver a criança no adulto. Feita a revelação e enfrentada toda sorte de chacotas, os presentes seriam então encaminhados para um lar de menores abandonados. Apresentei tal proposta no trabalho, dividindo as opiniões. Houve quem louvasse e quem se rebelasse. Alguém sapateou que queria presente de gente grande e pronto! Do contrário não brincava mais. Outro concordou em receber o brinquedo, porém, avisou que não entregaria sua peça para doação. Em meio à agitação, o gaiato da turma repetia insistentemente que me daria uma bonequinha. Discute daqui, argumenta dali, Papai Noel isso, Jesus aquilo e ficamos no modelo tradicional. Pregar no deserto é brincadeira!

04/12/2011

Haja vista!

 

Num olho uma certeza.
Noutro, uma pergunta:
conheciam-se de onde?

01/12/2011

Achados e perdidos


Achei uma moeda na rua. Não peguei. Achado não é roubado, não é mesmo? Só não colhi porque era de dez centavos. Menos de um real não paga o mico da agachada em pleno Calçadão. Pobre centavinho, lá ficou desprezado por todos. É a moedinha do dom Pedro, já viu? Pô! Nossa independência vale só isso?

Quem seria suficientemente desimportante para figurar no desmerecido metal? Podiam pôr os vis personagens da história do Brasil. Os traíras. Silvério dos Reis, Calabar. Mas não. Homenagearam o imperador playboy. O libertador filhinho de papai. O Tarcisão do livro didático.

Tiradentes também foi pego pra Cristo. O maior bode expiatório da nossa história perdeu a cabeça. Está lá na moeda de cinco centavos. E o ferrinho de um? Nem se vê mais. Exibe a caretinha do Cabral, que se perdeu no caminho para as Índias. Piada pronta, eu sei. Segui caminhando e pensando no valor das coisas perdidas, moedas pequenas, descobertas e independências nossas de cada dia.

Estou perdido mesmo! Fiz uma lista das últimas baixas. Sou um perdedor assumido. Perco tudo. O último guarda-chuva extraviado era bonzinho. Comprado em loja, com nota e tudo. Paguei vários níqueis de dez centavos por ele. Esqueci na entrada do restaurante. Alguém carregou, com certeza.

Semana passada foi o celular. Caiu do bolso no ônibus. Liguei horas depois pro meu número e ouvi mensagem de não estar mais acessível. Aonde teria ido? Algum vivo encontrou e, claro, não devolveu. Removeu e jogou fora o chip. Quem quer devolver, devolve - orientou a moça da operadora antes de me vender o novo modelo. Deveríamos ter o direito de saber ao menos isso, o paradeiro do objeto. Facilitaria o luto. Teria alguém achado o chip desovado? E o cartão de memória? Lá estão meus contatos telefônicos, torpedos, fotos de minha filha de touquinha no inverno, da Bianca dormindo no sofá da sala e as efígies dos gatos de rua que adotamos.

O Sabino tem uma crônica no livro O gato sou eu, em que tratou dos objetos perdidos. Apregoa a existência de um tal caboclo escondedor que se diverte ocultando os trecos de que mais precisamos. Chave do carro, caneta, óculos. Aconselha que procuremos um pouco, até para não desapontar a entidade brincalhona. Porém, sem muita persistência, o que poderia tornar a busca interminável. Tão logo desistamos, o objeto reaparece bem diante do nariz. E quando não há volta? O autor explica então que nada tem a ver com o caboclo nesse caso, quando é acometido por outro fenômeno: o buraco negro. É o “achados e perdidos” do Universo. Uma área em que nenhum homem jamais esteve, que pode estar no forro de um sofá ou do outro lado da galáxia.

Vou acender vela pro Negrinho do Pastoreio se entender com o caboclo e de repente passo a achador de alguma moeda valiosa. Nem precisa ser a dracma perdida de Jesus ou o zahir de Borges. Qualquer um real serve. E quem sabe, numa dessas, eu me encontre por aí.

Publicado no DP
sexta passada

20/11/2011

Doideira Consentida



O computador é a nova máquina de fazer doidos. A antiga maldição antes aplicada à televisão ganhou novo suporte. A panaceia eletrônica é o ópio do novo pobre. Do Jeca Tatu globalizado ao Zé Buscapé com blog e myspace. É TV a cores debaixo da ponte. É brincadeira! O sujeito não tem um livro sequer em casa. Não compra um disco original faz anos. Nunca vai ao cinema ou teatro, mas tem preferência pra tudo nas características apresentadas na rede social. Estandarte do sanatório personalizado e individual.

Até padaria já tem site e aceita cartão. Se não tiver pão, que digitem brioches no mecanismo de busca. É um circo virtual. Se a velha telinha há décadas idiotiza mais do que instrui, hoje temos computadores de mesa, cama e banho para nos entreter e prestar o desserviço. E a turma pira geral. É só bobagem. Não vim aqui achincalhar o homo windows ou mexer na maçã de ninguém. Até porque No Orkut dos outros é colírio, conforme título de um livro que tenho. Quero antes colocar a loucura em evidência. A bobajada em caps lock. E aposto na estupidez humana. É dez a zero. Ainda somos orangotangos... É fato consumado. Sem apelação, nem moralismo. Apenas sinto uma descrença pacificada na cultura humana. É reflexão periférica, admito. Rasteirinha pra dançar. Só no sapatinho!

Quanto mais acessamos a informação mais tolos nos tornamos. Autômatos. Somos fantoches wireless. E não há antivírus que nos imunize da idiotice desvairada.

A avó do computador já era assim. Com a calculadora, desaprendemos a dividir com vírgula. Os editores eletrônicos de texto deseducam regras básicas de etiqueta gramatical. A culpa é sempre da máquina. É erro de digitação, nunca ortográfico. Libera o novo homem para pensar o conteúdo, sem as preocupações formais, dirá o leitor-usuário. O que vale é a intenção. E se escrever com esse em vez de cedilha, o cabeção eletrônico se desdobra daqui, põe minhoca dali e propõe a grafia correta.

O problema é que de boas intenções a internet está cheia. E no festival de besteiras que assola o mundo somos os campeões de audiência. Temos horóscopo on-line, cassino virtual, site de novelas. Blogs de piada e dáblio, dáblio, dáblio de gente nua, que, afinal, ninguém é de ferro.

E quem não precisa de uma navegadinha na vida alheia? Fazer download de fofoca de artista? Viu que o médico do Michael Jackson se enrascou? E o ministro aquele... como é mesmo o nome? Tá todo enrolado. Informação é tudo. Outro dia um guri morreu na frente do computador. Que horror, hein?!

A tecnologia avança porque vende mais ou vende mais porque avança? E a culpa é de quem? Dono da emissora? Do webdesigner? Do blogueiro? Ponho minhas fichas na futilidade universal. Se tem quem poste e tem que acesse tanta asneira, talvez a máquina já tenha criado sua própria comunidade de doidos.


Publicado no diário, sexta passada
 


12/11/2011

Um mais um



Dia 11 de 11 de 11. Adoramos números. Semana passada tratei do número sete, por ocasião de alcançarmos sete bilhões de indivíduos sobre a terrinha. A data desta sexta-feira (11) faz pensar na soma de um mais um mais um mais um que totalize algum significado na existência. Queremos acreditar em algo. Defender alguma bandeira. Mesmo os que acreditem em nada o fazem com fiel militância.

O que me chama atenção é a gama de associações de carteirinha que estamos sempre dispostos a integrar. Clubes, agremiações, paróquias, congregações, partidos, sindicatos, milícias. As pessoas têm a necessidade de se juntar em comunidades. O sentimento de pertencer a um grupo torna o indivíduo mais seguro. Somando individualidades, busca-se uma comunhão total (ou parcial) de bens culturais.

Desde quando ocorre isso? Desde sempre... A união em bandos é pré-histórica. Tal característica faz parte do mundo animal e foi no homem que ganhou maior força e expressão.

E se a união faz alguma força, foi assim que nossos antepassados cabeludos conseguiram sobreviver às intempéries e desafios das cavernas. Sem um espírito de grupo seria impossível matar um leão ou um mamute branco. Como ergueríamos sozinhos uma pirâmide? Ou suspenderíamos jardins? Nem debaixo da chibata. Mesmo escravizado o homem cedo ou tarde se reunirá em quilombos.

Em nossa trajetória pessoal, de pequenos somos criados para este comportamento associativo. Na escola acomodam-nos em turmas. Os trabalhos são de grupo. E se nossos pais acreditam que optaram por nossa escola (pública ou privada, religiosa ou laica) de acordo com suas condições econômicas, isso só foi possível por determinados valores culturais oriundos de outra segmentação, a social. As escolhas desdobram-se assim em infinitos prismas no caleidoscópio caótico de nossa vida. Caótico porque não temos tanto poder de escolha assim. Alguém escolheu nascer? Ou escolherá a coroa sobre o próprio esquife? Uns dirão que sim. Outros, não.

Em nosso tempo, o discurso é o da individualização. O homem gostaria muito de ficar só. De se isolar. Mas não consegue. Ninguém é sozinho. Logo se identifica com os solitários, solteirões, misantropos. Plurificando sua solidão cai novamente na teia do um mais um mais um.

Assim vão surgindo tribos, categorias, gangues e até máfias. E logo, por oposição, a grama do grupo vizinho será considerada a mais verde. Toda panela é de pressão, quando a tampa está fechada. O que detona com a humanidade não é a existência de organizações e sim a diferença que surge entre as catrefas.

E neste exato momento enquanto você lê este texto, queira ou não compõe o grupo dos que o leram até o final. E em onze segundos tomará partido entre os que gostaram ou não. Talvez indiferente. E eu, sozinho, nada posso fazer quanto a isso.
Publicado em

07/11/2011

Éramos seis


Nesta semana noticiaram um nascimento significativo. Somamos agora sete bilhões de humanos. Diversos países disputaram o registro do bebê sorteado pela estatística reprodutora. O teste de paternidade apontou a mãe russa. Que diferença faz? Por Deus do céu, como somos tolos! Se pudéssemos levaríamos mirra, incenso e ouro ao messias do novo milênio.

Adoramos uma adoraçãozinha. Adoramos o número sete. “No princípio criou Deus céus e terra.” O primeiro verso bíblico tinha sete palavras no original hebraico. O tal número simbolizava a perfeição na antiguidade. O mundo, conforme a tradição criacionista, foi feito em sete dias, dando uma canseira danada no Criador. Assim também reza a lenda que sete pessoas teriam se salvado com Noé na arca. E por aí vai a numerologia. Adoramos coincidências místicas. Sete são os mares e as léguas viajadas por entre abismos e florestas. As cores do arco-íris e as artes são em sete. Sete são os anões da Branca de Neve. O sete é belo

Sete são as maravilhas do mundo. Mas pintamos o sete. E no mesmo número estão contados os pecados capitais. A vaidade, a gula, você sabe de cor e salteado.

Divulgaram também que atualmente um bilhão de pessoas passam fome. Números. Somente números, né? Pois então vou repetir mais devagar. Um. Bilhão. De pessoas. Tá ligado? Pessoas. Pessoinhas. Um bilhão! Fome. Sentem fome. Pegue um papel aí, vamos desenhar. Faça sete bonequinhos. Escreva abaixo o seu e outros seis nomes. Eu ajudo. Um do trabalho, um vizinho, padre, mamãe, filhinho. Seja criativo. Afetivo. Pode ser até figura de palitinho. Agora vamos desenhar uma pizza. Estatística que se preze tem que trazer gráfico. Ciência. Trace três retas e ficaremos com seis pedaços. Agora divida entre os bonecos. Escolha um para ficar sem. Se for você, parabéns! Abra uma ONG, crie o vale-pizza. Vire político. Se optar por deixar o colega passando fome, ele te passará a perna. Se deixar o vizinho em apuros, começará uma guerra. Deixe o padre sem o pão e o vinho e ele acenderá uma vela (ou uma fogueira). O empregado sem arroz e feijão organizará uma greve (ou começará a beber). Deixe o patrão sentir fome e viva a revolução! Ditadura é ditadura. Redentora ou não. É assim que temos conduzido nossa história.

O leitor lembra quando alcançamos o último bilhão de habitantes? Faz pouco, foi em 1999. E naquela ocasião a previsão era que em 12 anos chegaríamos aos sete bilhões. Na mosca. Somos bons de cálculo. Ótimos de estatística. Crescemos e multiplicamos direitinho. Dividir é que não é nosso negócio no grande circo azul. E o pior é que teríamos pão pra todo mundo. Que Malthus estava errado também já sabemos. E por que não “funfa” então? Porque comida é mercadoria. Porque antes precisamos alimentar o gado que virará hambúrguer de grife. Em 2050 estimam-se dez bilhões de habitantes. Grande coisa! Uma amostragem bem humana apontaria quantos famintos haverá.

Publicado no Diário Popular
04/11/11

29/10/2011

A festa dos livros

Começaram as feiras do Livro! Plurifico, pois ocorrem aqui em Pelotas e na capital gaúcha. Para mim a festa é uma só. Curto demais! É show! Quando morava em Porto Alegre, apreciava a movimentação na praça pela janela do segundo piso da antiga Alfândega, prédio onde trabalhei. Não raro, identificava algum autor no formigueiro de lombadas humanas. Do Assis Brasil ao Ziraldo, muitos divisei de passagem transeunte, com meu olhar instruído por retratos de orelhas de livros. Não raro, tirei férias para imiscuir-me naquele universo em tempo integral.

Quando cheguei em Pelotas, há dois anos, logo conheci a sua Feira. Participei ativamente enquanto leitor. Como escritor, aprontei uma daquelas de rachar a cara. Tinha data agendada e, por questões de foro íntimo, perdi o horário. Até agora amigos e colegas me cobram a gafe. Mudo de assunto.

A meu ver, as feiras serão sempre uma só. Sinto a mesma atmosfera aqui e lá. Uma energia corre livre entre as cidades interligadas por estandes e caixas de saldos. As ideias pulsam nas sacolinhas carregadas pelos consumidores da cultura. Ideias recém-nascidas que esperam por leitores que as adotem. Alimentem. Recriem. Reproduzam. O conhecimento tem vida própria. Somos seus hospedeiros.

Identifico-me bastante com a Feira de Pelotas. Temos o mesmo número de primaveras. Sou de 72. Ela, que esconde a idade, é de 1960, contudo, teve algumas edições suspensas por dificuldades próprias ou não do regime de exceção.

Atenção, pais! Atenção, professores! Não deixem de levar suas crianças à Feira. É na infância que se inicia este amor. Namoro não apenas com os livros, mas com as feiras que os promovem. Ainda guardo na memória algumas vezes de piá em que tive o privilégio deste passeio. No quinto ano fundamental, minha escola participou de um interessante programa que reuniu composições de alunos da rede pública em um trabalho coletivo. O livro manuscrito foi encadernado e exposto em uma banca. Pena que não fiquei com uma cópia. O momento, entretanto, foi registrado por um jornal da capital. Conservo o recorte, no qual poso com duas coleguinhas. Nas mãos, livros e picolés. E isso foi em 1983!

Ano passado, minha filha, com apenas três anos de idade, visitava a Feira com sua mãe e figurou aqui na contracapa do Diário. Anteontem, enquanto lhe mostrava a imagem, perguntei o que fazia ali. “Olhando os livrinhos, né, pai?” Óbvio! Que pergunta! O ponto é que já se familiariza com tal vivência e com certeza continuará colecionando lembrancinhas de suas participações na Festa dos Livros. Em casa, é dona do primeiro andar da estante a qual acessa com frequência, aguçando o olhar e cultivando as ideias.

Ah, já ia esquecer de dizer. Esse ano, autografo na Feira de Pelotas no dia 5 de novembro. Apareçam. Juro que estarei lá!
Texto publicado 28/10/11

14/10/2011

Sobre a Marca Diabo

Reunindo algumas crônicas publicadas aqui nesta coluna, lancei novo livro, Leia antes de jogar fora, esta semana em Porto Alegre. Calma, leitor amigo. Na próxima sexta-feira (21) será a vez de Pelotas, o que logo divulgarei.

O mercado editorial é uma seita. Sem um pacto com o demônio do capitalismo, nada feito. É mandinga. Só pode ser. Ou o escritor faz o tipo showman literário, o Joker, o palhaço, o Coringa ou dificilmente terá seu trabalho aceito por uma grande editora do circuito comercial. Como não existe lanche feliz de graça, nas pequenas e médias casas de impressão, pagando bem até rola, mas tem que entrar na fila de edição. Ansioso que sou e provocado pela velocidade de nossos tempos, optei pela produção independente, criando selo próprio. Coleção Marca Diabo, pela Evangraf, editora da capital.

Por que Marca Diabo? A história é conhecida. Não custa nada relembrar. Uma das empreitadas de Simões Lopes Neto como empresário deu-se no ramo tabagista. Deu-se, aliás, muito mal. Considerado por muitos o maior regionalista do Sul do Brasil, o contista pelotense não tinha no tino comercial seu maior potencial. Contudo, em 1901, portanto há um século, registrava sua fábrica de cigarros como Diavolus.

Anunciando na imprensa local com detalhado informe, garantia ao consumidor qualidade e disponibilidade de fornecimento em quaisquer quantidades ao comércio. A redação impecável sugere lavra do próprio escritor. No logotipo das embalagens, a figura do capeta, a passos largos, carregando um cartaz com a seguinte inscrição “Fumos e Cigarros” e abaixo trazia “Marca Diavolus Registrada”. Diz que a campanha logo assumiu o slogan: “Peça sempre a Marca Diabo”.

A aceitação popular foi enorme. Até então havia três marcas de cigarro em Pelotas, todas com nomes de Santos. A Igreja reagiu rapidamente, pregando que aquele que levasse o Diabo no bolso, a soltar fumaça pelas ventas, seria excomungado, a começar pelo próprio fabricante. Boato ou não, a infernal ameaça correu solta e a difamação pegou fogo. Queimado a torto e a direito, o empreendimento foi esfumaçando-se até virar cinzas ainda nos primeiros anos do século 20. A obra literária de Simões Lopes Neto segue como seu maior legado e herança. Advém daí, entretanto, a associação da “Marca Diabo” com produto de baixa qualidade ou pouco valor. Em tempos politicamente incorretos a expressão ganha conotação diversa, simpática e até elogiosa. Selos como Livros do Mal, Não Editora e Má Cia, seguem esta lógica bad boy das letras.

Agora com seu primeiro voluminho caprichado, a Coleção Marca Diabo presta, assim, homenagem à criatividade e às ideias de jerico daqueles que não se encolhem ante as certezas e as concepções de sua época.

Leia antes de jogar fora, Marca Diabo, será lançado na próxima sexta-feira na Livraria Monte Cristo, na 15 de Novembro, 913, às 19h.

Lembrete: fumar é prejudicial à saúde.

Publicado no Diário Popular, dia hoje.




05/10/2011

Livro no prelo

Na verdade meu novo livro está no prego, pois ainda não paguei a Editora. 

São trinta e três crônicas recicladas do Jornal Diário Popular,  em embalagem retornável.

“Leia antes de jogar fora” é um manual sobre a brevidade da vida e
frivolidade dos sentidos, em dias em que tudo é descartável e quase nada é reciclável.

O Lançamento está marcado.
Compareça! Ajude a pagar essa
conta!

O que? Vinho, água, palitinho de queijo
              e um livro vagabundo
Quando: 11/10/11 19 horas
Onde: Palavraria Café e Livraria 
Rua Vasco da Gama, 165. Bom Fim, Porto Alegre.


Em breve divulgo data do lançamento em Pelotas.

01/10/2011

27/09/2011

22/09/2011

Toda parede será porta

Semana passada fiz um experimento de realidade mista, reunindo mundo físico e virtual, nesta coluna. Com um link no final do texto remeti a uma continuação em meu blog. O retorno, parcíssimo, confesso, não me surpreendeu. Aos poucos, contudo, vamos acostumando com a integração de novas mídias. O cinema foi o primeiro nesse caminho de síntese dos estados de arte. Literatura, teatro, música, coreografia, formas e fotografia projetaram-se na telona sem excluir as expressões anteriores. Com a digitalização do mundo físico não será diferente.

Somos a última geração descendo a correnteza pixelizada num barquinho de papel. Profetas do novo milênio anunciam a alfabetização digital. Ou seria melhor chamar de “qwertyzação”?

Não vou analisar a desimportante discussão sobre o apocalipse do livro impresso. Afinal, os tabletes de argila e os de silício têm 90% de DNA em comum. Entre um e outro tudo é suporte para informação. Aposto na transição e especulo sobre ela. O livro como conhecemos hoje vai mudar. Claro. O que me arrisco a pensar é sobre as formas de integração de mídias.

Uma das novidades para consumidores de informação são os códigos de barra em 2D ou QR, Quick Response. Escrevi “novidades”? Risque, pois foram criados e são aperfeiçoados desde 1997! Surgiram na indústria automobilística, Toyota, ao que consta e por aqui discutimos se cavalo usa fralda.

O.k., alguns boletos já trazem o novo código. Mas o recurso pode ser melhor aproveitado que somente pagando contas. No Japão, por exemplo você aponta a câmera de seu celular para um produto, num fastfood, e baixa a tabela nutricional na tela do aparelho. Em alguns museus europeus já é possível, pelo código ao lado de uma peça de arte, carregar dados da obra ou do artista em seu celular.

Alguns periódicos nacionais já estão publicando o recurso junto a suas matérias. A Tarde, de Salvador, foi o primeiro jornal impresso do país a incorporar o QR Code em suas páginas, conduzindo o leitor do papel ao dispositivo móvel.
Enquanto os tradicionais códigos de barra têm capacidade de armazenar cerca de 20 dígitos, resultando num monte de zebras, os QR podem carregar até 7.089 caracteres, ampliando significativamente sua funcionalidade. Fascinante, né? Que nada! Existem mais de 70 novos códigos em estudos. O mais fantástico é o tal Bookcode, em que um ponto de três milímetros, imperceptível a olho nu, carrega milhares de informações em quadros que lembram os antigos microfilmes, com uma única foto. Numa livraria, você carregaria as sinopses de todos os livros ali disponíveis com um clique. Quer mais? O leitor poderia consultar a biografia do autor mirando a lente do celular para um quadradinho axadrezado na contracapa. O certo é que os limites entre real e virtual se estreitam e logo, logo toda parede será porta de entrada para universos paralelos. O futuro está lá fora. Ainda nem começamos.
Publicado em 30/09/2011
 








Clique abaixo e leia o texto ligado a este:

16/09/2011

Viajando no tempo



A máquina do tempo é um dos mais fascinantes temas da ficção científica. Antes da ciência moderna já se ficcionava sobre isso? Por certo não nestes termos. Charles Dickens, Mark Twain e até os gregos já haviam tratado do tema. Foi, porém, H. G. Wells o primeiro a colocar em seus enredos um produto da ciência à disposição do protagonista. Contrapôs a máquina às tramas anteriores, explicadas pela ação de divindades ou anomalias naturais. Uma engenhoca assim só poderia ser sonhada após a Revolução Industrial. Os transportes temporais logo foram associados aos deslocamentos espaciais em altas velocidades. Albert Einstein deu seu empurrãozinho nesta direção.

Nunca imaginamos avançar para o futuro em lombo de mula. Já pensou? Seria colocar a carreta na frente dos burros na volta para o futuro. Pois é justo aí que erramos. Ninguém precisa de aparato algum para viajar no tempo. Somos todos mochileiros do expresso cronológico. A passo de tartaruga, claro. Sequer podemos, aliás, interromper tal marcha. O presente é móvel e estamos atados a ele. Mesmo depois de mortos existiremos somente no momento atual de alguém. Através de uma lembrança, de uma fotografia, de um nome gravado na pedra. Nunca antes ou depois. É agenda permanente de hojes.

Viver é percorrer esse trajeto idealizado pela abstração que apelidamos de tempo. O que é o tempo, afinal? Uma colherada de engrenagens girando no pulso? A sombra solar derramada na pedra da praça? Nove e meia semanas de amor?

E se o tempo não existir? Se for uma construção cultural? Então ficar velho e morrer nada teria a ver com o transcorrer de horas, dias ou anos. Se fosse possível suprimir a chamada dimensão temporal sem tocar nas três medidas espaciais continuaríamos envelhecendo? Não pare para pensar.

Os efeitos de uma viagem dessas também intrigam os visionários aficionados. O paradoxo possivelmente gerado ao mudar qualquer evento no passado desencadearia realidades alternativas. Ora, essa característica corrobora minha tese da jornada em lombo muar. Se você seguir ou abandonar esta leitura, será conduzido a universos diferentes. A cada ato no fluxo contínuo do presente, rejeitamos toda uma vida. Se brigo com o cara que buzinou na esquina, por exemplo, estou sujeito a tomar um tiro e morrer. Se deixo pra lá, posso colidir na próxima curva com um carrão importado. Sem seguro para terceiros. Ficaria bravo ao ponto de querer descontar no primeiro que passasse. Talvez o mesmo sujeito que me xingou na esquina anterior pagasse o pato. O acaso é mestre no duelo das possibilidades. No cabo de guerra das dimensões a corda nem sempre arrebenta do lado mais fraco.

O fascínio por uma viagem no tempo carregará sempre a nossa essência existencial mais cotidiana, rala e arrastada. Todos criamos universos alternativos viajando no mesmo lugar chamado tempo.


Publicado no Diário Popular hoje.

11/09/2011

Terapia Literária - Podcast

Mais um dos podcast Terapia Literária
que foi ao ar em agosto pela RadioCom, de Pelotas.

Novos episódios estrearam esta semana.
Horários: 11:05 / 12:35/ 14:05/ 16:05/ 17:35 e 20:00 tudo mais ou menos, é claro.

Aos poucos vou postando por aqui.

09/09/2011

Por que marchamos?

Todo desfile é uma parada. Antes foi o 7 de setembro e logo mais tem a cavalgada dos Farrapos. Sempre me surpreendo com a quantidade de cavalos e a histórica sujeira que deixam. O povo gosta. Fazer o quê? Panes et circenses.

Em crônicas anteriores já tratei da historicidade forjada para as duas efemérides e vou poupar meu teclado do mesmo discursinho sabe-tudo. Vamos pegar leve, que o santo é de barro e a cobra é de vidro. Viva o Brasil varonil! Viva a brava gente do Rio Grande do Sul!

Tenho uma privilegiada visão da passeata patriótica do segundo andar do prédio furreca, onde moro na outrora glamourosa Gonçalves Chaves. Estava à toa na janela e fiquei pensando na origem de tudo isso.
Os 18 do Forte marchando para a morte em 1922.
Lembrei de minha infância, quando marchávamos em torno da quadra escolar em Porto Alegre. Criança adora essas fuzarcas. Eu não sabia amarrar o meu kichute e o pai reforçava o nó por detrás do calcanhar. Já pensou tropeçar em plena avenida? Sempre destrambelhado, nunca fui escoteiro. Talvez por isso jamais aprendi direito a dar nós ou fazer topes.

Não entendo a existência dos desfiles enquanto instituto comemorativo. Seria coisa dos militares? Ritos de vitória? Celebração bélica? Algo para pôr ordem no barraco, quem sabe?

Sinceramente não sei. Acho que faltei esta aula de O.S.P.B. É uma falha em minha formação. Será por que não servi às Forças Armadas? Tudo bem, não perderam nada. Eu não saberia nem amarrar um coturno ou segurar um fuzil.

Como teria sido no tempo do pai? Viu a banda passar em sua juventude ordeira que optou em amar o Brasil, para não o deixar? Será que, ainda piá, assistiu ao suicídio do presidente criador do nacionalismo? Não temos memória familiar. Nada aprendi da nossa história em casa.

Será que minha avó marchou pela tradição, pela família e propriedade? O que sei é que não tínhamos propriedade alguma. A família era uma total bagunça, com os velhos sempre aprontando. E a tradição? Huahuahua. Deixa assim... Uma avó era filha de índios, a outra de uruguaios. Um avô, de portugueses, o outro, de sírio-libaneses. Verdadeira misturada buarqueana. Dizem que um tio-avô sentou a pua na Itália e depois muito desfilou como veterano na perimetral em Porto Alegre. Gente boa. Só não gostava de tocar no assunto. Chorava.

As marchas e os desfiles carregam um poder simbólico. Toda a frota policial e militar integra a festa da independência. A prática não chega a ser exclusividade reacionária. A antiga esquerda também marchava. Os soviéticos desfilavam com seus tanques e mísseis durante a guerra fria. Prestes também marchou. Temos ainda a marcha dos “sem”. Dos negros. Das Margaridas. E as paradas LBGT. A questão de ordem que deixo é: quando marcharemos na mesma direção?


Publicado no
Diário Popular
09/09/11

04/09/2011

Papo de louco

Quase todo escritor é tachado de pancada. Não faço apologia à  loucura romântica. Dissimulada. Pra aparecer. Qual seria, porém, a motivação de alguém para escrever, publicar e tentar vender livro num país não leitor? Só se for maluquice mesmo. É a maior prova de desvario. Carência total de noção.

O primeiro sintoma é crer haver algo a ser dito. Sai então por aí à cata de situações e personagens. Às vezes se enreda mais do que a trama que redige. Busca inspiração das musas. Faz sauna de letrinhas. Associa-se em agremiações e comunidades virtuais. Depois jura que alguém lê suas abobrinhas, rimadas ou não. Ser escritor nem é tão grande coisa assim, sabia? É carteiraço de capa dura. Charlatanice de autoestima. É dizer tudo de velho outra vez. Na internet há mais escritores que leitores.
O grande lance é achar algum pensamento que valha a pena compartilhar. O mundo, contudo, não colabora. O chefe não apoia. Ócio criativo na empresa? Nem pensar! Os amigos olham com desconfiança, receosos de serem repaginados na ficção do louco. Ao compor enredos, personagens e desfechos o escritor é bendizer absorvido pelo universo que cria. É complexo de Zeus mascarado em folha de rosto. E alguns piram o cabeção nesse processo de fingimento do real. Completo fora da casa!

Tenho escutado com certa frequência a alcunha de “doido”. Estou quase convencido. Talvez saibam de algo que ignoro. Terei tomado remedinho pra cabeça na infância? Será que fui  internado na adolescência? Maconha? Tanto faz. O certo é que ideias de gerico são tratadas como coisa de maluquete. 

Charles Kiefer bem observou que “Nenhum escritor resiste ao fascínio da loucura.” É como se houvesse para o artífice das letras uma atração irreprimível de ultrapassar a barreira para ver o outro lado. As aproximações entre a beletrística e o manicômio são inúmeras. O Alienista, de Machado de Assis deve ser o maior exemplo na literatura brasileira. Fernando Sabino também deu sua contribuição com o Grande Mentecapto (não leu? veja o videozinho arriba).  


É loucura da boa, entretanto. Necessária talvez. Nada tem a ver com patologias psiquiátricas que poderiam inviabilizar o processo criativo. Falo antes da doideira geral que faz o “artista” enxergar o que outros não conseguem ver. Aquilo que está na cara, mas encoberto pelo véu da proteção social, das convenções inconvenientes e das formalidades deformadas.

Clarice Lispector destacou que “a loucura dos criadores é diferente da loucura dos que estão mentalmente doentes.” Estes teriam errado o caminho da busca, passando a constituir casos médicos, enquanto aqueles se realizariam no próprio ato de sua loucura espontânea. Mario Quintana em Simultaneidade responde à questão “Você é louco?” com um “Não, sou poeta!”
Não é essa a piração que o leitor espera encontrar nos melhores textos?




Publicado no Diário Popular - 02/09/11