12 de fev de 2016

Livro sobre a Alfândega de Porto Alegre

Para quem ainda procura meu livro sobre a Alfândega de Porto Alegre (2007, esgotado) existem alguns raros exemplares disponíveis para aquisição na Estante Virtual (clique aqui), ou ainda, o livro pode ser baixados gratuitamente em PDF (aqui).


12 de dez de 2015

A mídia que manipula e o potencial corretivo dos comentários dos leitores

Não acredito que nos cursos de jornalismo ensinem algumas das práticas que acompanhamos na imprensa reacionária brasileira da atualidade. Tampouco acho que seja coincidência fortuita ou intenção má de algum diagramador dado a esquizofrenias subliminares. Deve haver alguma explicação sobre o porquê disso ocorrer, seja diretriz das redações ou quaisquer outros interesses escusos de classes superiores. Temos visto vários exemplos repassados nas redes sociais de notícias dadas de maneira distorcida conforme a origem social ou filiação partidária do noticiado. A cobertura dos movimentos de ocupação de escolas em protesto ao plano educacional paulista que fecharia quase uma centena de unidades escolares é o exemplo mais recente.
É notória, também, a paranoia persecutória à presidente da República e seu antecessor, promovida por tais veículos. E não me refiro às patéticas investidas de certos colunistas coléricos de páginas amarelas, mas a outro tipo de manipulação ao rés do chão. Quando da prisão de Delcídio do Amaral, vimos página ilustrada com fotografia do ex-presidente, mencionando que ele teria feito críticas ao senador petista preso. Só isso. E na imagem, um amargurado Lula dando tchauzinho ao eleitorado. Coincidência? Não pode ser. E não é de agora. Em outra folha, de 2013, lia-se que um auditor preso dizia que o prefeito de São Paulo sabia de tudo sobre a Máfia do ISS. Ao lado, uma fotografia grande mostrava o atual administrador da maior metrópole brasileira, Fernando Haddad (PT). Sua cara na foto era de tacho. O detalhe é que o político citado no tal texto era o Gilberto Kassab (ex-prefeito – PSD). Abaixo da imagem de Haddad, havia artigo sobre ele, mas com título bem menor, forçando o leitor a associar sua imagem com a manchete lateral em garrafais tipográficos. Não vou tratar aqui da chamada governabilidade que levou Kassab a ser ministro de Dilma por não ser objetivo desse texto. E os exemplos destas diagramações duvidosas ou manchetes com duplo sentido não faltam. Só podemos entendê-las como uma prática sem ética e altamente questionável desses profissionais. Nenhum jornalista deveria se prestar a um papel desses. A história revelará suas falácias e até como foram mesmo eles manipulados ao criar tais instrumentos.




Por outro lado, se a mídia conservadora e tradicional do país especializa-se em manobras de massa, forma-se uma imprensa alternativa e livre do cabresto cultural e jugo do capital que impregna nossos meios. Por fontes alternativas alcançamos contrapontos e muitas informações nos chegam pelas redes sociais, quer por compartilhamento de textos de blogues ou especulações escarafunchadas, que por vezes tangenciam o pensamento conspiratório, mas antes de tudo, assinalam uma nova militância que emerge dos quadros de comentários. De defesas ideológicas a canalhice das trolladas, nesse espaço de pé de páginas virtuais ocorre um exercício diário que não tolera por muito tempo as contradições e descabidas tendências citadas anteriormente.
Em geral os comentários são muito produtivos e pertinentes, acrescentando vez ou outra, novas informações e fatos sobre o assunto. Internautas com essas características colecionam dados, estando muitas vezes prontos a embasar suas opiniões. Forma-se, deste modo, um novo tipo de engajamento e consciência que não pode ser tão facilmente controlada e dominada pelos meios tradicionais com que a mídia hegemônica produz e distribui sua (des)informação. É deste contraponto que advém uma energia politizadora que futuramente próximo significará a derrocada dos barões da mídia tradicional.
Claro que neste espaço, alternativo por concepção, jogo para a torcida. Vocês que leem e comentam. E já se conhecem entre si, ainda que por codinomes ou iniciais que lhes garantam o anonimato. Em contrapartida, vale lembrar que ao comentar de forma embasada e com dados em jornais e blogues conservadores, atua-se com um instrumento (onde não há censura) que, apesar de já estar firmado em nosso dia-a-dia, é algo realmente novo e fantástico. Enquanto isso, quando um leitor com maior estreiteza mental vem trollar em um site de esquerda ou crítico, geralmente parte de argumentação com mantra de origem em suas leituras passivas, chegando mesmo a ataques pessoais sem qualquer cabimento. Isso é o que diferencia profundamente as abordagens e marca nossos dias como o iniciais de uma relação dialógica frente aos desgastados donos da verdade. A era de um Lacerda, em seus constantes ataques a Vargas, ou do Roberto Marinho, propagandista do regime militar só se repete na farsa pois já não pode se retroalimentar. Ou seria alimentação retrô? Enfim, comentem a vontade.
Manhãs e tardes melhores virão e a manipulação das informações não prosperará por muito tempo.


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7 de nov de 2015

Dark City autografado na Feira do Livro de Pelotas 2015


Não me preocupei com fotografias. Esta é uma imagem rara. 
Numa trova bárbara com meus camaradas de escrita
James Stahl e Francisco Vidal. Tava bacana.

3 de nov de 2015

Palestra e autógrafos na Feira do Livro de Porto Alegre

Autografei dia 03/11 o livro
História da Administração Tributária do Brasil
e falei sobre o assunto
na Feira do Livro de Porto Alegre.

Grato aos presentes.

Matéria completa aqui:


9 de set de 2015

6º Concurso Histórias de Trabalho da Receita Federal


Projeto do qual participo como servidor público entra em sua 6ª Edição.
Trabalhando pela Memória e pela Educação Fiscal na Receita Federal!!!

27 de jul de 2015

E teria como agradar a todos?


Não se fala de outra coisa. A oposição é um disco arranhado. Crise e roubalheira. Pequenas delações e grandes negócios. Onde está a novidade? E o Ademar de Barros, hein? Roubava, mas fazia? Fazia o quê? Negociatas e caixinhas. E o Maluf? Roubava e não fazia. Detalhes… Diz que o Salim Maluf não está na Lava Jato. Piada pronta: não se sujaria por tão pouco. Macaco Simão deita e rola. Ressurgiu até o ex-presidente impedido. O afilhado da Dinda teria uma coleção de automóveis fruto de desvios. Ele não tinha pedido que não o deixassem só? Então. Que se… defenda! Tudo bem, o Renan já tomou as dores e está questionando o dedurismo da operação. O Cunha, a seu turno, também já avisou que, se for premiado com a delação, vai chutar a bacia do Congresso. É o que faz de melhor, aliás.

O que exaure a boniteza da gente é que se têm usado todas as denúncias e investigações sempre para um único propósito: atacar a presidenta eleita. E não há qualquer contraponto elogioso ou algo positivo. Para alguns segmentos e para a imprensa que os representa, o governo não acerta em absolutamente nada. É impossível agradar a todos o tempo todo. Ok, mas tal intolerância é tola e estúpida. De quebra ainda respinga em qualquer um que arrisque defender qualquer ponto potencialmente positivo do governo. Gregório Duvivier foi preciso dia desses ao escrever: “você coloca um avatar coloridinho, aí não pode porque tem gente passando fome. Aí o governo faz um programa pras pessoas não passarem mais fome, e aí não pode porque é sustentar vagabundo…” Assim não dá pra ser feliz, lembrei do Fagner.

É como se todo o universo, desde o Big Bang, convergisse para os erros do PT. Ver a contemporaneidade como o fim de um processo de corrupção em que tudo e todos são sempre culpados é de um reducionismo que tangencia o patético. Põe qualquer Fukuyama no chinelo. Que é? O fim da história com o petismo? O ator Paulo Betti, que saiu em apoio à presidenta esta semana, lembrou que o óbvio ululante precisa ser dito de vez em quando – ”Deixa a pessoa trabalhar.” Quando vi sua foto com a Dilma, brinquei no face que o Capitão Lamarca veio dar início à revolução bolivariana no Brasil. Alguns gostaram. Outros, não.

Qualquer medida de cortes ou ajustes geram brados nada gentis sobre a Pátria Educadora. Nunca se vê no noticiário nacional um comparativo sobre as universidades criadas, por exemplo, na era dos Fernandos ou sobre o aumento do acesso ao nível superior. As cotas… Deus o livre. Melhor nem falar.

Se bobear bergamota descascada de bandeja é coisa do Lula.

Temos que estudar mais e mais a história para entender o que estamos vivendo atualmente, tentando minorar os danos, sem nunca negar ou mesmo retroceder nos avanços até então conquistados. Quaisquer reações às mazelas político-administrativas arraigadas, diga-se de passagem, nos três poderes e em todos os entes da federação, que propugnem passos atrás no desenvolvimento social e cidadão, devem ser vistas como desejo redundante das coisas como já foram e não como poderiam vir a ser. O que vemos hoje no país é uma reação enérgica e incansável dos grupos que querem voltar ao poder, contra um projeto de cidadania e inclusão social.

Conservadores sêniores ou reacinhas trainees servem a tais propósitos, reproduzindo asneirices como: o impeachment, Estado religioso, armamento do cidadão, justiça pelas próprias mãos, pena de morte, humanos direitos para direitos humanos, intervenção militar e outros disparates que ninguém deveria ter coragem de propagar em bom som. Se uma pessoa amarrada a um poste e morta agradar à maioria será essa nossa opção? A da barbárie? Tudo isso aponta senão a uma marcha de retrocessos e selvageria e não um caminho para um país melhor. É um vinil riscado que nos faz andar em círculos sem sair do lugar. Fadamos à repetição dos erros, é isso? Crise e roubalheira ou retrocesso?

A crise é do sistema capitalista. Atinge gregos e ucranianos e apenas começou. E para superar as desigualdades do sistema talvez seja preciso admitir que não será possível agradar a todos. Signifique antes uma oportunidade para avançar no que sempre nos foi carência (justiça, cidadania e igualdade) e para lutar contra o que nos deveria ter sido, desde há muito, tido por retrógrado (corrupção, alienação e concentração de renda).

Ser contra a roubalheira e a corrupção é o mínimo esperado e o desejável a todas as gentes. Só não é contra quem for corrupto ou corruptor. E vale repisar que muitos desses que alardeiam moral política, no seu dia a dia são pequenos corruptores, sonegadores e infratores herdeiros do jeitinho luso-brasileiro.

Também teve, nesta semana, seus quinze minutos de fúria, a atriz que precisou recolher tributo sobre notebook (ou o que seja) não declarado à Alfândega. Não acompanhei o caso no detalhe, nem perderia meu tempo, mas imagino que das duas uma. Ou o equipamento era novo de modo a não deixar dúvida sobre sua aquisição recente no exterior ou ainda que com evidências de uso, não pode comprovar sua entrada legal no país em momento anterior. Aí veio o esperneio da moça. Não se agradou. Se passasse sem qualquer fiscalização, talvez ela própria ou alguém chamasse a Receita Federal de omissa. No país dito da propina e da negociata, quando é cumprido o dever por um servidor público, a denúncia passa a ser de excesso do Fisco.

Enfim, nem os cobradores de impostos da época de Cristo agradaram a todos.

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24 de jan de 2015

Reflexão pé no chão


Caretinha do Chico Anísio com as legítimas. Por óbvio,  no 
texto, originalmente publicado no jornal, não menciono marca.


Depois de um par de dias sem escrever, tô na área. Precisava reciclar algumas ideias. Não tirei férias. Foi recesso dos excessos. Ainda não pendurei o chinelo, viu? Aliás, literalmente, lavei o meu velho "de dedo". Verdade. Tenho um daqueles exemplares clássicos que não soltam a tira, não deformam etc. Não vou citar a marca pra não fazer merchandising. Existe isso? Será que se eu citasse a grife, mandariam um pisantezinho colorido de brinde? Não. Tô sabendo.

Dá nada. Ano novo. Retórica nova. Em 2014 alguns leitores me chinelearam, pois andei falando muito de política. Prometo voltar à velha verve pé no chão. Aceitem meu selo de autenticidade de mim mesmo. As legítimas crônicas retrô estão de volta. Engraçadinhas. Inocentes. Azul no branco. Igual as minhas chinelas. Nem mais nem menos: 39-40. Nem lancha, nem do que se possa queixar. Mas que estavam sujas, estavam. Encardidas, diria. Cena de Sebastião Salgado. Em cada tela, uma pegada monocromática estampada. Sudário profano. Taquei na quiboa. Quiboa pode dizer? Pois bem. Tá lá. Secando ao lado do tanque. Ficou uma lindeza. Novinho em folha. Offset não reciclado. Papel aceita qualquer coisa... Parágrafos de pé trocado. Ah, os bons e velhos trocadilhos infames. Piadas aos bordões. Saudade do Chico Anísio dos anos 70. Chico City. Não quero arrastar a sandália pra tendência alguma. Muito chato ser fiscal de ideias. Vendedor de ideologias. Cada um sabe onde não lhe aperta o reclame.

Estamos entrando numa era muito, muito difícil de calçar. Somos cinderelos chinelões. A politicagem correta vestiu a carapuça. Gerou-se o metapoliticamente correto. Impossível dialogar. E quem poderá se opor? Vide as últimas notícias planetárias. Tudo muito rápido. Fundamentalistas executaram a redação do semanário satírico francês. Os caras pegaram no pé dos muçulmanos e a coisa acabou como sabemos. Ou não. Quem sabe? A direita mundial clamou por justiça, criando um sentimento extremamente antiextremista em que a fobia islamofóbica meteu o terror. Je suis Charlie, foi a lição repetida em nome da liberdade de expressão. Quando achei que tava entendendo, li a metacrítica Je ne suis pas Charlie, em linhas apócrifas do Leonardo Boff, que depois deu o crédito ao verdadeiro autor, que não gravei o nome. A seguir, foi a vez de Slavo Žižek apontar que a culpa autoimposta pela esquerda internacional também alimenta o explosivo fundamentalismo. Evocou, para tanto, uma percepção de Nietzsche sobre como a civilização ocidental se move para o que chamou de o último homem, ou seja, uma "criatura apática com nenhuma grande paixão ou comprometimento". Na releitura do filósofo achei antes uma esperança do que uma denúncia. Talvez nada nos reste senão esta incapacidade de sonhar que não assuma risco algum, buscando apenas o conforto e a segurança enquanto expressão máxima da tolerância. Talvez só falando de chinelo mesmo descubramos a mais autêntica e rasteira felicidade universal.


13 de dez de 2014

Machismo, ninguém merece!

Frida can do it!

Já tô com a capa de chuva no corpo. Vou me molhar, certo. Talvez seja necessário. E ao seguir por estas linhas talvez respingue em você também, leitorx. O machismo permanece viril na mente dos brasileiros. De homens e mulheres com H. Deviam mudar para marchismo. É marcha lenta. Arrastamos as sandálias hippies, reproduzindo comportamentos que entravam a caminhada pela igualdade de gênero. O mercado de trabalho segue desparelho. Em casa, reina a disputa por quem manda e desmanda. Lavar a louça, cozinhar, cuidar dos filhos, passar uma roupa deixou de ser obrigação exclusivamente feminina. Aí entra a diarista, mulher, salvadora. Das Amélias sem qualquer vaidade e do gauchaço que chama a mulher de redomão não vou tratar. Aliás, que vão se tratar! Para os extremos tá aí a Maria da Penha. Aos que se julgam esclarecidos, ofereço carona na sombrinha deste texto. Posso dizer sombrinha ou vai afetar a masculinidade de alguém? A questão aqui é enfrentar o preconceito desde dentro. Da casa suja. Da alma deslavada. 
As circunstâncias mostram-se complexas e muitos de nós, namorados, maridos, companheiros, diabo a quatro sequer sabemos agir em situações paradoxais. E se a mulher põe uma roupinha mais, como dizer? Sensual. O que fazer? Mandar que se troque? Machismo! Por outra mão, e se nada disser? - Indaga-se o macho pseudoconsciente. E aí pira. Algum machista convicto outhere  pode soltar um gracejo às belezas da prenda, embaraçando a todos seus antepassados, contemporâneos, até a quarta e quinta geração. E aqui derrapa de novo na poça do machismo. E quem disse que temos que fazer algo? Acaso as mulheres não sabem se defender se forem assediadas ou desrespeitadas? Há que se ter bom senso, de ambas as partes para entender que se está do mesmo lado da calçada buscando escapar do lodo que salta dos carros. 
A monogamia é outro papo, desde que pacto mútuo e não imposta à bala. Claro que aos solteiros e bígamos as condições serão outras e nada contra os que assim vivem, embora eu prefira pessoalmente a relação 2D. Tudo isto tem vindo à mente não apenas pelos desafios da convivência, como por uma série de debates e textos que têm aparecido sobre o assunto. Não tenho legitimidade para falar em nome do feminismo. Querendo ou não, faço parte do grupo opressor, mesmo na contramão. O cartunista Latuff, que fez uma charge criticando os excessos feministas, acabou se retratando pela generalização desautorizada que fez. Não há argumento de misandria suficiente para tanto.  Lélia Almeida publicou excelente texto, O que querem as mulheres?
A temática, contudo, desabou com força nesta semana pela tormentosa declaração do deputado Bolsonaro para a ex-ministra dos Direitos Humanos, deputada Maria do Rosário, de que não a estuprava porque ela não seria merecedora disso. Ou seja, a desqualificou para um estupro, como se alguém fosse merecedor. É de um retrocesso extremo! Aqui no RS, a coisa não vai tão melhor. O futuro governador Sartori apontou intenção de extinguir a Secretaria de Políticas para Mulheres, passando a área ao gabinete da primeira dama. Reavalie já suas práticas pessoais. Chega de relaxar e aproveitar. Com chuvas e trovoadas saíamos pra nos molhar porque não dá mais para esperar o dia nascer cor de rosa. 




7 de dez de 2014

A era das incertezas

Uma das coisas de que estou quase certo é que o brasileiro não tem certeza de coisa alguma. Não sabe se dança na corda bamba ou se cai como um viaduto. Se é bêbado ou equilibrista. Não sabe se dá ou pede pra descer. Se assobia cana ou chupa o hino nacional. Digo isto também com o pé no chão da dúvida. E alguém me avisou pra pisar neste chão devagarinho. Eta povinho pra gostar dum cima de muro. Tudo tem dois lados. Ou mais. Fica difícil reconhecer-se e, ainda pior, identificar o outro e seus direitos. O vício emocional é antigo. Advém de nossas origens mais remotas. Coloniais, ora pois. Sequer decidimos se o Brasil foi descoberto ou achado pelos portugueses. Ou seja, a coisa já começou mal. A relação com os nativos da terra, ainda nos primeiros anos, fundava-se em uma dualidade de amor e ódio. Isto, claro sem deixar de levar em conta suas especifidades culturais, que nos fazem pensar sobre a impropriedade talvez cometida ao chamá-los de índios, com uma unidade quiçá inexistente. 
Em 1808 a grande família veio para o Brasil. Sempre lembro do Nanini e da Marieta no filme da Camurati. Se foi fuga ou estratégia militar contra as tropas de Napoleão ainda não fomos capazes de decidir. Há quem considere a vinda da corte e seu aparato burocrático como a verdadeira independência do Brasil. Que nada! Tratava-se da Metrópole na Colônia. A montanha foi a Maomé. Confusão total. Depois veio a Independência de fato (ou de direito?), de pai pra filho. Um português libertador dos portugueses. Só que não. Bem diferente de Simón Bolívar, o libertador da Venezuela e da Colômbia, que originou o impropério “bolivariano”, tão repetido recentemente pela mídia e e pelos neo-udenistas. Mal empregado, portanto, posto que ao se desejar associação com o comunismo erram feio, pois Bolívar, a despeito dos ideais progressistas, era um liberal. Naquela época, aliás, o socialismo nem era utópico. O Brasil tampouco se resolvia liberal ou conservador, até que o imperador abdicou em favor de seu ainda imberbe infante. No meio do caminho havia outro Pedro. De revoltas regenciais à Guerra do Paraguai, as incertezas levavam as honrarias. A República já começou velha. Café com leite. Café com leite? Chimarrão foi a resposta na “revolução” burguesa de 30. E as intentonas, comunista ou integralista? Eixo ou aliados? Vargas escolheu os dois. Na dúvida, a vida e a história. E assim seguimos sempre unânimes nesta síntese de incertezas. Catolicismo ou candomblé? Protestantismo ou Espiritismo? Tudo junto reunido. O brasileiro quer tudo. De Carmem Miranda ao south american way. Ai, ai. Ai, ai. Parlamentarismo ou presidencialismo? Legalidade ou golpe? Marcha com a família ou com o sem-terra? MDB ou Arena? Sim ou sim, senhor?  
Isto tudo fica ainda mais claro no cenário político atual. Vota-se na esquerda para ter um governo de possibilidades ao centro. Usa-se a democracia para pedir intervenção militar. Reclama-se por mudanças ao bispo, a Deus e a todo mundo. Exige-se o direito de mandar qualquer um pra Cuba. Mais do que a era da intolerância, vivemos a era das incertezas no Brasil.


2 de nov de 2014

Poesia no Bar e no Café

Começou a Feira do Livro de Pelotas. Pra valer. De volta ao coração da praça. Sem cara de peixe morto. Ano passado foi... estranho. Não quero ser injusto, claro que nos divertimos, mas... fica bem melhor assim. Mais viva. Pulsante. A feira tem suas artérias nos caminhos da praça, com o vai e vem dos leitores. O DNA das letras contorcendo-se em linhas espiraladas dentro das bolsas plásticas, ávidos por cumprir sua missão: disseminar o conhecimento, combinando informação com arte e entretenimento.

Marina Mara declamando para Drummond
A programação este ano está superbacana. E começou bem com um Sarau em café com estilo parisiense, aliás um café vegano (vendamos nosso não-peixe). Declame para Drummond foi o tema que conduziu este sarau do projeto Poesia no Bar, integrando-se não apenas à feira do livro, mas a um lance maior ainda que ocorre em diversas cidades do Brasil e mesmo fora do país, criado pela poeta Marina Mara de Brasília. O Declame para Drummond nasceu em 2010, mesma época do Poesia no Bar, tornando ainda mais interessante esta união de projetos. Originalmente ocorria em Copacabana junto à estátua do poeta. Desde lá ocupou outras cidades como São Paulo, Brasília e agora Pelotas. No meio do caminho havia um poema... E dos versos lidos por Daniel Moreira, Álvaro Barcelos, Ediane Oliveira, Junelise Martino, Renata Wotter, entre outros, escritos por Drummond ou lidos para ele, a poesia alcançou outra dimensão. A proposta ganha projeção com poemas impressos em formato de cartões, além da integração via redes sociais. 

Quando vim para Pelotas em 2009 até gostei da feira daquele ano, mas sentia que faltava aquele algo a mais que apenas o comércio de livros. Claro que não sou contra a venda, sempre é bom avisar, pois nos últimos dias qualquer coisa antiliberalismo que se fale corre-se o risco de ser mandado morar em Cuba. Contudo, faltava pensamento na feira. Ah, faltava. Faltava diálogo com os autores, professores, poetas. Faltavam oficinas. Mesas e saraus. Este panorama, entretanto, vem mudando a olhos (e ouvidos) vistos. Cada vez mais há diversas atrações que tornam a experiência da leitura e da escrita muito mais viva e produtiva.

Fiquemos atentos à programação da feira, muitas ideias e pensamentos circularão o chafariz. Beba dessa fonte. Nem tudo é comércio. Selecionar o que vai comprar é evitar best-sellers caça-níqueis. Falo sem outras intenções, pois não tenho lançamento na feira deste ano. Escolha com inteligência suas leituras. Parece papinho político e talvez até seja. Nossas leituras influenciam em nossa visão de mundo e no que esperamos construir enquanto seres humanos em constante formação.

Pode ter mil tons de cinza, se não tiver poética, não se deixe enganar. Pode ser o número um na lista de revistas de página amarela. Se não tiver verdade, não se deixe levar. Lembre-se de ler a literatura brasileira. Latino-americana. Ah, e claro os autores locais. Dê um credito aos livros de história. Sociologia. Filosofia. Muitos dos disparates que acompanhamos nesta semana nas redes sociais advêm da pouca leitura de nosso... eleitorado. 


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1 de nov de 2014

Das análises e das surpresas, nem sempre agradáveis

O mais estarrecedor de se pensar a vida e o mundo em seus mais variados aspectos, autosuplício a que se submete o cronista, algo que beira ao complexo de Zeus (ou de Lúcifer) é a possibilidade que temos da surpresa. Essa total falta de onisciência. O mundo é imponderável. Às vezes acertamos em nossas avaliações, noutras não chegamos nem perto. E não raro a coisa beira à desgraça. De qualquer forma é como aprendemos. Tá aí um bom início para a crônica desta semana...

Entretanto, estava devendo aqui os textos das duas últimas semanas. 
A seguir a crônica que antecedeu o segundo turno das eleições, publicada no Diário Popular.
Sinceramente eu não imaginava que duas semanas depois estaríamos discutindo com os setores mais reacionários e xenófobos das sociedade brasileira porque estariam clamando por intervenção militar. 

Surpresas melhores nos aguardem no futuro.

Eis o texto, para registro neste blog, que é meu Lattes.


Finaleira eleitoral e depois?

Saideira das eleições mais agitadas dos últimos anos na semana que finda. Muitos estão certos do resultado que nos espera no domingo. Tendo em vista as surpresas do primeiro turno tanto lá, quanto aqui, eu não arriscaria qualquer prognóstico categórico. Não seria prudente e talvez nem pertinente a estas baixezas do campeonato. Fazer agora defesas ensandecidas não angariaria um voto sequer para qualquer candidato. Pesquisas não devem ser levadas em conta, tampouco. Sempre achei que servem mais de berrante para conduzir o voto bovino do que de instrumento legítimo de aferição, veja bem, do instrumento legítimo de aferição chamado voto. Talvez o último debate logo mais ainda ajude, sem consequências maiores, algum indeciso a tomar partido. Muitos de coração partido, lembrando Cazuza.

Segunda-feira será amarga para uma parte do eleitorado. Em um mês no máximo sara e a partir de janeiro começam as novas administrações. As redes sociais virarão a página. Fotos de gatinhos brincando com pintinhos ganharão curtidas mil. A polarização que atingiu em cheio os relacionamentos virtuais serão esquecidas. Eu fiz uma limpa no face. Foi tri bom, embora um erro. Nos últimos dias praticamente cessaram as contestações. A sensação passou a ser de que escrevíamos uns para os outros de mesma posição política. Separamo-nos em torcidas e nos isolamos. Cindimos o ciberespaço. Por outro lado, isto é justamente o que define o conceito de partido político, um grupo associado que representa uma parte da sociedade. Aliás, não se deve prescindir dos partidos. Nem sou louco de sugerir filiação de carteirinha. Nunca o fiz, embora tenha militado com bandeira de pano em punho. Mas o discurso apartidário que muitos adotaram, inclusive com reflexo nas campanhas (pasmo), não leva senão à alienação de projetos e ideologias partidárias. Entenda-se ideologia aqui como um conjunto de ideias e proposições, o chamado programa de governo, que também muitos ficaram devendo nesta eleição. Acho que errou o Sartori com o slogan "meu partido é o Rio Grande", assim como errou Tarso que, no início do segundo turno, excluiu a estrela do PT das propagandas. O argumento de que se vota na pessoa e não no partido tampouco funciona. Olívio e Ana Amélia perderam assim. O que levou o Senador Lasier (ai, ai) a vencer foi um misto de voto pessoal ao comunicador com o ranço antipetista, portanto um posicionamento partidário, às avessas claro. Importaria então no exercício pleno da cidadania que se escolhesse o projeto que deseja e não simplesmente ser do contra.

Uma coisa que ficou clara e que une todas as demandas do eleitor é o desejo de mudança. Muda ou muda mais, mostra que as pessoas querem melhorias. Excetuando os liberais ilustrados, para quem mudança significa crescimento econômico acima de tudo, gerando lucros e especulação financeira, entendo que quem deseja mudança queira serviços públicos de qualidade e bem-estar. Mais educação, cultura, saúde, justiça social, emprego etc. E é isso que deverá ser cobrado com energia e organização a partir da posse dos novos governantes. Mas antes teremos que aprender a debater a política de modo civilizado e constante e não somente nas eleições para que possamos saber o que exigir dos chefes de Estado.


17 de out de 2014

Pra não dizer que eu não falei de... salsichas



Olho para um lado, para o outro. Para frente, para trás. Estou em busca de outro assunto. Flores, citações, música. Paul McCartney tá vindo de novo ao Brasil, sabia? Qualquer coisa serve. O brasileirão... Que chuvarada ontem, né? Não tem jeito. Não consigo tratar de outro tema. As eleições estão às portas. Estaremos apontando com o dedo na urna os caminhos do Brasil, não apenas nos próximos quatro anos, pois políticas administrativas econômicas, fiscais, educacionais, sociais têm efeitos mais duradouros que os novos mandatos. Preciso ser forte. Nada de proselitismos políticos. O cronista Xico Sá foi "saído" da Folha por manifestar seu voto em um texto que acabou censurado (pode isso, Arnaldo?), diz que pode e a regra é clara naquele jornal. Óbvio que nesta página de opinião aqui, é outro papo. Aliás, ofereceu-se que publicasse a tal crônica vetada em espaço correlato daquele periódico, o que negou, considerando território de forasteiros.

Bueno, tangenciando logo o assunto, uma das questões que tem chamado minha atenção nos debates é a percepção do tempo pelos candidatos. Não me refiro às condições meteorológicas tão assíduas nos colóquios de elevador. Falo sobre o tratamento dado ao contínuo temporal entre um instante e outro. Sobre passado, presente e futuro.

A ideia propugnada por certos presidenciáveis e mesmo a pretendentes ao governo dos estados, de que não se deva olhar para o passado, somente para o futuro, é muito simplória ou até oportunista. O processo histórico deve ser constantemente revisitado, não apenas a partir das memórias pessoais, mas por meio da busca da informação e do estudo. Isto permite compreender melhor o presente, tornando mais embasadas as escolhas para o futuro. A biografia dos candidatos, assim como o legado de seus partidos, quando no exercício do poder em outras gestões, devem ser objeto de exame como se fossem um currículo para uma vaga de emprego. Prometer uma chuva de rosas é fácil. Olhar o espinho de caminhadas passadas no garrão é que são outras léguas submarinas. Vixi, cada metáfora. Debaixo do bem e do mal, nem tudo são flores.

Note que mesmo nos debates, no curtíssimo prazo, percebem-se dificuldades temporais. Os concorrentes no transcorrer de suas argumentações não sabem administrar o tempo estipulado pelos organizadores. Como não entendem que têm até xis minutos para fazer sua pergunta, acabam inserindo comentários durante o questionamento, muitas vezes sobrando pouco tempo para a indagação em si. Isso quando não resta de tal forma truncada, que não permita uma resposta coerente. Em contrapartida, a fim de rebater às diversas provocações que vêm embutidas na questão, acabam saindo, estrategicamente ou não, do assunto indagado. Aproveito a oportunidade, inclusive, para dizer que eu não gosto muito do termo embutido, porque lembra salsicha e tem aquela frase atribuída ao unificador alemão, Otto von Bismarck, que teria dito (tanto faz) que se soubéssemos como são feitas as leis (leia-se política) e as salsichas, não as engoliríamos. E, leitor, faz mais de três anos que eu só como salsicha de soja, o que pode ser facilmente verificado. Por fim, tenho os dados aqui, de acordo com Sir James Paul McCartney, se os abatedouros tivessem paredes de vidro, todos seriam vegetarianos. Chove amanhã?

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12 de out de 2014

Sobre política e redes sociais



Primeiros dias logo após o primeiro turno das eleições e já estamos cansados. Cansados de pelear com teclas e saliva. Que atire a primeira palavra quem não se estafou nesta semana. Amizades desfeitas nas redes sociais dia e noite. Narizes torcidos no trabalho, na vizinhança, no café, no boteco. Acontece que não estamos acostumados a debater. Tudo vira contenda pessoal. O cidadão brasileiro não sabe discutir suas preferências políticas, partidárias, religiosas, sexuais e desportivas.

Outro dia um leitor me escreveu dizendo que gostava dos meus textos, mas esse negócio de se meter em política não dava certo. Logo explanou porque discordava de minhas convicções, apresentando as suas. Trocamos algumas impressões por e-mail (nada fácil para ambos) e o respeito foi mantido. Nem todos, contudo, atêm-se às ideias. Partem logo para o ataque direto à pessoa. O cronista passa seguidamente por isso e deixe-me fazer um parêntese para explicar uma coisa. Isso que escrevo aqui não é jornalismo. Tampouco se pretende impessoal. É uma colaboração assinada em um espaço de opinião de um jornal. Se acharem panfletário, paciência. Sim, é minha apreciação. Você pode escrever a sua e publicar também neste ou em outro veículo que a aceite. Por outro lado, enquanto leitor, poderá concordar ou não. É um exercício de reflexão que deve multiplicar-se por meio de argumentos variados, firmando ou alterando convicções.




Voltando ao ponto desta análise, o mesmo ocorre nas redes sociais. As pessoas parecem não saber ouvir (ou ler) o outro, sem armar punhos imediatamente no ringue para atacar seus interlocutores, em vez de promover o embate exclusivo das ideias.

Neste segundo turno esta será a tônica dos debates, não apenas entre os eleitores como entre os políticos. E as consciências vão à lona por exaustão. Factóides e acusações aparecerão a torto e a direito para desqualificar oponentes, quando o que deveriam ser revisados com atenção são os projetos de governo. Com a saída da Marina, voltou-se à polarização, com um radicalismo não forçosamente apaixonado, estando mais para destemperado. Na disputa pela presidência, revive-se a guerra fria. De um lado, antipetistas e tucanos; de outro, petistas e petistas. Quando ocorre assim, o debate fica empobrecido, justamente porque nos falta experiência neste campo. Caberia ao próprio Estado talvez fomentar o pensamento político (lato senso) nas escolas, fóruns participativos, agremiações e comunidades. O universo em desencanto com a política e com os partidos só colaboram com a redundante despolitização, que gera mais descalabros administrativos e corrupção e, por conseguinte, maior insatisfação popular. Vide o esvaziamento das propostas advindas das manifestações de rua de 2013. Como muitos se disseram apartidários, tão logo voltaram às suas casas, não acharam mais um fórum coeso em que pudessem se organizar para uma cobrança continuada e persistente de suas reivindicações (supostamente) cidadãs ao governo. As redes sociais, por enquanto, parecem não serem instrumentos assaz eficientes para o aprimoramento do pensamento político, justamente por essa falta de prática que temos em tolerar as ideias do outro. Por isso talvez ainda ganhe maior disseminação a intolerância e o pensamento retrógrado, tão mais fácil de ser assimilado e que não aceita contraponto baseado na racionalidade e coerência.

Publicado em 10/10/14

10 de out de 2014

Antes do choque

O texto a seguir publiquei às vésperas do desastroso primeiro turno das eleições de 2014. 
A ignorância venceu a esperança. O racismo jogou uma banana no campo da igualdade racial. 
O preconceito estuprou corretivamente a diversidade.
Bolsonaro e Feliciano reeleitos. No RS o deputado mais votado é tudo que não presta.  

A luta apenas começou...
E que o segundo turno nos reserve dias melhores.

Sopros de mudança

Apesar dos pesares está sendo uma eleição empolgante. Alguns ainda dizem que não têm opção. Que vão anular ou apertar a tecla branca. Outros seguem comprando o desgastado e conveniente discurso da culpa exclusiva dos políticos. São ladrões, são sem-vergonhas etc. Se não houver um Salvador da Pátria, não brincam mais. Esse eleitor raramente se vê como partícipe. Como aquele que escolheu (salvo os que nunca elegem seus legítimos representantes por minoria de votos) os membros do Congresso e a chefia no Planalto. Falta maturidade política e ideológica, dizem os especialistas. Mas convenhamos que nunca antes na história deste país se discutiu tanto sobre política. Talvez nem 1989 com Collor, Lula, o velhinho das Diretas, o homem do cavalo branco e o resto da tropa. Eram outros tempos, ainda cheirando a chumbo e mais suscetíveis à manipulação televisiva que governava com os militares desde 1964. Desde lá as coisas vêm mudando.
Atualmente temos acesso à informação pela internet e redes sociais e os debates alcançam as ruas. Muitos dos que tinham pânico do Partido dos Trabalhadores ironicamente agora pedem reformas mais contundentes. São contra o assistencialismo.
Claro que sempre resta um ou outro paranoico que acredita que o Brasil vai virar uma Cuba miserável em que as pessoas se lançarão ao mar para não perder a propriedade privada e a religião. Tipo veterano da guerra fria. Fora isso, a demanda popular é por avanços. Marina cresceu desde o velório de Eduardo Campos com o discurso de uma nova política. Segurou a vela no fim do túnel das expectativas por mudança. Sua chama, contudo, não resiste ao menor vento dos anseios reais da população. Até aí, morreu o Neves. O PSDB se quebrou ao propor mudanças de marcha à ré. Dilma encampou a ideia da mudança com a campanha do muda mais. Apesar da antipatia da presidenta, está convencendo. E cá para nós, de político sorridente, Sucupira está cheia. Luciana Genro foi a voz da velha esquerda. Chatonilda total, mas disse muitas verdades e tende a crescer nos próximos pleitos.
Há os que apregoam que não exista mais esquerda ou direita. Talvez seja até melhor pensar por aí, para perder os medos bobos. O brasileiro quer terra para quem quer plantar? Casa própria? Educação gratuita e de qualidade para os seus filhos? Quer médico sem filas ou mensalidades de plano de saúde? Quem não quer isso? Quem não deseja ver o país mudar mais? Então chame do que quiser, de canhotos ou destros, mas procure os candidatos que assim o defendam. Eu sei. Sempre tem gente que discorda. Que não suportaria ser atendido por um dentista negro. Por um médico índio. Que acha que aeroporto virou rodoviária. Que não aguenta ver um casal do mesmo sexo de mãos dadas no cinema. Para esses, só resta o sopro dos ares de mudança no fim do túnel. E quem não quiser ficar com a vela na mão, que busque outras luzes. Bora discutir Foucault! Vamos estudar mais filosofia. Literatura. História. Sociologia. Antropologia.
Apesar de ainda haver tanta desinformação no país, esta semana senti certa esperança. O processo de mudança já iniciou. A religião volta ao leito do seu rio, o do foro íntimo. Maluf caiu fora pela lei da ficha limpa. As irregularidades estão sendo apuradas. As capas da Veja já não convencem. Pensamentos homofóbicos como o do Fidélix, que ainda encontram eco dentro de muitos armários por aí, vão silenciar cedo ou tarde ante o estrondoso barulho da reverberação dos que pensam e defendem o respeito à diversidade. Já não se tolera a intolerância. O Aranha abriu a boca. O jacaré também. O processo histórico é esse. De mudança. E não vai parar. Dias melhores virão.

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26 de set de 2014

45 anos do Abbey Road

Não foi o último disco dos Beatles lançado, mas foi o último encontro em estúdio. O grupo já vinha desorientado desde a morte do empresário Brian Epstein e fez esse derradeiro esforço para cruzar a linha de chegada. O último disco, Let Be foi gravado antes, mas ficou parado um tempo por desentendimentos. Abbey Road, que completou 45 anos nesta sexta (26) foi a verdadeira despedida do quarteto aos fãs.
Álbum mundialmente conhecido, inclusive por sua capa com os quatro cabeludos atravessando uma faixa de segurança. Até hoje as pessoas tiram suas fotos no lugar, fazendo a pose dos Beatles e atrapalhando a contramão dos londrinos. Também paguei esse mico quando lá estive e não tenho desculpas para isso. A gente faz deixa estar! Os significados supostamente ocultos da capa hoje sabemos ser invencionices sensacionalistas. Foi apenas uma foto bem bolada em uma rápida sessão de cliques, que sequer coincidem entre si, pois os carros estavam em movimento, deixando sem sentido as interpretações que deram a cada milímetro do frame escolhido.
 Mas o tal álbum é de fato icônico. As discordâncias foram transformadas em arte pura. John queria rock e o lado A assim foi feito, tendo como carro chefe Come together, cantada por ele. O lado B teve a estética desejada por Paul de um tipo de ópera rock contemplada nos medleys que caracterizam o avesso do bolachão. Come together seria originalmente um jingle político que John compusera para uma campanha do maluco lisérgico Timohty Leary, que acabou não rolando. Abrindo o álbum, a música ganhava novo significado para a última reunião da banda. Se Something, enorme sucesso, não falava explicitamente do grupo, era um acerto de contas também. Foi composta por George Harrison que estava cansado do segundo plano, em que só disputavam beleza a dupla L/M. No outro lado, foi prensado outro de seus grandes sucessos, Here comes the sun. Já a faixa Maxwell´s Silver Hammer tem uma letra ironicamente macabra de Paul, na qual um personagem tem uma marreta de prata e sai por aí destroçando crânios alheios. Metafórica, tem a ver com karma e outras catarses freudnamente explicáveis. 

Em Oh! Darling, Paul esforçou-se para fazer seu melhor vocal. E conseguiu. Foi uma semana de ensaios para chegar à perfeição. Sem querer dar uma de João sem braço, Ringo também quis seu espaço e assinou a bonitinha Octopus´s Garden, no estilo Yellow submarine. As loucuragens do lado B são geniais como Because, faixa em que Ringo não participa e George Martin, o produtor, tocou cravo. Para esta melodia Jonh pediu que Yoko tocasse no piano os acordes de Sonata ao luar de Beethoven ao contrário e veio a (ins)piração. Em You never give me your money, ficam claras as desavenças e chinelices por dinheiro. Destaque-se ainda Polythene Pam, que juntamente com She came in through the bathroom window, remete aos excessos da beatlemania.

Mas as faixas mais reveladoras de que se tratava de uma despedida são as últimas com Carry that weight, confissão de Paul sobre o peso dos últimos momentos do grupo e The end, em que todos se superam, inclusive Ringo, com um solo de 16 segundos. Encerrava-se uma era com a frase and in the end the love you take is equal to the love you make, que vou estragar traduzindo, mas quer dizer, no final o amor que você recebe é igual ao amor que você dá.

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25 de set de 2014

Reforma política no fim do túnel

O choro e o sonho são livres. Alguns acham que é impossível. Devaneio sonhar com uma reforma política de verdade. Entretanto, foi divulgado nesta quarta-feira (24), o resultado do Plebiscito Popular por uma Constituinte Exclusiva e Soberana do Sistema Político. Foram quase oito milhões de participantes, 97% dos quais disseram sim e isso não pode ser ignorado. Não pode porque demonstra a capacidade de organização popular, quer por meio de suas entidades representativas, quer pelas redes sociais.
Não se confunda aqui plebiscito popular com o plebiscito originário do legislativo, como ocorreu para escolher a forma e o sistema de governo em 1993, ou com referendo, como o de 2005 sobre o desarmamento. O plebiscito popular é de iniciativa da sociedade.
Significa dizer que a população quer opinar sobre como deve ser a arquitetura política no país. Quando houve as famosas manifestações de junho de 2013, uma das propostas da presidenta foi justamente que se fizesse um plebiscito constitucional, proposição obviamente boicotada pelo Congresso.
Enquanto não chegamos lá, podemos refletir sobre quais seriam as alternativas para uma reforma política. O primeiro ponto a ser redefinido seria o dos financiamentos de campanhas. É totalmente absurdo o que ocorre hoje. Deveriam ser proibidas doações de quaisquer pessoas, sejam físicas ou jurídicas. A participação do cidadão deve se dar nos debates, na propagação de ideias e na cobrança posterior de seus direitos. Apoiar um partido dando dinheiro parece só ter sentido para quem espera alguma cifra de volta. Os grandes empresários pensam assim. O lucro é sua ideologia. Outro dia li que a média de retorno a uma empreiteira que financia uma campanha é de mais de 8 vezes. A relação é promíscua e interesseira. As grandes construtoras doam para os candidatos (sim no plural) que melhor estão nas pesquisas, com mais chances de vencer. É investimento garantido. Somente o fundo partidário público, infelizmente, deveria ser a fonte dos recursos e em montante bem menor do que temos hoje. Tudo bem fiscalizado e divulgado, como se faz com os servidores públicos no Portal da Transparência.
Os partidos e os candidatos (nem todos, diga-se de passagem) aceitam este jogo porque no atual formato do sistema político só se elege quem faz campanhas milionárias. A estimativa para se eleger um deputado federal ou um senador é de R$ 5 milhões. Para presidente chega-se à exorbitância de R$ 300 milhões. Isto ocorre devido a outro ingrediente deste sopão de absurdos que são as megaproduções publicitárias feitas para a televisão. E aí há outro ponto para a reforma. Deveria haver um cenário único, literalmente uma tribuna padrão, com tempo igual para todos os candidatos exporem suas ideias e programas (de governo) e deu pros cocos. A meu ver, precisavam acabar com as coligações também. Partido já diz. É partido. Se começa a fazer aliança é porque tem interesse. Então se juntem logo e em todo o país. Seriam necessários critérios claros e rigorosos para a criação dos partidos. Uma vez concorrendo, todos teriam o mesmo tempo e meios para fazer suas campanhas. E óbvio, sem pagar às televisões ou dar isenções fiscais pelo espaço. As emissoras são concessões públicas e em época eleitoral disponibilizariam duas horas diárias para um horário eleitoral gratuito de verdade.
Aliás, outra papagaiada que temos atualmente é o fato de que políticos sejam donos de rádio e televisão. É abuso de poder.
Quer mais? Como pode um político largar seu cargo para concorrer a outro? Ridículo. O problema é que não são representantes de fato, mas profissionais da política. É uma opção de carreira, quando deveria ser, acima de tudo, um exercício de cidadania e representação. De serventia pública.
A consulta que se levou a público propõe-se constituinte, quer dizer, busca a formação de uma nova assembleia fora do Congresso, com assaz condições de promover a reforma política por representantes do povo. Não seria, assim, parte interessada, quer beneficiada ou atingida. E aí, lembramos o contrassenso que permite aos parlamentares legislarem sobre o próprio salário, quando poderia ser atrelado ao mínimo.
Sobre este ponto da representatividade no Congresso, os organizadores do plebiscito apresentam alguns dados interessantes: mais de 70% dos parlamentares são fazendeiros e empresários. Somente 9% são mulheres. 8,5% são negros e menos de 3% têm entre menos de 35 anos. Ou seja, entendeu, né? Tá tudo errado, pra usar a expressão popular.
Ainda estamos longe do ideal, mas por ora chega de choro. E enquanto a reforma não chega, vamos sonhando. Gosto de pensar que há uma luz, lá adiante.

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Pesquisa: Luciana Genro e Pastor Everaldo empatados!

Empatados e no segundo turno! Consegue imaginar? Que tal se uma pesquisa apontasse tal resultado? Parece absurdo? Por quê? Quanto mais à esquerda ou à direita estariam dos atuais protagonistas da cena atual? E se fosse o Mauro Iasi e o Levy? O Zé Maria e o Eymael? Peguei logo os extremos no que tange às principais questões que envolvem o debate nacional em torno das eleições deste ano, mas poderia ser qualquer um dos que estão com números baixos nas pesquisas. E aí vem o ponto (de interrogação) que desejo colocar atrás da sua orelha. Fosse real o cenário acima, você mudaria seu voto ainda no primeiro turno? Hã? Hein? É hard responder? Pois não está fácil pra ninguém, meu amigo. 
É difícil porque não estamos acostumados a pensar diferente do que nos dizem para pensar. Se sua resposta for negativa, parabéns! Você está bem resolvido. Se for positiva, confessa aí, demonstra que algo vai muito mal na maneira como votamos. A crítica às pesquisas eleitorais não é novidade. Já o argumento acima, que inverte o raciocínio, foi que me perturbou esta semana. Revela os equívocos cometidos no principal ato de cidadania que praticamos. A sacada foi do jornalista Flaubi Farias em seu site La parola, embora tenha destacado, em seu universo paralelo, o candidato Eduardo Jorge no lugar do missionário. Mas independente da dupla testada, o exercício é totalmente pertinente. Mostra que se a eleição fosse hoje ou depois, a intenção de voto é sempre a mesma: votar com a manada. 
Tentar evitar que o pior ganhe no primeiro turno não é o mesmo que escolher com seriedade quem se pretenda como governante. Caso, após analisados os programas de governo, a linha política, a ética, a fidelidade partidária, a existência de um projeto claro etc, o eleitor veja frustrado seu desejo nas urnas, aí sim, havendo segundo turno busque-se a segunda opção, o menos pior ou se anule o voto. Entretanto, deixar de votar no candidato que mais lhe representa para buscar o voto útil, isto sim é uma inutilidade. Enfraquece o quadro político. Dói, né? Eu sei. Enquanto escrevo tento me convencer também. O fato é que se você for verde, tem candidato. Se for vermelho, também tem. Agora se vai votar no azul ou no laranja porque estão melhor colocados nas pesquisas, está sendo incoerente com seus valores e exercendo mal um direito que foi conquistado a duras penas depois de quase toda a história republicana, marcada por fraudes e ditaduras. Defender as pesquisas é defender um voto de analfabetismo funcional político. É bacharelado com prova de marcar.
Em uma reforma política séria, tão prometida a cada eleição e pouco ou nada cumprida, deveríamos repensar as tais pesquisas. Evitá-las nem se cogita? Feriria a liberdade de expressão, dirão. Entretanto, para que servem afinal se não para conduzir o eleitor para um resultado de unanimidade burra. Quem encomenda as pesquisas e quem paga por elas? O eleitor? Não. Os partidos? Por quê? Para definir estratégias de campanha, esclarecerão os coordenadores de campanha. Então por que não guardam os resultados para si? Empresas que fazem pesquisa de mercado para definir suas táticas divulgam os resultados? Outros se lembrarão da mídia. E qual a sua motivação? Informar ou atender aos interesses dos patrocinadores? O eleitor deveria fazer sua própria pesquisa, mas sem prancheta de cenários pré-definidos. Deveria consultar livremente sua consciência, enquete esta sem margem de erro e com nível máximo de confiança.

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13 de set de 2014

Magia ao luar



Woody Allen é mágico. Sempre me surpreende. Lançando um filme por ano, ele tem alternado os grandes filmes com os meia-bocas. Claro que um filme mediano dele é melhor que o melhor de muita gente. Meia-noite em Paris foi excelente, rendendo Oscar de melhor roteiro.

Depois, Para Roma com amor, trouxe pouca ou nenhuma graça além do quase palíndromo do título em bom português. Até o trailer me pareceu cansativo. Em 2013 foi a vez de tirar da cartola o ótimo Blue Jasmine, que rendeu outra estatueta, de melhor atriz, para Cate Blanchett. Esse ano era a vez do abacaxi, mas não se iluda, o novo filmezinho é bom. Ótima fotografia, figurinos e locações na França. É mais uma de suas produções analógicas que funcionam. Ainda em cartaz, Magia ao luar, quase passa em brancas nuvens se o tomarmos como literal. Conta a história de um mágico, o inglês Stanley Crawford, que no final dos anos 1920 dedica-se a desmascarar médiuns farsantes. Ele é desafiado por um amigo a descobrir a verdade sobre uma bela moça espiritualista que vinha causando com suas previsões e dons paranormais. Rola a paixão e ele vê seu ceticismo ser testado ao limite. Se contar mais do enredo, estrago os truques do filme. Vejamos o protagonista. Em seus espetáculos, o ilusionista (caucasiano, mal-humorado) traveste-se de Wei Ling Soo (um oriental simpático). O personagem teria sido inspirado no americano William Ellsworth Robinson, que adotava o mesmo recurso cênico, vestindo-se como um chinês chamado Chung Ling Soo. Neste complexo jogo de aparências há ainda a referência ao grande Houdini, que assim como Robinson e o protagonista, também desvendava casos de charlatanice mediúnica.

Harry Houdini, 1899
Houdini era húngaro e morreu nos Estados Unidos com 52 anos de idade, com apendicite decorrente
da tentativa de suportar golpes no abdômen. Já Ling Soo (Robinson) era americano e morreu em Londres com 56 anos, executando o truque de apanhar a bala disparada contra o próprio corpo. Contemporâneos sem nunca terem se encontrado (nada achei sobre), trazem ainda a coincidência de um ter morrido no dia do aniversário do outro, 24 de março, o que não tem absolutamente nada a ver, mas, enfim. Houdini foi aconselhado a nunca tentar o mesmo número, havendo indícios que o tenha praticado anos antes.

A ironia de toda essa história foi percebida por Allen como um conjunto de ingredientes para compor sua trama maníaco-existencialista de sempre. Em outros títulos de sua filmografia já apresentara ilusionistas, como no curta Édipo arruinado, em que um mágico faz sua mãe desaparecer do palco e por acidente a coloca no céu sobre Nova York falando sem parar a todos os citadinos. Acaba recebendo a ajuda de uma charlatã para reverter o quadro. Mas a magia deste novo filme talvez ocorra pelo fato de o diretor nos enganar que discuta sobre o ceticismo versus o sobrenatural quando na realidade guarda na manga as cartas de outras metáforas. O filme trataria do que parece ser mas não é. Da hipocrisia de buscarmos desmascarar a fraude alheia com os próprios rostos pintados. De desvendar um truque com outro. Da grande ilusão que é a vida e suas ironias.






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7 de set de 2014

Debater é preciso!

Sabe por que não se discute futebol, política e religião? Porque não sabemos discutir. Não temos a maturidade nacional suficiente para lidar com as diferenças. Ante as diferenças de linhas ideológicas ou filosóficas, prevalecem a intolerância e o dogma. Ante a falta do exercício do debate, o impensável nos pega despreparados. As torcidas organizadas, as alianças e os apoios políticos vendidos, as redes de poder, as verdades e as hipocrisias de muitas religiões surgem como? Nós construímos tudo isso sempre que evitamos o diálogo. Debater é preciso. Não temos como crescer em cidadania amordaçados ante caixinhas de surpresa, de Pandora ou de preciosas promessas.

No campo do imponderável e diante das bizarrices do insondável, começamos a mostrar a falta de diálogo. Os protestos do ano passado esvaziaram-se quando se percebeu que não se sabia a que se vinha. Fomos na onda da torcida. Unanimidade no seu lado do estádio. Aí ficamos chocados quando a realidade se apresenta diferente. Dos 7 a 1 no mundial à Marina (quase) no segundo turno nos vem sempre a mesma indagação: o que foi isso? E não achamos uma resposta fácil. Talvez a resposta seja a mais simples. Foi a velha ilusão do jeitinho brasileiro. Repetem-se sem pensar boatos desse ou daquele candidato com um fanatismo digno de uma torcida organizada ou à beira do fundamentalismo religioso.

Por toda parte se ouve que agora a solução para o Brasil é tirar o PT a qualquer custo. Não interessa quem venha a dirigir o país. A maioria vocifera alucinadamente por mudança, mudança. Não importa no que, tem que mudar. Ilusão do jeitinho. Solução mágica. Educação, segurança e saúde, outros disparam quase como um grito de gol. Querem um presidente capaz de desconcertar os problemas sociais e econômicos com dribles de pernas tortas. Ilusão e jeitinho. Grande parte contenta-se somente em xingar a mãe do juiz. Ladrão! Tem que acabar com a roubalheira. Querem uma madre superior, mãozinhas juntas governando na bondade ingênua de uma terra sem males. O pastor falou e o rebanho diz amém. Quem ousará debater?

Essa de que não se discutem certos assuntos é resquício dos períodos ditatoriais no Brasil, que em sua história republicana terminaram muito recentemente. Ou seja, ainda não aprendemos a debater. Impropérios homofóbicos de Norte a Sul. Racistas, de Sul a Norte. Quem, afinal, estaria com a razão? Técnico, jogadores ou a torcida? Políticos ou eleitores? Quantos de nós entendemos que o outro possa ser diferente? Seja nas concepções filosóficas, religiosas, sexuais ou políticas? Será que não está na hora do brasileiro mudar a si próprio? Quantos de nós analisamos os programas de governo? Quantos conhecemos o histórico dos candidatos? Acompanhamos projetos de parlamentares que elegemos pelo bem comum, sem interesse em ganhar dentadura ou carguinho comissionado? Se temos maus políticos, também temos uma cidadania fraca, mal exercida, imatura.

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05/09/14

17 de ago de 2014

Tanto fez como tanto faz

Ilustração de Andre Kitagawa - http://www.kitagawa.com.br/

Justamente quando estamos mais livres para raciocinar e discutir os mais diversos assuntos, patinamos sem sair do lugar. O politicamente correto foi a maior invenção do conservadorismo. Os assuntos mais obviamente polêmicos perdem-se na fluidez dos deixa-dissos temáticos. O relativismo alcançou um ponto gelatinoso que evita a construção de qualquer novo alicerce e ficaremos no rés do chão.

O surrealismo das situações em que vivemos chega ao ponto de me fazer duvidar de que isso tudo que está aí faça parte de algo que pudesse passar no Jornal Nacional. Só um momento. Deixe eu explicar melhor, porque a essa altura o leitor espera que eu transite de um eufemismo metaforicamente afetado a uma aplicação pé no barro, com uma lição de moral ou uma crítica ácida sobre esse ou aquele aspecto do cotidiano. Não. Hoje não. Aceito de boa a pecha de abobado, alienado, anarquista, apóstata, ateu e todo o Aurélio afora de impropérios. Prefiro isso a posar de dono da verdade. Preciso de férias do real. Voltar a fazer a ficção bissexta sem agendas descartáveis. Universos paralelos podem ser mais lógicos. Quando só escrevia contos talvez até fosse feliz. Nem sabia. Não tenho por que opinar sobre coisa alguma. Tanto fez como tanto faz. Tá tudo na cara mesmo. Quase toda discussão atual esgota-se em si. Nelson Rodrigues que me perdoe, mas cansa fazer essa miscelânea do óbvio ululante chamada crônica.

Casamento entre pessoas de mesmo sexo? Tanto faz. As relações em todas suas formas sempre existiram. Não entendo por que tanta polêmica. Tudo é feio ou errado. Aborto? Ocorre diariamente. Bebês, no lixo. Fetos, no esgoto. E acompanhamento médico é que está errado? Agulha de tricô no útero dos outros é refresco? A pílula nossa de cada dia (ou do dia seguinte) mata almas?

E a legalização da maconha? Que viagem! Quem não fumou nos anos 70, 80 ou 2000 provavelmente nunca teve problemas com quem fumou. Te liga, mano! E se vai jogar a primeira pedra sai de baixo que meu telhado é de vidro. Tô fora! O comércio da erva continuará, legalizado ou não. Tanto faz. E a esquerda, que falhando na execução de seus postulados mais inadiáveis, alimenta a ira dos reaças, impulsionando uma nova esquerda? Não é evidente? Eu que não vou jogar pra torcida.

Quer outra obviedade esparrenta? Nenhuma das religiões professadas no mundo foi capaz de oferecer um deus perfeito, que não tenha sido mal criado pelos homens. Em todas as culturas de todos os tempos, as divindades estão inseridas no contexto de sua época. Mas sempre se acha que o nosso tempo é diferente. Sabemos a verdadeira verdade. Deus nos livre do contemporaneocentrismo. Estamos cegos.

E a Ciência? Eureca! Rá, glu-glu! Não sabemos nada! De onde viemos? Com tantos testes em animais sequer temos a cura pra gripe, pro câncer ou pra calvície. E por falar em flores, até quando vamos criar seres sencientes pra comer ou fazer sabão? Ou se aceita que a carnificina de nossos antepassados cabeludos evoluiu para uma opção cultural ao sapientíssimo glutão, ou voltemos a caçar na dentada, bons selvagens que somos, carecas de tanto pensar nas mesmas coisas. É isso! Vou escrever um romance. Fui e tanto faz.

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1 de ago de 2014

Tempestade ameixa

É tanta coisa louca nesse mundo. Nem sei o que dizer ou escrever. Talvez devesse provocar um brainstorm individual ou um bate-bola mental pra buscar algo inédito. Meu cérebro tá atrofiando. Virou uma ameixa seca. Assim passado. Cansado daquela velha opinião formada sobre ter uma metamorfose ambulante sobre tudo. Eu não uso óculos escuro. Nem colírio. Cansa a vista. Nunca tive vocação pra dono da verdade. No jogo da consequência, fico no meio do campo, vendo os donos da bola partirem. Sou o bobo na colina com sorriso tolo que nunca mostra sentimentos. E o mundo véio girando.
Estou triste, tão triste tipo Caetano cantando aquela música no Guarany, sob uma luz fria, sobre porque existe o que quer que seja. And always have the blues, a little. E outro parquinho de não diversões foi pelos ares em Gaza. É a glória do amor. Tudo tão longe. E por aqui, tão perto, alguns presos pegos postando no face que sentiam saudades de seus filhos e mães. Isso é muito triste e será que existe uma razão pra deixar sentimentos presos? A pena é a pior das penas.
Aqui se faz e se paga pelo quê? Alguém sempre partindo. A luz ainda está acesa? O Suassuna foi ter com Nossa Senhora e com Jesus negão. Talvez eu desista de dizer tudo o que nunca disse antes. Sinto o peito vazio. Será mesmo que podemos ser perdoados? Nem sei o que dizer. Vai passar. Toda tempestade passa.



Ping-pong:
Uma música? Fool on the hill.
Comida? Qualquer uma. Nada de origem animal.
Um artista? Toulouse-Lautrec, que nem sei quem sou.
Um livro? Em busca do tempo perdido, de Proust.
Leu? Não.
Blues ou jazz? Depende... Os dois. Mississipi e New Orleans.
Um filme? Annie Hall, sem pipocas.
Bossa nova? É foda!
Filhos? Claro. Por que não tê-los?
Educação? Rubem Alves. Agora vai propor reforma de ensino aos anjos caídos e talvez volte para mais algumas palestras.
Reencarnação? Hoje não. Seria demasiadamente humano seguir errando. Digo, eu queria reencarnar no passado. No pós-guerra e ser de maior no maio de 68. E tardes e noites esperando um sinal de que dias melhores viriam.
Cão ou gato? Pra apartamento, melhor gato.
Cor? Álbum branco.
Ceva ou vinho? E pra que mais serviria separar verão e inverno?
Coca ou Pepsi? Zero.
Ama ou deixa? Ameixa.

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16 de jul de 2014

Notícias de Brasília - Circula o livrão

RFB edita publicação com história da administração tributária


O vice-presidente Executivo da ANFIP, Vilson Antonio Romero, e o vice-presidente de Assuntos Parlamentares, Floriano Martins de Sá Neto, receberam hoje (15) do coordenador de Educação Fiscal e Memória Institucional da Receita Federal do Brasil, Antonio Henrique Lindemberg Baltazar, a belíssima publicação RECEITA FEDERAL: História da Administração Tributária no Brasil. Também participou da reunião a chefe de divisão de Memória Institucional, Fabiane Paloschi Guirra.


O livro detalha a história da administração tributária desde o descobrimento do Brasil até os dias atuais, fazendo, inclusive, alusão à Receita do futuro. Inicialmente previsto para tratar dos 45 anos da Receita Federal do Brasil, o livro ganhou proporções maiores, explicou Lindemberg.

O processo de pesquisa, redação e produção do material levou dois anos para ser concluído. Escrito por Márcio Ezequiel, servidor da RFB, historiador e escritor, a publicação traz informações preciosas sobre a administração tributária. “Ao buscar suas origens, entretanto, recuamos mais e mais nos idos de outrora, ultrapassando a efeméride inaugural da Secretaria em 1968. Além disso, suas mais profundas raízes só podem ser alcançadas na prospecção de nosso passado mais remoto. A história da administração tributária confunde-se, assim, com a história do Brasil”, explica a introdução da obra.

Fonte: 
ANFIP - Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil

Sindireceita faz parceria para expandir a divulgação do Livro “Receita Federal – História da Administração Tributária no Brasil”.

A presidenta do Sindireceita, Sílvia de Alencar, e o diretor de Comunicação, Breno Rocha, receberam nessa terça-feira, dia 24, o coordenador de Educação Fiscal e Memória Institucional da Receita Federal do Brasil (RFB), Antônio Henrique Lindemberg, e a chefe da Divisão de Memória Institucional da RFB, Fabiane Paloschi Guirra, para conhecer e expandir o acesso ao livro “Receita Federal – História da Administração Tributária no Brasil”, de autoria do Analista-Tributário, Márcio Ezequiel.
Os representantes da Receita Federal do Brasil (RFB) solicitaram apoio do Sindireceita para que a divulgação da obra “História da Administração Tributária no Brasil”, seja ampliada entre os Analistas-Tributários ativos e aposentados. “Essa parceria é importante para facilitar o acesso à uma imagem, memória e preservação institucional que não conta apenas a história da Receita Federal e sim que faz parte da própria história do País. Nossa proposta é levar exemplares para entidades, bibliotecas brasileiras, agências e delegacias da Receita Federal do Brasil”, afirma Lindemberg.
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Nesse primeiro momento, Sílvia de Alencar se comprometeu em divulgar a versão digital do livro – PDF e link – no site do Sindireceita e, em breve, reproduzir exemplares da obra em versão impressa, formato brochura, para os diretores, delegados sindicais e Analistas-Tributários filiados, em todo o Brasil. “O livro simboliza o reconhecimento do trabalho das gerações de Analistas-Tributários que nos antecederam e também é uma forma de estimular a atuação dos futuros profissionais da carreira”, explica Sílvia.
Segundo o diretor de Comunicação, Breno Rocha, a parceria é fundamental para garantir o resgate da memória com riqueza de detalhes. “A participação do ATRFB Márcio Ezequiel na produção do livro retrata a realidade do trabalho com maior clareza”, garante Breno Rocha.

Sobre o livro
A obra mostra a evolução do órgão arrecadador desde suas origens no Erário Régio, no período colonial, passando pelas Provedorias da Fazenda Nacional, a unificação dos departamentos de Rendas Internas com o de Rendas Aduaneiras, até a mais recente fusão com a Receita Previdenciária.
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O livro foi lançado pelo Secretário da Receita Federal do Brasil em 20 de novembro de 2013, na celebração do 45º aniversário da Receita Federal do Brasil, com uma tiragem de cinco mil exemplares impressos e com opção de versão online. A obra, nas versões impressa e digital, foi apresentada ao Secretário, aos Subsecretários e demais convidados no dia 27 de maio de 2014.
O Analista-Tributário Márcio Ezequiel foi o responsável por toda a pesquisa. Ele percorreu diversas regiões do Brasil, como Rio de Janeiro, Brasília e Rio Grande do Sul.
Além do livro, a previsão é realizar uma exposição, contendo vinte banners, que conta, de forma sucinta, a história da administração tributária desde o Brasil Colônia. A exposição ocorrerá em todas as regiões fiscais.

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